Aquele dia foi uma virada da vida de Marija. De uma hora para outra ela perdeu o pai e a estabilidade. Não sabia mais se podia continuar a viver na fazenda e nem sabia para onde iria. De quebra, estava levando em sua caminhonete um baita soldado russo.
Por várias vezes ela se perguntou o que estava fazendo, mas agora era tarde para desistir. O seu destino se cruzou com aquele brutamontes e agora ela só esperava que ele se curasse logo e sumisse de suas vistas.
Marija levou Vicenzo para dentro de casa e o abrigou no quarto de seu pai. Após, ela pegou o kit de primeiros socorros para o ajudar.
Vicenzo, apesar das merdas que falava, já estava pálido e fraco, após perder muito sangue.
Foi fácil para Marija conseguir fazer um curativo nele, pois assim que ela o colocou na cama, ele desmaiou.
Com ele desmaiado, tudo ficou calmo. E era estranho, já que uma guerra estava estourando. Muita morte, miséria estava por vir e ela era apenas uma garota de dezoito anos sozinha no mundo.
Marija não tinha muitos recursos, tudo que a fazenda recebia com a venda das safras eram gastos para planejar uma nova safra cuidar dos animais da fazenda e pagar as contas do ano todo.
Tudo era administrado pelo seu pai e sem ele, ela estava sem chão.
Pensando sobre essas coisas, ela começou a preparar o jantar. Ela liga a tv da cozinha e os jornais do mundo todo retratam a guerra. A formação dos soldados russos, prontos para atacar e as pessoas fugindo do país.
Ela morava no interior, afastada dos grandes centros e por isso talvez tenha presenciado somente um pouco disso tudo, mas até quando ela estaria segura ali?
De repente, as luzes todas se apagam. Houve um blackout e ela corre assustada.
Tranca todas as janelas e portas que se lembrava pega uma vela, acende e pega o caldeirão com a sopa que estava preparando e vai para o quarto de seu pai.
Rapidamente, abre o guarda-roupas do pai e pega a sua velha espingarda. Ela carrega a arma, se lembrando bem como fazia, já que já tinha caçado coelhos com o pai.
Ela se senta na cama, e fica olhando para a porta, apontando a arma. Estava muito tensa com a situação.
No ambiente mal iluminado, Vicenzo abre os olhos e a vê, apavorada. O pavor não transparecia em seu rosto, mas um homem como Vicenzo conseguia sentir o cheiro do pavor no ar.
Ele sabia que ela estava com muito medo, mas mesmo assim estava ali, com a espingarda apontada para a porta, esperando atirar assim que alguém entrasse. Aqueles eram tempos difíceis e Vicenzo fazia parte dos atacantes que pisoteavam as vítimas inocentes pelo caminho. Vítimas como Marija, que não tinham nada a ver com brigas políticas.
O silêncio perdura por muito tempo. Ela acaba relaxando e descansando a arma. Nesse momento ouve a voz ao seu lado:
— Se alguém invadir, essa espingarda velha não vai nos proteger. Deveria comer e relaxar. Se a morte entrar por aquela porta, estamos födidos nós dois.
Ela o ignora e continua com espingarda em seu colo, olhando para a porta.
— Esse cheiro de comida está me deixando com fome, ouviu? Além de chutar a minha ferida, agora vai querer me matar de fome?
Marija bufa de raiva e pega uma tigela que trouxe, serve a sopa e coloca em cima do peito dele. Após volta a se sentar no mesmo lugar.
— Como eu vou comer assim, maledetta? Você precisa me dar a sopa!
— Se vira! — ela diz, sem olhar para ele.
Vicenzo tenta pegar a borda da sopa com a boca, por causa da fraqueza não estava conseguindo levantar os braços.
Ele se esforça e acaba derrubando toda a sopa em seu rosto.
— Caspita! — ele xinga, com o rosto coberto de sopa.
Marina vê a cena e respira fundo e então pega a tigela e serve mais sopa.
Ela se senta bem próximo a cabeça dele e levanta a sua cabeça com uma mão, com a outra, encosta a borda da tigela em sua boca e vai entornando lentamente até que ele tome tudo.
Marina fica por muito tempo acordada naquela noite, em um suspense que parecia eterno. Vicenzo a acompanha, ele também estava tenso, pois se morresse, sabia que ia não ia cumprir a promessa que fez a sua mãe, de voltar vivo e intacto.
O galo canta e o dia amanhece. Marija abre os olhos, percebendo que estava com a cabeça apoiada em algo rijo. Quando percebe, vê que por algum motivo dormiu com a cabeça apoiada no peito de Vicenzo.
Ele também percebeu, mas resolveu fingir que continuava dormindo.
Marina se levanta e resolve sair do quarto. Leva consigo o caldeirão de sopa da noite passada e as tigelas sujas. Ela desce as escadas e chega a cozinha.
Abre a janela e olha no horizonte. Não vê nada de anormal e por isso se acalma. Ela abre a porta dos fundos, da de comer a alguns animais e volta para a cozinha.
Ao abrir a geladeira, percebe que eles continuavam sem energia e o freezer estava todo descongelado.
Ela vê a carne de cordeiro que estava guardando para preparar no aniversário de seu pai que chegaria em breve.
Uma lágrima rola, percebendo que nunca mais poderá comemorar.
Marina pega o cordeiro, pensando em preparar antes de estrague. Ela se vira e deixa a carne cair no chão.
Seu coração acelera e um frio percorre a sua espinha. Na cozinha, havia um homem estranho, que sorria, apontando uma arma em sua direção.
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Atualizado até capítulo 73
Comments
Naiara Neta
pqp e agora misericórdia gente
2025-03-17
0
Maria Pinheiro
Ai caraca!! a guerra faz isso com as pessoas até quem era passifico se transforma em um invasor.
2024-11-15
1
Arlete Fernandes
Ai meu Deus ela está perdida isso sim!
2024-11-08
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