A segunda-feira chegou mais rápido do que eu gostaria. A noite anterior havia sido um turbilhão de pensamentos. O que foi aquele beijo no rosto?Não era nada demais, certo? Apenas um gesto casual, educado, sem segundas intenções. Mas, ainda assim, fiquei remoendo aquilo.
Enquanto me arrumava para o dia, olhei para o reflexo no espelho. Meu rosto parecia normal, mas, por dentro, um furacão se formava. Passei um pouco mais de maquiagem do que o habitual, tentando disfarçar as olheiras causadas pela insônia.
Peguei minha bolsa e saí de casa rumo ao escritório. O trânsito estava como sempre: caótico. Mas minha cabeça estava ainda pior. Eu precisava parar de pensar nele.
Trabalhei bastante durante a manhã. Meu pai me passou um caso e disse que era algo tranquilo de representar, mas queria sentar comigo depois para explicar a situação com mais detalhes. Tratava-se de um caso trabalhista, nada muito complicado, mas que exigia atenção.
O cliente era um trabalhador que havia sido demitido sem receber corretamente seus benefícios. A empresa não havia feito os depósitos de INSS nem de FGTS o que impedia o trabalhador de acessar o seguro-desemprego, conforme o *art. 3º, II, da Lei nº 7.998/90, Como resultado, a empresa teria que arcar não apenas com os valores devidos, mas também com multas por inadimplência, conforme prevê o art. 22 da Lei nº 8.036/90.
Depois de organizar algumas anotações sobre o caso, sai direto para a casa da minha mãe. Ela tinha me ligado cedo dizendo que a Rita, a moça que trabalhava com ela há anos, havia feito minha comida preferida.
Rita sempre foi um amor comigo. Desde pequena, ela me mimava de um jeito que até minha mãe achava exagerado. Quando cheguei, fui recebida com um abraço apertado e aquele cheiro delicioso de comida caseira.
— Fiz seu estrogonofe, menina — Rita disse, orgulhosa.
— Você é perfeita, sabia? — falei, rindo e pegando um prato.
Minha mãe nos observava com um sorriso divertido enquanto almoçávamos. Conversamos sobre o final de semana e sobre o cursinho. Ela, como sempre, perguntava se eu estava estudando direito e se estava confiante para a prova.
Depois do almoço, fiquei mais um tempo conversando com as duas, mas logo precisei ir para casa. Tinha muita coisa para revisar, já que não estudei nada no fim de semana. Fiz algumas questões, revisei os conteúdos do cursinho e, antes que percebesse, já estava na hora de sair novamente.
O trânsito estava surpreendentemente tranquilo, e cheguei rápido ao cursinho. Estacionei o carro e caminhei para a sala, sentindo um frio na barriga inexplicável.
Ao entrar, cumprimentei alguns colegas e me sentei no meu lugar de sempre. O ambiente era familiar, mas, dessa vez, havia uma tensão no ar. Talvez fosse só coisa da minha cabeça.
Às sete horas em ponto, Gustavo entrou na sala. Ele vestia uma camisa social azul clara, que contrastava com a pele bronzeada, e os cabelos estavam perfeitamente alinhados. Seus olhos percorreram rapidamente a sala até encontrarem os meus.
Meu coração acelerou quando ele sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário. Engoli em seco e desviei, fingindo estar muito interessada na apostila à minha frente.
— Bom dia, pessoal. Vamos começar?
A aula transcorreu normalmente. Gustavo explicava com sua didática impecável, e eu tentava me concentrar no conteúdo. Mas, de vez em quando, sentia seu olhar pousar sobre mim, como se estivesse me estudando.
**Foco, Carolina. Você está aqui para passar na AGU, não para se perder em devaneios.**
No intervalo, fui até a lanchonete do cursinho. Peguei um café e me sentei sozinha em uma das mesas próximas à janela. O clima estava fresco, e a brisa leve parecia querer acalmar meus pensamentos.
— Posso me sentar?
A voz dele interrompeu minha paz.
Levantei os olhos e vi Gustavo segurando um café, me encarando com aquele olhar tranquilo, mas ao mesmo tempo intenso.
— Claro — respondi, tentando soar natural.
Ele se acomodou à minha frente, tomou um gole do café e suspirou.
— Eu queria te agradecer por ontem. Foi bom conversar.
— Não precisa agradecer, Gustavo. Foi só um bate-papo.
Ele sorriu de canto e inclinou-se levemente para frente, apoiando os braços na mesa. Seus olhos encontraram os meus com um brilho curioso.
— Sim, mas eu realmente gostei. Você tem uma energia diferente.
Engoli em seco. O que ele queria dizer com isso?
— Uma energia diferente?
— Sim. É difícil explicar... Mas conversar com você é leve, sabe? Sem pressão, sem expectativas.
Meu coração acelerou, mas tentei me manter firme.
— Talvez porque eu não tenha expectativas mesmo — respondi, erguendo uma sobrancelha, tentando cortar qualquer interpretação errada da minha parte.
Ele riu baixo, e o som foi como um trovão nos meus ouvidos.
— Justo.
Por um instante, apenas ficamos ali, nos olhando. O silêncio que se instalou entre nós não era desconfortável, mas carregava algo que eu não conseguia nomear.
**Por que ele me olhava assim?**
Abaixei os olhos para o meu café, mexendo distraidamente a colher. Eu deveria dizer alguma coisa, mudar de assunto, quebrar aquela tensão, mas minha boca permaneceu fechada.
— E como está sua esposa? — soltei sem pensar, como se precisasse me lembrar da realidade.
Gustavo desviou o olhar, girando o copo de café entre os dedos.
— Igual. Distante. Parece que vive em outro mundo.
Meu peito apertou com aquela resposta.
— Sinto muito por isso — murmurei, sem saber o que mais dizer.
Ele soltou um riso sem humor e balançou a cabeça.
— Eu também.
Seus olhos encontraram os meus novamente, e dessa vez o ar pareceu pesar ao nosso redor. Não havia nada explícito ali, mas era como se uma conversa silenciosa acontecesse entre nós. Como se existisse algo que não deveria estar ali, mas estava.
Antes que qualquer um de nós falasse mais alguma coisa, ele olhou para o relógio e se levantou.
— Vamos voltar?
Assenti rapidamente, aliviada e frustrada ao mesmo tempo.
À medida que voltávamos para a sala, minha mente repetia a mesma frase: Você está brincando com fogo, Carolina. E, mais cedo ou mais tarde, isso vai queimar.
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Atualizado até capítulo 51
Comments
Suel Helen Moraes
eu estou gostando,vc é muito detalhista o que dá mais veracidade a estória, estou amando ❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️
2025-02-23
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