Bianca
Derrota é a palavra que me descreve, estou com os ombros mais caídos que antes e preciso tirar meus sapatos assim que fecho a porta de entrada, estou tonta, não devia ter bebido em goles grandes aquele néctar dos deuses.
- Onde estava?
Levanto a minha cabeça e preciso me concentrar para encontrar o rosto de Dante com a luz baixa e ele está lindo, a iluminação alaranjada dá aquele cabelo loiro uma pequena aura angelical e de repente quero cavalgar no seu colo dizendo “sim, anjo, faça como eu gosto.”
- Eu... estava dando uma volta – resmungo enquanto deixo minha bolsa e livro no aparador\, vislumbro a capa e o homem bronzeado e suado nela.
“Não, era nesse homem que eu queria cavalgar.”
- Bianca?
- Desculpe\, estou distraída.
- Estava chorando? – ele está investigando.
Certamente Melissa mandou uma mensagem para ela dizendo que Samuel tinha descoberto a traição e saído de casa. Penso sobre os nudes e quero entrar no Twitter para descobrir se algum vazou, a ideia me enoja e me atrai, como uma vingança mal digerida.
O ódio sobe pelas minhas veias até o coração e o aperta, quando todos souberem da traição, não vão falar sobre Dante, vão falar sobre mim e como não segurei meu homem, mata-lo seria menos doloroso, mas quando minhas palavras saem elas não tem raiva, só dor.
- Quando você parou de me amar?
Fui inundada por uma quantidade de lágrimas e soluços que não cabiam em mim, despencando em litros de choro incontroláveis.
Dante devia vir até mim, e como nos livros, se jogar aos meus pés e implorar pelo meu perdão, no lugar disso ouço uma lata sendo aberta e líquido despejando no copo.
- Não finja que está surpresa.
Sua voz áspera me faz engasgar com meu choro e me forço a respirar fundo enquanto me viro para ele. Dante desvia o olhar, virando o copo de cerveja de uma vez.
- Eu sou uma boa esposa\, não entendo por que precisou dela.
- Não precisei\, eu a quis – Dante me olha nos olhos\, parece inabalável\, alheio ao fato do nosso casamento estar desmoronando – mas não adianta tentar me culpar\, Bianca. Você não se cuida mais\, está cada vez mais...
Ele faz um gesto, apontando para mim.
- Gorda?
Ele suspira e balança a cabeça, não parece estar sofrendo como eu estou, enquanto meu coração é destruído em milhares de pedaços, ele se entendia.
- Quando eu te conheci\, você era a mulher dos sonhos\, linda\, divertida\, inteligente. Agora passa o dia comendo e com a cara enfiada nesses romances sem o mínimo conteúdo agregado.
- Eu ainda sou a mesma\, não tem nada de diferente em mim além do fato que ganhei alguns quilos – agora eu estou indignada.
- Dobrou de tamanho – ele anda pela sala e apanha o terno no sofá – as pessoas falam\, quando me veem com você\, quantas vezes ficaram surpresos ao descobrir que somos casados?
- Está me culpando pelo que você fez\, não é justo – lágrimas voltaram ao meu rosto.
- Eu odeio quando você chora.
- Como queria que eu reagisse\, além de me trair com ela ainda está me culpando por isso.
- Eu não tenho mais o que falar.
- Então é isso? – grito indo atrás dele até o quarto – nosso casamento acabou porque eu engordei?
Dante suspirou pesadamente.
- Não\, Bianca. Acabou porque você descobriu. As coisas estavam em paz\, você tinha um homem de valor para exibir\, eu tinha a escola\, o apartamento e uma vida.
Eu estou perplexa, olhando para ele com o queixo no peito.
- Mas ainda não sei acabou\, preciso consultar meu advogado.
Ele atravessa o quarto e abre a porta do banheiro, parando na porta e me olhando com um desdém que nunca vi em seu olhar.
- Eu sinto muito por você.
Não tenho palavras para responder, ele fecha a porta e me vejo sozinha em nosso quarto, um lugar que devia ser um antro do puro amor entre um casal.
Com o coração destruído, me obrigo a escorregar da cama e caminho lentamente até a sala, onde me deito no sofá, penso que Dante vai sair do banho com a cabeça fria e vir atrás de mim, mas ele não vem.
Eu sabia que meu casamento não estava bem, percebi isso quando ele parou de me procurar e claro, pensei mesmo que era por eu ter engordado. Porra, eu tenho espelho. Não andava por aí em roupas curtas e nunca mais fui a praia, apesar disso essa é a primeira noite que tenho ódio do meu corpo.
Me sinto ansiosa e doente, é tarde quando me levanto para vomitar os Hi-fis e na volta pego minha bolsa, se eu tivesse pegado apenas meu celular não estaria com o cartão de Samuel na mão mandando uma mensagem.
“A vida é mesmo uma droga.”
Sem oi, nem nada. Só mais um de meus dramas, começo a chorar de soluçar outra vez, quero enfiar as mãos em minhas dobras e arrancar todas elas, esticar a pele e prender com grampo, finalmente entendo a Pequena Sereira.
Acabo pegando no sono pouco depois e quando acordo, pego o celular para ver a hora. Há trinta e quatro mensagens de Samuel.
Me sento depressa, esquecendo totalmente que meu corpo todo doía e minha cabeça latejava. As primeiras mensagens eram só para saber se era mesmo eu, as demais foram ficando mais desesperadas gradativamente. Até a última.
“Por favor, atende. Estou preocupado”
Só então vi dezessete chamadas perdidas. Digito de volta.
“Desculpe, acho que bebi demais eu acabei dormindo. Não quis te deixar preocupado.”
“Tudo bem, Hi-fi parece uma bebida inofensiva, mas é bom ficar esperta kkkkk como foi?”
“Ahhh longa história.”
“Tenho tempo.”
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Atualizado até capítulo 66
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