O sol da manhã já estava alto no céu quando Lucas se preparava para o confronto que, de certa forma, ele sabia que estava inevitável. Depois da conversa com Sofia, ele sentiu que havia dado o primeiro passo importante em direção à liberdade. Mas agora, ele precisava encarar Clara e ser honesto com ela. A tarefa parecia simples na teoria, mas a realidade era bem diferente.
Ele respirou fundo antes de sair de seu quarto, tentando reunir forças. Clara sempre foi impecável, calma e controlada — as qualidades que sua família esperava de uma futura esposa para o herdeiro dos Almeida. Mas o que ele queria? Era isso que ele ainda tentava entender. O que ele desejava, e o que ele precisava fazer para conseguir a liberdade de ser ele mesmo.
Desceu as escadas e seguiu pelo corredor até o escritório de seu pai, onde Clara estava sentada em uma das poltronas, com um livro em mãos, mas claramente em uma atitude de espera. Quando ela o viu entrar, seus olhos se iluminaram de forma que fez o peito de Lucas apertar. Ela era bonita, inteligente e tinha um controle quase perfeito sobre sua vida. Mas, para Lucas, tudo isso parecia vazio agora. Ele estava começando a perceber que, por mais que ela fosse a mulher perfeita aos olhos de sua família, ela não era a mulher com quem ele queria compartilhar o resto da sua vida.
"Lucas," Clara disse, colocando o livro de lado e levantando-se. "Eu estava esperando por você."
Ela não parecia nervosa, nem insegura. Clara tinha a habilidade de transmitir confiança até nas situações mais delicadas. Mas Lucas sabia que, por trás dessa confiança, havia uma mulher que também ansiava por algo — ou, talvez, por alguém.
“Precisamos conversar, Clara,” Lucas disse, tomando um lugar à sua frente. Seu tom era firme, mas seus olhos estavam longe. Ele não queria ver a expressão que ela usaria quando ouvisse o que ele tinha a dizer.
Ela o observou com atenção, a expressão se tornando mais séria. “Claro. Sobre o que?”
“Sobre nós,” ele respondeu. “Sobre o nosso futuro.”
Clara permaneceu em silêncio por alguns momentos, seus olhos fixos em Lucas. Ele podia sentir a tensão no ar, como se algo estivesse prestes a romper. Ela estava tão acostumada a ter tudo sob controle, mas Lucas podia perceber que ela sabia o que estava por vir.
“Eu imagino que já saiba onde isso vai dar, Lucas,” Clara começou, sua voz suave, mas com um tom de incerteza. “Você... está em dúvida. Eu vejo isso nos seus olhos. Mas você não entende, não é? O que temos é algo que é mais do que você e eu. Isso é sobre a nossa família, nossa linhagem, nosso legado.”
Ele sabia que Clara pensava assim. Ela sempre falava sobre a continuidade da família, sobre o que era esperado, sobre o que deveria ser feito. Mas agora, ele não podia mais continuar ignorando sua própria vontade.
“Eu não posso mais viver dessa forma, Clara,” Lucas disse, sua voz mais baixa agora. “Eu não posso mais viver para agradar aos outros. Eu pensei que queria isso. Pensei que queria um futuro com você, mas agora eu sei que estou fazendo isso por obrigação, não por amor. Não é isso que eu quero.”
Clara o olhou por um momento, o rosto perfeito sem uma ruga de preocupação. Mas nos olhos dela, Lucas viu algo que não havia notado antes: uma sombra. Clara não estava tão imune quanto ela queria parecer. Ela sabia o que estava em jogo, e, em algum lugar, uma parte dela também estava sendo arrastada para essa tempestade que estava se formando.
“Então, o que você quer, Lucas?” ela perguntou, a voz mais firme, quase desafiadora. “Você acha que tem o direito de simplesmente desistir de tudo isso? Você acha que pode simplesmente romper com toda a sua responsabilidade para seguir um sentimento?”
Ele a olhou nos olhos, sem hesitar. “Sim, eu acho. Porque, no final, se eu não fizer isso, eu vou perder a mim mesmo. E não posso permitir que isso aconteça.”
Clara ficou em silêncio, o olhar fixo nele. Ela parecia estar processando suas palavras, mas também havia uma calma inquietante em sua expressão. Ela estava planejando algo, e Lucas não conseguia mais distinguir se o que ela estava pensando era algo calculado ou apenas uma reação instintiva ao que ele acabara de dizer.
“Lucas, você sabe que eu te amo, não sabe?” Clara disse, a suavidade na sua voz retornando. “Eu amo você, e eu faria qualquer coisa para garantir que nossa família continue unida, como sempre foi. Sei que você está confuso agora, e não sei o que se passa em seu coração, mas eu não posso deixar que você jogue tudo isso fora tão facilmente. Nossa união não é só sobre nós dois. É sobre algo muito maior.”
Ele sentiu uma dor no peito ao ouvir isso. Clara não estava falando sobre amor; ela estava falando sobre dever. Ele havia sido uma peça importante em um jogo que ela não queria perder. Para ela, isso nunca fora sobre o que ele queria, mas sobre o que deveria ser.
“Eu sei o que você está dizendo, Clara,” Lucas disse, com a voz baixa. “Mas, por mais que eu entenda as suas razões, eu não posso continuar com esse compromisso. Não posso continuar a viver uma mentira.”
Clara permaneceu em silêncio por mais alguns instantes, suas mãos se fechando com força sobre a borda da cadeira. O que ela diria agora? O que ela faria?
Ela finalmente respirou fundo e disse, com uma calma assustadora, “Se você realmente acredita que deve seguir seu próprio caminho, Lucas, então entenda que isso não será fácil. Mas, se for essa a sua decisão, eu respeitarei. Só não espere que tudo seja simples. Existem consequências para nossas escolhas.”
Lucas sabia que ela estava tentando controlá-lo, manipulá-lo. Mas ele já não estava mais disposto a ser controlado. Ele fez a única escolha que poderia fazer — a escolha de ser honesto consigo mesmo.
“Eu entendo, Clara,” Lucas respondeu, levantando-se. “E farei o que for necessário para que todos entendam que essa é minha escolha.”
Sem mais palavras, ele se virou e saiu da sala, sentindo o peso da decisão sobre seus ombros. Ele sabia que nada seria fácil a partir daquele momento. Clara não desistiria tão facilmente, e o futuro que ele sonhava parecia estar longe de sua realidade.
Mas, ao menos, ele estava sendo verdadeiro consigo mesmo. E isso era tudo o que ele precisava naquele momento.
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Atualizado até capítulo 45
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