Capítulo 9

A aula recomeçou, e eu tentei me concentrar no conteúdo, mas era impossível ignorar a presença de Gustavo. Ele estava ali, a poucos metros de mim, falando sobre jurisprudência a mesma segurança de sempre, mas tudo o que minha mente conseguia processar era o jeito como ele tinha me olhado na lanchonete.

Será que ele percebeu a tensão entre nós? Será que ele sentia o mesmo?

Eu balancei a cabeça e foquei no que ele dizia. "Você precisa se concentrar, Carolina. Esqueça isso."

Mas esquecer era mais fácil falar do que fazer.

No final da aula, enquanto os alunos guardavam suas coisas e se preparavam para ir embora, Gustavo chamou minha atenção.

— Carolina, posso falar com você rapidinho?

O pedido foi casual, mas minha respiração falhou por um segundo. Alguns alunos ainda estavam por perto, mas ninguém parecia prestar atenção.

— Claro.

Fiquei esperando enquanto ele organizava alguns papéis. Quando finalmente se aproximou, seu perfume amadeirado me envolveu.

— Eu... queria te perguntar algo. — Ele hesitou por um instante, como se estivesse escolhendo as palavras. — Você tem disponibilidade para um café amanhã à tarde?

Senti meu coração disparar.

— Um café?

Ele sorriu de canto.

— Sim, para conversar sobre carreira, concursos... e, claro, se quiser, podemos falar de qualquer outra coisa.

Minhas mãos suavam. Eu queria dizer sim. Eu deveria dizer não.

— Tudo bem. Amanhã, depois do trabalho?

Ele assentiu, parecendo satisfeito.

— Te mando o endereço mais tarde.

Apenas concordei com a cabeça e saí rapidamente. Meu corpo inteiro estava tenso quando entrei no carro e fechei a porta.

O que eu estou fazendo?

Eu sabia que aquele café não era apenas sobre concursos ou carreira. E o pior de tudo? Eu queria ir.

________________________________________

O dia seguinte passou arrastado. Trabalhei o dia todo no caso trabalhista que meu pai havia me passado, fui para casa, revisei algumas matérias do cursinho e, quando percebi, já estava na hora do café com Gustavo.

No caminho até o local que ele havia sugerido, tentei me convencer de que era apenas uma conversa inofensiva. Mas, no fundo, sabia que não era bem assim.

Quando cheguei, Gustavo já estava lá. Sentado em uma mesa discreta no canto do café, usava uma camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos. Assim que me viu, abriu um sorriso.

— Oi. — Sua voz era calma, mas seus olhos pareciam atentos a cada movimento meu.

— Oi. — Sentei-me à sua frente e coloquei a bolsa sobre a cadeira ao lado.

O garçom apareceu e pedimos nossos cafés. Durante os primeiros minutos, falamos sobre concursos, sobre o que eu esperava para minha carreira e sobre algumas dicas que ele poderia me dar. Mas, aos poucos, a conversa foi mudando.

— E você? Por que escolheu essa vida? — perguntei, curiosa.

Ele pensou por um instante antes de responder.

— Sempre quis seguir a carreira pública. Meu pai foi procurador, então cresci nesse ambiente. Mas confesso que dar aulas foi algo que aconteceu por acaso... e eu acabei gostando.

— Você realmente tem didática. E, bom, imagino que seja interessante ver os alunos crescendo.

Ele sorriu, mas havia algo pensativo em seu olhar.

— Sim, é gratificante. Mas, às vezes, me pergunto se fiz todas as escolhas certas.

Seu tom ficou mais baixo, quase um desabafo.

— Como assim?

Gustavo mexeu no copo de café, parecendo pesar as palavras.

— Acho que, em algum momento, me deixei levar por aquilo que esperavam de mim. E agora... só estou seguindo o fluxo.

Eu o observei em silêncio. Era estranho ouvir isso dele. Sempre o vi como alguém seguro, determinado.

— E se pudesse escolher outra coisa, o que faria?

Ele riu baixo, balançando a cabeça.

— Não sei. Talvez... tocaria violão na praia e viveria de arte?

Soltei uma risada.

— Sério? Você toca violão?

— Um pouco. Na adolescência, achei que poderia ser músico. Mas meu pai não achava isso uma boa ideia.

Seu olhar encontrou o meu, e senti um arrepio percorrer minha espinha.

— E você, Carolina? Tem certeza de todas as suas escolhas?

A pergunta me pegou de surpresa.

— Eu... não sei. Às vezes, acho que sim. Outras vezes, me pergunto se estou apenas tentando corresponder às expectativas dos outros.

Gustavo assentiu, como se entendesse perfeitamente.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, mas não era desconfortável. Havia algo ali, uma conexão silenciosa, uma compreensão mútua.

Então, ele abaixou o olhar para o café e murmurou:

— Isso tudo é complicado.

— Sim — concordei. — Muito complicado.

Quando levantei os olhos, encontrei os dele já fixos em mim. Havia algo intenso ali, algo que me fez prender a respiração.

E, naquele momento, percebi que estávamos caminhando para um território perigoso.

E eu não sabia se queria parar.

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Comments

Suel Helen Moraes

Suel Helen Moraes

sei como é isso, sabemos que não é certo, mas é como um ímã que atrai e depois parece que está em volta de uma teia, que por mais que queira sair vc quer voltar.

2025-02-23

1

Claudia Oliveira

Claudia Oliveira

Tenho a nítida impressão que a esposa dele está traindo ele

2025-04-02

0

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