CAPÍTULO 07

    O latejar na minha cabeça parecia um aviso de que a noite passada havia sido um completo caos. Me sentei na cama, ainda um pouco zonza, tentando puxar qualquer lembrança nítida, mas tudo o que vinham eram flashes desconexos, um quarto, um homem, mãos fortes me segurando, prazer. Mas o rosto dele? Vazio. Um borrão na minha memória.

Não importava.

O que importava era que eu finalmente tinha feito. Eu não era mais virgem.

A droga que tomei foi forte demais, e nunca mais eu usaria novamente. Nunca mais. Mas, de certa forma, era como se aquele capítulo tivesse sido riscado da minha história sem deixar rastros. Talvez fosse melhor assim.

A partir de agora, tudo mudaria. Inclusive eu.

    Após me arrumar, segui direto para a cozinha, o aroma de café fresco já preenchia o ambiente. Teresa, como sempre, já estava cuidando de tudo. Ela virou-se quando me viu e sorriu.

— Bom dia, Luna. Pelo jeito, alguém acordou de bom humor.

Sorri de lado e me aproximei, beijando sua bochecha.

— Bom dia, Teresa. Acho que finalmente tenho motivos para isso.

Ela arqueou uma sobrancelha, mas sorriu de volta.

— Que bom ver você assim. É uma mudança bem-vinda.

Antes que eu pudesse responder, senti um braço passar pelo meu ombro.

— Bom dia, pequeña. — Edgar surgiu ao meu lado, me analisando com curiosidade. — Esse brilho nos olhos tem algo a ver com a noite de ontem?

Peguei uma xícara de café e dei um gole antes de encará-lo.

— Digamos que sim. E falando nisso… — Cruzei os braços. — Vamos sair daqui a pouco. Quero ir ao salão de beleza e depois a um estúdio de tatuagem.

Eles me olharam como se eu tivesse acabado de falar que explodiria o mundo.

— O que foi, gente? — Ri, colocando a xícara sobre a mesa. — Eu avisei que depois da noite de ontem, uma nova Luna nasceria.

Teresa suspirou, balançando a cabeça, enquanto Edgar sorriu de canto.

— Estou curiosa para ver essa nova versão.

Estávamos ali, tranquilos, até que meu celular vibrou sobre a mesa. O nome na tela fez meu estômago afundar.

Mami.

Paula Borbón, minha mãe, quase nunca ligava. Quando o fazia, raramente era para algo bom.

Suspirei e atendi.

— Mami?

Sua voz veio séria, cortante.

— Como você está? Não atendeu minhas ligações ontem.

Apertei o telefone contra o ouvido, mantendo a voz controlada.

— Eu estava ocupada. Me desculpe.

— Ocupada? — Ela riu sem humor. — Se divertindo, talvez? É isso que você faz agora? Se diverte enquanto seu pai e seus irmãos estão mortos?

Minhas mãos se fecharam em punhos. Teresa e Edgar já me olhavam com cautela.

Respirei fundo.

— Era o meu aniversário, Mami.

— Sim, seu aniversário. — Sua voz ficou mais fria. — Mas enquanto eles viverem, não há comemoração. Enquanto os assassinos dos meus filhos respirarem, não existe nada a ser celebrado. Não se esqueça do nosso objetivo, Luna. Nunca se esqueça.

A linha ficou muda.

Fiquei ali, segurando o celular, absorvendo suas palavras.

   Minha mãe sempre foi uma mulher fria e calculista, mas, depois da morte dos meus irmãos, algo nela se despedaçou por completo. Desde então, ela vive nos Estados Unidos, em segurança, longe de tudo o que um dia foi nosso. Antes da carnificina, ela havia se separado do meu pai ao descobrir suas infidelidades, e foi ele quem ficou com a nossa guarda. E mesmo longe, suas sombras ainda pairavam sobre mim.

— Está tudo bem? — Teresa perguntou, sua voz carregada de preocupação.

— Sim. — Disse automaticamente, mas era mentira.

...----------------...

Horas depois

    O cheiro forte de produtos químicos e o zumbido baixo dos secadores criavam a atmosfera típica de um salão de beleza sofisticado. Eu me olhei no espelho uma última vez antes de fechar os olhos e respirar fundo. Aquela era a última vez que via a antiga Luna.

