Carolina abriu os olhos e deu um passo para trás, criando a distância que precisava para recuperar o fôlego. O olhar intenso de Gustavo ainda a queimava, mas ela sabia que, se ficasse ali por mais tempo, acabaria cedendo ao que não podia — ou não deveria — acontecer.
— Eu preciso voltar — disse, sua voz soando mais firme do que ela se sentia.
Gustavo não tentou impedi-la, mas seu olhar deixou claro que ele não queria que ela fosse.
— Carolina…
Ela ergueu a mão, interrompendo qualquer coisa que ele estivesse prestes a dizer.
— Não. Não faça isso. Não complique mais do que já está.
Ele passou a língua pelos lábios, frustrado, mas assentiu.
— Tudo bem.
Carolina respirou fundo antes de se virar e caminhar de volta para o salão. Cada passo parecia pesar toneladas, mas ela se forçava a continuar.
Assim que entrou novamente no salão, Felipe a encontrou com o olhar e sorriu, vindo ao seu encontro.
— Achei que você tivesse me abandonado — brincou, entregando a ela uma taça de espumante.
Ela forçou um sorriso e pegou a taça, tentando ignorar o fato de que, mesmo de longe, ainda sentia Gustavo observá-la.
— Claro que não. Só precisei de um momento.
Felipe pareceu avaliá-la, como se notasse que algo estava diferente, mas decidiu não pressioná-la.
— Quer dançar? — perguntou, estendendo a mão.
Ela hesitou por um segundo, seu olhar inconscientemente se voltando para Gustavo. Ele ainda estava ali, parado perto da saída, com um copo na mão e a expressão sombria.
Era um jogo perigoso. Ela sabia. Mas precisava mostrar para ele — e para si mesma — que estava no controle.
Então, sem desviar o olhar de Gustavo, pegou a mão de Felipe e sorriu.
— Quero, sim.
Felipe a puxou para a pista de dança, e Carolina se permitiu relaxar um pouco. Ele era bonito, gentil e parecia realmente interessado nela. Diferente de Gustavo, que já tinha uma vida uma família e tudo era complicado de mais pra lidar. Felipe representava o novo sem complicações.. E talvez fosse disso que ela precisasse.
Enquanto girava nos braços de Felipe, ela tentou ignorar o arrepio que percorreu sua espinha ao sentir o olhar de Gustavo queimando sobre ela.
Afinal, ele não deveria se importar. Mas, pelo jeito, se importava. E muito.
Após algumas danças calorosas com Felipe, Carolina começou a perceber algo. Ele não perdia a oportunidade de olhá-la diretamente nos olhos, como se tentasse decifrá-la, e cada elogio vinha acompanhado de um sorriso encantador. Talvez fosse o efeito do uísque que ele segurava com tanta naturalidade, ou talvez fosse simplesmente o jeito dele. De qualquer forma, ela não podia negar que a atenção era agradável, mesmo que sua mente estivesse em outro lugar.
E esse “outro lugar” tinha nome e sobrenome.
Quando menos esperava, viu Gustavo entrar novamente no salão como um furacão. Ele atravessou o espaço com passos firmes, foi direto até o bar, pegou um copo de uísque e, sem sequer olhar para os lados, saiu outra vez. O gesto foi rápido, mas intenso o suficiente para que Carolina sentisse um arrepio na espinha.
Ele estava incomodado.
Aquele pensamento a fez mexer no próprio vestido, inquieta. Parte dela queria ignorar, mas outra parte – a que se sentia absurdamente conectada a ele – sabia que a noite estava longe de terminar.
Quando a banda finalmente parou de tocar, Carolina aproveitou a pausa para se sentar. Seus pés agradeciam, mas sua mente continuava em alerta. Felipe veio logo atrás, como sua sombra, e sentou-se ao lado dela com um sorriso no rosto.
— Já cansou de dançar comigo? — ele brincou, inclinando-se um pouco.
Ela riu, pegando uma taça de espumante da bandeja de um garçom que passava.
