A manhã chegou tingida de tons dourados, mas para mim, era apenas mais um dia. Meu aniversário. Um dia que deveria ser de celebração, mas que, nos últimos anos, apenas me lembrava de tudo o que eu havia perdido.
Eu ainda estava sentada na cama quando Teresa, a governanta, entrou no quarto, equilibrando um pequeno bolo entre as mãos, a chama da vela tremulando levemente enquanto ela me olhava com aquele sorriso terno que sempre conseguia aquecer meu peito, mesmo nos momentos mais sombrios.
— Feliz cumpleaños, mi niña (feliz aniversário, minha menina). — Sua voz era doce, mas carregava um peso de preocupação disfarçada. — Que este ano traga um pouco de luz para você.
Meus olhos se fixaram no bolo. Pequeno, simples, mas feito com carinho. Teresa sempre tentava trazer um pouco de normalidade para minha vida despedaçada. Ela ainda acreditava que havia algo em mim que podia ser salvo.
Respirei fundo e peguei a vela entre os dedos, sentindo a cera quente contra a pele antes de soprá-la lentamente. O desejo que percorreu minha mente era tão sombrio que eu nem me atrevia a dizê-lo em voz alta.
— Gracias, Teresa... — Minha voz saiu rouca, carregada de emoções contidas. — Por nunca esquecer de mim. Por estar aqui... Mesmo quando eu me esqueço de mim mesma.
Ela balançou a cabeça, com aquele olhar maternal que sempre me fazia sentir que, apesar de tudo, eu ainda tinha alguém ao meu lado.
— Nunca poderia esquecer de você, Luna. Você ainda tem um caminho para trilhar... E eu estarei aqui, até o fim.
Antes que eu pudesse responder, ouvi passos pesados ecoando no corredor. Edgar apareceu na porta, sua expressão neutra, mas os olhos escuros carregados de algo que eu já conhecia muito bem: preocupação.
— Parabéns, pequeña. — Sua voz era firme, mas havia uma suavidade incomum ali. — Mais um ano de sobrevivência.
Soltei um riso baixo, sem humor.
— Sobrevivência... — Repeti. — É exatamente isso que tem sido, não é?
Me levantei devagar e fui até ele, envolvendo-o em um abraço rápido, mas sincero. Edgar não era de gestos afetuosos, mas sua presença ao meu lado nos últimos anos havia sido mais do que qualquer outro jamais havia feito por mim.
— Obrigada. Por tudo. Por nunca me deixarem sozinha. — Minha voz tremeu, e antes que percebesse, uma única lágrima escorreu pelo meu rosto.
Ele não disse nada, apenas assentiu de leve antes de soltar um suspiro.
— Você sempre terá a gente, Luna. Sempre.
Ficamos ali por alguns instantes, o silêncio pairando entre nós, carregado de tudo o que não precisávamos dizer em voz alta. Peguei um pedaço do bolo de Teresa e o provei, sentindo o sabor doce contrastando com a amargura dentro de mim.
— Está maravilhoso, Teresa. Como sempre. — Murmurei.
Ela sorriu, satisfeita, mas eu sabia que por trás daquele gesto havia uma tristeza que ela tentava esconder.
Quando Edgar e Teresa se preparavam para sair, algo dentro de mim se agitou. Uma inquietação que eu não conseguia ignorar.
— Edgar... — Chamei seu nome antes que ele cruzasse a porta. Teresa já havia saído.
Ele se virou para mim, já sabendo o que viria.
— Preciso que providencie algo para mim. Algo forte desta vez. — Minha voz era firme, sem hesitação.
Ele estreitou os olhos, cruzando os braços.
— Você sabe que eu odeio quando você faz isso. — Seu tom era seco, mas havia um traço de exasperação ali.
— E você sabe que eu não ligo. — Retruquei. — Preciso disso. Só por hoje. Só essa maldita noite.
Ele soltou um longo suspiro e passou a mão pelos cabelos escuros, claramente lutando contra o impulso de me negar.
— Luna... talvez não seja uma boa ideia. Você lutou muito para se livrar disso. Para se manter lúcida. Você sabe que essa merda te puxa para um buraco do qual é difícil sair.
Trinquei o maxilar, sentindo a raiva crescer dentro de mim. Eu não queria ouvir sua racionalidade. Eu só queria paz. Só queria que, por uma noite, minha mente não fosse um campo de batalha. Só queria me divertir um pouco sem essa dor profunda em meu peito.
— Eu não preciso da sua permissão, Edgar. — Minha voz saiu cortante. — Apenas faça o que estou mandando. Preciso disso o quanto antes.
Ele me encarou por longos segundos, seu olhar sombrio tentando encontrar alguma brecha na minha determinação. Mas eu não tinha brechas. Eu estava firme.
Por fim, ele soltou outro suspiro cansado e assentiu.
— Vou providenciar. Mas não me peça para concordar com isso.
Virei de costas antes que ele visse o sorriso satisfeito que se formou nos meus lábios.
Eu sabia que ele tinha razão. Mas naquela noite, eu não queria razão. Eu queria fuga.
Naquela tarde
O cheiro de químicos impregnava o ar da fábrica abandonada onde estávamos. O som metálico das máquinas misturava-se às vozes ríspidas dos trabalhadores. Era um caos orquestrado, e nós éramos os maestros.
Gabriel e eu caminhávamos pelos corredores estreitos, observando a produção como dois reis inspecionando seus domínios.
Orlando, um dos nossos braços direitos, veio em nossa direção com passos rápidos. Seu rosto sério denunciava que trazia informações.
— O carregamento da França chegou sem problemas. Mas temos um possível problema com os russos. Estão cobrando mais do que o combinado.
Gabriel soltou um riso seco, sem humor.
— Esses filhos da puta sempre querem mais.
Gabriel Martinéz
Cruzei os braços, encarando Orlando.
— Mande um recado. Se insistirem nessa merda, o próximo carregamento será devolvido junto com algumas cabeças.
Orlando assentiu, saindo rapidamente para cumprir a ordem.
Álvaro, outro de nossos homens, se aproximou.
— Temos um cliente grande interessado na nova remessa. Mas quer um teste antes.
Peguei um pequeno pacote transparente da mesa ao lado, observando os comprimidos brancos dentro dele.
— Isso aqui? — Ergui a embalagem.
Álvaro assentiu.
Gabriel sorriu de lado, divertido.
— Carajo, parece que alguém quer garantir que a mercadoria é de primeira.
Passei a língua pelos dentes antes de abrir o pacote e pegar um dos comprimidos.
— Então vamos testar, hermano.
Joguei o comprimido na boca e engoli seco, sentindo o gosto amargo se dissolver na língua.
Gabriel me observou, cruzando os braços.
— Pelo visto, a noite será boa.
Sorri, sentindo a adrenalina começar a pulsar.
— Será... muito mais do que boa, hermano. Será extraordinária.
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Atualizado até capítulo 37
Comments
Lottie 🌺
aiiii estou ansiosa por essa noite do baile , sou só eu ou mais alguém está ansiosa?🌺
2025-03-22
26
Valéria
Será que esse é um dos comprimidos que Edgar foi buscar pra Luna ?? Ramon já experimentou então lógico que os dois estará no mesmo Êxtase 👀👀👀 . O que será que terá pela frente. vamos que vamos acompanhar essa história com muitas emoções 👏👏😍😍
2025-03-22
3
Lottie 🌺
Aiiiii a cada capítulo fico mais ansiosa para mais eu estou amando essa história parabéns Hadassa
2025-03-22
2