Escritório do Diretor

Bianca

Não tive coragem de confrontar Dante no dia anterior, embora eu tenha ensaiado tanto uma forma de abordar o assunto que ele até me perguntou o que havia de errado comigo.

Nada. Foi a resposta que dei, depois me tranquei no banheiro e chorei, disse a ele que o livro era triste, claro que ela, o mocinho estava morto. Fiz uma nota mental para não ler aquela autora outra vez, mas sei que vou ignorar meus próprios conselhos e comprar a coleção toda.

Hoje ele saiu mais cedo, então preciso dirigir até a escola. Não tenho pressa, minha aula começa em uma hora, desço pelo elevador até o hall e desço, preciso apenas dar uma espiadinha em Samuel. Atravesso o pátio entre um prédio e outro, a academia fica no da frente. As paredes de vidro não escondem nada.

Nunca entrei na academia, na verdade, eu evito passar por ela e quando preciso faço isso correndo. Mas hoje eu demoro, ando devagar, olhando para cada sinal de movimento lá dentro, vejo Samuel de costas, puxando uma barra em um aparelho grande, os músculos de suas costas se contraem com o movimento e há uma única linha de suor descendo pela sua pele nua.

Não sei se é permitido treinar sem camisa ali, mas não me importo.

Agora estou me perguntando por que Melissa trairia, ele era mais rico que meu marido, mais bonito, maior e mais gostoso também.

“Porra, Bianca. Para de pensar essas coisas”

Abaixo a cabeça e corro para o hall do prédio da frente, entro no elevador e desço para a garagem, voltando para pegar meu carro. Meu coração aperta quando percebo a vaga vazia logo a frente. Penso nos possíveis motivos para Melissa ter saído de casa uma hora antes de levar o filho a escola.

Feira, supermercado, pilates, caminhada ao ar livre, transar com meu marido.

De repente tenho nojo da cadeira de couro no escritório dele, da mesa de vidro onde ele deve estar esmagando os seios dela enquanto a pega por trás.

Entro no carro e choro, tenho feito muito isso.

Quando consigo me recompor para dirigir, acelero, estou decidida e pegá-los no pulo. Mudo de ideia no meio do caminho, eu não sei se quero ver. Com certeza a imagem não sairia da minha cabeça por muito tempo.

Rodo com o carro pelo quarteirão até ficar quase atrasada então procuro uma vaga no estacionamento de funcionários, antes de subir os três andares correndo até minha sala de aula.

Ali eu me encontro. Em uma das paredes, tem um painel de vidro cheio de atividades coloridas dos alunos, duas mesas muito longas e baixas de madeira com doze cadeiras coloridas em cada uma, minha mesa fica na frente do quadro branco e também tem muitas cores. Na parede do fundo estão os armários de materiais e na lateral, grandes janelas de vidro que dão para a Avenida Paulista.

Ligo todos os tablets nas mesas antes dos alunos entrarem e sorrio para um excelente dia, pelo menos para eles.

Depois da aula decido que tenho que falar com Dante, não vai ser fácil, nem simples, mas preciso. A secretária não perde tempo me anunciando, embora me olhe da cabeça aos pés, eu sorrio, como sempre fiz.

- Algum problema? – ele não se importa em ser gentil.

- Com a escola? Não.

Me sento na cadeira em frente da mesa e passo os dedos pelo vidro, não tem marcas de seios, mas talvez ele não tenha tirado a blusa dela, ele nunca tirava a minha.

- Está quieta – ele solta o teclado e me encara – o que está acontecendo?

- Nunca fizemos sexo aqui.

- Porque é nosso local de trabalho\, imagina se um pai entra ou outra professora.

- A escola é nossa\, já estivemos aqui várias vezes fora do horário de aula.

- Está dizendo que está quieta porque nunca transamos na mesa?

- Você quer?

Dante balança a cabeça lentamente e apesar da minha mordida sexy no lábio inferior ele não sorri. Seus dedos voltam para o teclado.

- Tenho que terminar a cotação para a festa de Dia dos Pais\, se não tem nenhum problema\, pode voltar para a sala de aula\, a turma da tarde chega em quinze minutos.

- Tem razão\, vai pra casa comigo?

- Vou ficar aqui até mais tarde. Eu realmente preciso terminar isso. Querem cobrar uma nota em uma caneta de ferro.

- Bem\, a ideia de deixar os alunos pintarem uma tela ainda é válida.

- A ideia é linda\, Bianca. Mas não acho que um pai vai tirar uma obra de arte cara da sala para pendurar um quadro do filho no jardim de infância\, isso não é presente.

- Eu faria – respondi com sinceridade.

- Mas você não tem filhos.

Suas palavras são secas e vazias, eu sei que ele não quer me provocar, mas o faz. Respiro fundo e digo que o deixarei trabalhar.

Claro que vou descer a cada meia hora para ver se o carro de Melissa está na garagem até que meu marido chegue do trabalho. Também vou fazer alguma besteira como pedir comida japonesa e chorar assistindo algum romance.

Mas me surpreendo em ver a BMW branca estacionada na vaga na frente da minha, subo para meu apartamento sozinha, estou ouvindo o cachorro latir e não faço ideia de onde vem o som. Ignoro. Estou inquieta e acho que vou surtar a qualquer momento.

Preciso sair.

Ligo para minhas duas únicas amigas na cidade, estão ocupadas como sempre. Odeio paulistas. Olho para o livro na mesa de centro e meus olhos se enchem de lágrimas. Só tem um jeito de ler sem chorar, se eu estiver em um lugar público, odeio chorar em público.

Então pego o livro e saio. É quase noite e está quente, muito quente. Não vou longe, me sento na padaria em que costumava comer com Dante enquanto observávamos nosso prédio ser construído, comprar na planta tem suas vantagens.

Meu peito dói em pensar na Bianca de doze anos atrás, me recuso a chorar.

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Atualizado até capítulo 66

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