Fuga

Samuel

Nunca tive uma opinião formada sobre Dante, dos anos em que vivíamos no mesmo prédio, nos encontramos poucas vezes pelo hall e nas reuniões de condomínio, nunca estive em uma reunião de pais na escola do meu filho, isso era tarefa de Melissa. Aliás ela era do conselho escolar, sabia das coisas antes de todo mundo.

Mas confesso que depois de descobrir que ele estava comendo minha mulher, passei a nutrir um ódio por ele que eu quase não era capaz de conter.

Agora, com Bianca me contando sobre a indiferença dele e de como culpou o corpo dela pela falta de interesse no marido, tudo o que eu queria era fazê-lo engolir a própria língua.

“Sei que não sou bonita, mas esperava que o amor fosse mais que atração física.”

Bianca não tem que pensar assim de si mesma. Na noite anterior, tive pensamentos perversos toda vez que percebia seus enormes seios se apoiarem sobre a mesa toda vez que ela se inclinava para frente a fim de me ouvir melhor.

Certamente Dante não tinha pau suficiente para atravessar aqueles seios, mas não podia dizer isso a ela então enviei algo parecido.

“Isso diz mais sobre as inseguranças dele.”

“Obrigada por me ouvir, preciso ir trabalhar.”

“Pode ficar de olho no Yuri para mim?”

“Sempre fico.”

Eu sei disso, se tem uma coisa que Melissa nunca reclamou é da educação do nosso filho, talvez porque está tendo um caso com o diretor, mas Bianca parece mesmo uma pessoa boa e gentil.

Quero dizer isso a ela, mas meu telefone toca outra vez. Eu preciso atender, mas não quero ter essa conversa, olho no relógio e percebo que já são quase sete, decido que vou trabalhar do hotel e mando uma mensagem para minha secretária.

Sei que talvez Melissa me procure na empresa e quero evitar que meus funcionários descubram que fui traído.

É engraçado como a vítima sempre é a que sente vergonha.

Abro meu notebook e começo a trabalhar. Tenho que desenvolver um software do zero para uma franquia de padarias que chegou a São Paulo. O sistema deles é uma bagunça e quase nada pode ser aproveitado.

Perto da hora do almoço meus dedos começam a doer e decido fazer uma pausa para um lanche. Não estão mais servindo café da manhã então peço serviço de quarto, não tem nada ali que eu possa comer, então opto pela salada de frutas.

Vou ficar com fome muito em breve.

É quando pego o celular que percebo, além das inúmeras ligações e mensagens não lidas de Melissa, uma de Bianca que faz minha espinha gelar.

“Sua esposa está aqui, não falou com ela?”

Faço uma ligação por vídeo que é ignorada e Bianca me liga por voz em seguida.

- Desculpe\, não gosto de chamada de vídeo.

- Tudo bem – ignoro seu comentário\, não faz diferença de como vamos nos falar – Melissa procurou você?

- Não exatamente\, ela veio buscar o Yuri mais cedo\, disse que ele tinha uma consulta.

- Ela não me disse nada – saio da conversa e abro as mensagens de Melissa\, um monte de pedidos para conversar e diversos insultos\, mas nada falando sobre Yuri – mas pode ser que ele tinha mesmo\, o que ela disse?

- Falou sobre a reunião de condomínio\, perguntou se eu estava bem\, por que parecia abatida. Não parecia saber que descobrimos.

- É mentira\, ela sabe. Acho que\, ontem\, assim que saiu do banho e viu que eu tinha ido embora\, ela ligou pro Dante e contou a ele.

- Eu sei\, só não entendi por que ela agiu assim.

- Melissa quer saber se eu e você temos nos falado. Contou alguma coisa a ela?

- Não\, só disse que eu estava bem.

- Me diz uma coisa\, na saída da escola\, os pais pegam os alunos na sala?

- Não\, eles ficam no pátio e são chamados no microfone quando os carros vão estacionando. Só quando saem mais cedo que eu os levo até lá embaixo. Ah – ela faz uma pausa e me orgulho da sua inteligência – agora entendo. A consulta foi uma desculpa para falar comigo.

- É o que eu acho\, mas ela não vai mais te incomodar. Vou ligar para ela.

- Mas aí ela vai saber que estamos conversando.

Respiro fundo, não tem muito o que pensar sobre o assunto, mas sinto o medo na voz de Bianca e quero tranquilizá-la.

- Sinceramente\, eu não me importo mais com isso.

- Eu entendo\, Samuel. Você e Melissa se separam por causa da traição\, mas eu ainda não me resolvi com o Dante. Até que a gente tenha conversado é melhor mantermos em segredo. Me desculpe.

- Não tenho do que te desculpar.

Claro que minha resposta é vazia e espero que Bianca tenha notado. Depois de tudo que Dante disse a ela na noite anterior era de se esperar que ela fizesse as malas dele e o colocasse para fora.

Mas entendia que ela estava machucada e sofrendo, o ódio que sinto do Dante chega a níveis astronômicos, quase me sinto sufocado, Bianca está digitando e não consigo olhar para a tela. Desligo o celular e mantenho assim, foco no meu trabalho o resto do dia e quando percebo já é noite.

Faz vinte e quatro horas que estou preso nesse quarto de hotel. Mas me obrigo a continuar ali, estou entediado e me sinto carente, não sei como lidar então faço o que qualquer homem faz quando está mal.

Abro o navegador, coloco os fones de ouvido e digito Pornhub no google, passo a tela de início sem achar nada interessante até que decido abrir a busca, meus dedos pairam sobre o teclado, eu não devia, mas estou pensando em Bianca, digito BBW e apago, tenho nojo de mim mesmo por taxar uma mulher da mesma forma que Dante fez.

Mas ainda estou pensando nela debruçada sobre a mesa do bar e ficando duro. Digito “espanhola, seos grandes” e dou enter.

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Atualizado até capítulo 66

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