— Eu precisava de um momento de descanso, senão amanhã estarei em uma clínica de fisioterapia.
Felipe riu e ergueu o copo para um brinde.
— Um brinde à sua resistência, então.
Antes que Carolina pudesse responder, a voz grave de seu pai interrompeu a conversa.
— Para conquistar minha filha, primeiro precisa conquistar a mim.
Carolina quase engasgou com a bebida e se virou para ver seu pai observando Felipe com aquele olhar avaliador que ele reservava para qualquer um que tentasse se aproximar dela. Sua mãe, ao lado dele, apenas sorriu, balançando a cabeça.
— Eles estão apenas se conhecendo, querido — disse, divertida.
Felipe, no entanto, não se intimidou.
— Justo. Se um dia eu quiser conquistar Carolina, espero ter a sua aprovação — respondeu, lançando um olhar rápido para ela antes de voltar a encarar o pai dela.
Carolina não sabia se ficava envergonhada ou impressionada.
Ela apenas sorriu de leve, mas sua mente continuava inquieta. Porque, mesmo ali, com Felipe jogando charme e seu pai testando o pretendente, o único pensamento que insistia em ficar em sua cabeça era: GUSTAVO
Depois de um tempo conversando entre risadas e comentários sobre a festa, o pai de Carolina decidiu que já era hora de ir embora.
— Está ficando tarde, e amanhã temos compromissos — ele disse, lançando um olhar significativo para a filha.
Felipe, no entanto, não parecia nem um pouco satisfeito com a ideia.
— Mas já? A noite ainda está tão animada... Carolina, que tal ficarmos mais um pouco? Eu prometo mais uma dança, mas sem forçar seus pés dessa vez.
Carolina riu, balançando a cabeça.
— Você realmente não desiste, hein? Mas eu estou exausta, Felipe. Essa noite já teve emoções demais para mim.
Felipe suspirou, aceitando a derrota com um sorriso torto.
— Tudo bem, mas espero que a gente se veja em breve.
Ela assentiu, sem dar certezas.
Antes de sair com os pais, Carolina avisou que precisava ir ao banheiro.
— Vamos esperar você na saída, filha — sua mãe disse, ajeitando-se ao lado do marido.
Carolina se afastou pelo corredor que levava ao lavabo, já imaginando o alívio de finalmente tirar os sapatos quando chegasse em casa. No entanto, ao virar a esquina, sua mente apagou qualquer pensamento banal.
Ali, em um canto discreto, parcialmente escondidos por uma coluna, estavam Ana, a esposa de Gustavo, e um garçom. E eles estavam aos beijos.
O choque a atingiu como um soco no estômago.
Seu instinto imediato foi dar meia-volta e sair dali antes que alguém notasse sua presença. Mas, por uma infelicidade do destino, Ana percebeu.
Os olhos da mulher se arregalaram por um segundo, mas logo se estreitaram em um olhar perigoso. Carolina sentiu um arrepio percorrer sua espinha quando Ana afastou-se do garçom e caminhou em sua direção com passos firmes e decididos.
— O que você viu aqui, esqueça — Ana sibilou, seu hálito carregado pelo cheiro forte de álcool. — Se você ousar abrir a boca para o Gustavo ou para qualquer outra pessoa, eu acabo com a sua vida.
A ameaça foi dita de forma cortante, mas Carolina não sentiu medo. Ana estava visivelmente embriagada, e suas palavras pareciam mais um desespero momentâneo do que uma ameaça real.
Com um olhar frio, Carolina apenas cruzou os braços.
— Eu não sou você, Ana. Não sou do tipo que brinca com a vida dos outros.
Os olhos de Ana brilharam com raiva.
— Melhor que continue assim — ela disse, antes de virar as costas e desaparecer pelo corredor.
Carolina respirou fundo, sentindo o coração acelerar. Sua cabeça girava com todas as informações daquela noite.
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Atualizado até capítulo 51
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