Obrigação de Pai

Samuel

Melissa não desistiu de suas exigências para o divórcio, mas felizmente o advogado que me foi indicado conseguiu reverter o processo de divórcio litigioso e agora podemos negociar.

A única coisa que entramos em acordo era sobre a guarda compartilhada, com residência ainda no mesmo apartamento, mas com alguns finais de semana comigo.

Eu não estava pronto para receber uma criança, mas esse é um hotel de luxo, tem sauna, piscina aquecida e uma área infantil. Não tem como ele não se divertir. A porta do elevador abre e só Yuri está ali dentro, sem sinal de Melissa.

- E sua mãe?

- Tá lá embaixo – ele arrasta uma mochila de rodinhas\, arrastando os pés como se estivesse entediado.

- Qual é\, amigão? Vai ser divertido. Você almoçou?

- Almocei\, mas to com fome.

Olho no reogio de pulso e já passa das quatro da tarde.

- Quer comer o que?

Yuri dá de ombros e entra na porta que indico. Eu não sei o que fazer, ligo a tv e começo a surfar por canais.

- Não tem Netflix?

- Tem\, mas eu não lembro a senha – entrego o controle para ele.

Yuri coloca o controle intocado na cama e um minuto depois está jogando no tablet. Então estou tentando recuperar a senha, é sempre a mesma para tudo referente a casa, mas já devia imaginar que Melissa mudaria tudo só para provocar, desisto quando percebo que vou ter que ligar o computador e acessar o email.

- Quer sair? – pergunto ao garoto que não dá ouvidos\, entretido com o jogo – Yuri? – chamo com a voz forte\, quase ameaçador.

- Pra onde? – ele se vira para mim\, os olhos parados e tristes.

- Não sei\, o que quer comer?

- A gente pode ir no Mac?

Quero dizer não, nos últimos dias não tenho comparecido á academia com a frequência de antes e a última coisa que quero é me entupir de refrigerante, mas digo que sim e ele se anima a caminho do carro.

- Vamos buscar a mamãe?

- Não\, é só eu e você.

- Ah – olho pelo retrovisor e o vejo virado para a janela.

- O que foi? Não gosta de passar o tempo comigo?

Yuri encolhe os ombros, não que eu não saiba a resposta, ainda não sei o que estou fazendo, entro no estacionamento do shopping em seguida, é sexta a noite e está lotado, não há mesa para sentar e Yuri não está cooperando, brigando e fazendo birra porque está com fome, mesmo eu tendo explicado mil vezes que a fila está grande.

Quando é minha vez de pedir, estou com a cabeça estourando.

- Eu quero o Mickey – Yuri grita a plenos pulmões sobre o balcão.

Ignoro.

- Um número um e um mac lanche feliz.

- Qual é o brinquedo\, senhor?

Mas será que ela faz de proposito? Além da voz nasalada irritante, ela acabou de ouvir o menino berrar que quer o Mickey.

- O Micckey.

- Esse tá em falta\, temos o três e o cinco.

Ela bate o dedo contra um encarte no balcão e tenho que procurar pelos números pequenos ao lado das figuras.

- O Pateta.

- Eu não quero o Pateta\, quero o Mickey – Yuri começa a chutar o ar e gritar como se tivesse dois anos e não cinco.

- Pra viajem – resmungo e ela me dá a nota.

Yuri continua esperneando e puxando minha camisa enquanto eu tento manter a calma e não explodir com ele, mas estou a um passo, mantenho ele perto de mim e rezo para o pedido não demorar. Quando pego o saco de papel sobre o balcão ele resolve dar outro ataque.

- A gente vai embora?

- Você come no carro.

- Eu quero ir no brinquedão – ele me puxa e o arrasto pelo corredor entre a multidão de adolescentes e casais apaixonados de mãos dadas.

Yuri é particularmente na escada rolante, tentando a todo custo se jogar no chão, mantenho minha mão firme em seu braço, mas está quente e minha palma está suada, quando chegamos ao carro, seu braço fino escorrega na minha mão até que eu esteja segurando seu pulso, sinto que vou perdê-lo então aperto mais e ouço um “trek”.

- Ai – ele grita.

Meu coração aperta e solto seu braço, ele está com a mão em volta do pulso e prestes a começar a chorar.

- Desculpa\, filho. Tá doendo?

- Muito – ele começa a chorar\, rios de lágrimas pelo seu rosto e a voz baixinha\, tão diferente do escândalo de segundos atrás.

- Deixa eu ver – seguro seu braço e tento rodar sua mão\, mas ele grita – tá bem. Vou te levar ao médico.

Abro a porta da frente e o coloco no banco do passageiro. Quero mostrar que dou conta de consertar meu erro e ofereço o lanche para ele, sua mão está apoiada no colo e quando não mexe Yuri não sente dor, então tenho que dividir minha atenção entre o trânsito e alimentá-lo de tempos em tempos.

Outra coisa que não quero fazer e preciso, é ligar para Melissa.

Assim que o lanche acaba Yuri chora pedindo pela mãe, ligo para ela pedindo que ele faça silêncio. Yuri não atende e ela se desespera.

- O que aconteceu? – diz assim que atende.

- Yuri se machucou no shopping – omito a verdade porque sei como pode ser ruim para o divórcio ter deslocado o pulso do meu filho.

- Eu vou buscá-lo.

- Vou leva-lo ao hospital\, se quiser pode encontrar a gente lá.

- Filho\, a mamãe tá indo tá\, canta a musiquinha do “opa\, caiu levanta”.

- Mas machucou – ele choraminga.

- Eu sei\, amor. Mas vai te ajudar – ela faz uma pausa e quase desligo – e você Samuel... faz só duas horas.

Ela desliga e estou me sentindo um inútil, quando olho para Yuri é pior, vê-lo cantar sozinho enquanto chora me transforma em um monstro.

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Judes Nascimento

Judes Nascimento

mal criado, cinco anos já sabe se comportar na rua

2024-06-06

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