— Tem certeza? — a cabeleireira perguntou, segurando uma mecha dos meus cabelos negros entre os dedos.

Abri os olhos e a encarei pelo reflexo no espelho.

— Certeza absoluta.

   Ela assentiu e começou o processo de mudança. O cheiro forte de descolorante tomou conta, e o tempo passou de forma estranha, como se eu estivesse em um transe. Vi as mechas escuras perderem a cor aos poucos, se tornando um loiro pálido até atingirem o tom exato que eu queria, platinado.

Quando o secador foi desligado e os fios caíram lisos sobre meus ombros, senti um arrepio.

Levantei-me devagar, caminhando até um espelho maior.

A mulher que me encarava de volta não era a mesma que havia entrado ali.

    Os cabelos antes negros como a noite agora estavam quase brancos sob a luz do salão. Meu rosto parecia mais afiado, meus olhos mais intensos. Toquei os fios, sentindo a textura nova, e um sorriso carregado de satisfação surgiu nos meus lábios.

— E então? — Edgar perguntou atrás de mim, os braços cruzados enquanto me observava com um olhar avaliador.

Desviei o olhar do espelho e encarei minha própria imagem de novo.

— Agora sim. Agora sou eu.

Ele não disse nada, apenas sorriu de canto e fez um sinal para sairmos.

— Pronta para a próxima parada?

— Mais do que nunca.

No estúdio de tatuagem

   O cheiro de tinta e desinfetante tomou conta das minhas narinas assim que entrei no estúdio. O som das máquinas funcionando preencheu o ambiente, misturado com um rock suave tocando ao fundo.

O tatuador, um homem robusto, de barba cheia e braços cobertos por tatuagens, nos olhou de cima a baixo antes de se apoiar no balcão.

— Quer marcar um horário ou é para agora?

— Agora. — Respondi sem hesitar.

Ele estreitou os olhos, me analisando.

— Primeira tatuagem?

— Sim.

— E já quer pegar uma grande? — Ele bufou, balançando a cabeça. — Você sabe que vai doer pra caralho, né?

Segurei o olhar dele, firme.

— A pior dor da minha vida eu já passei. Essa aqui? Não é nada.

Ele arqueou as sobrancelhas, claramente intrigado, mas não discutiu mais.

— Certo. Vamos escolher o desenho.

Mostrei a ele o que queria, um design que cobriria boa parte do meu braço.

Quando ele assentiu e preparou os materiais, Edgar se sentou ao meu lado, cruzando os braços enquanto me observava.

— Não vai nem tremer?

Sorri de canto.

— Não, eu não vou.

    A máquina começou a zunir, e logo senti a agulha tocar minha pele. O ardor inicial veio rápido, queimando como uma navalha afiada, mas eu apenas relaxei os ombros e encarei o teto. A dor se tornou um zumbido de fundo, algo insignificante comparado ao peso que já carregava dentro de mim.

O tempo passou, e Edgar continuou ali, em silêncio, apenas me observando. Quando a sessão terminou, meu braço estava dolorido, a pele vermelha e inchada, mas eu não me importava.

Me levantei e caminhei até o espelho.

Eu sorri.

Finalmente eu estava pronta para o jogo.

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Comments

Lottie 🌺

Lottie 🌺

Aiiii já saquei eles não vão se reconhecer no casamento por causa da mudança do visual e também por estarem sobre efeito da doga e por estarem de mascaram então eles não vão se reconhecer, mais o que vai fazer eles descobrirem que já passaram a noite juntos vai ser a pulseira dela que ela perdeu e o Ramon achou , Hadassa você arrasa mulher parabéns, ansiosa para os próximos capítulos 🥰

2025-03-23

13

Lottie 🌺

Lottie 🌺

Eu acho que essa mulher também tava envolvida no atentado contra a Kiara e eu acho que ela que tá fazendo a cabeça da Luna para ela continua com a vingança, aiii que cobra espero que tenha o mesmo fim que o pai da Luna

2025-03-23

6

Joselma Trajano

Joselma Trajano

ela se tornou outra mulher, eles não vai se reconhecer, mas tem a pulseira que caiu no quarto e que está com Ramon , essa vai ser a chave do reconhecimento deles.

2025-03-30

0

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