A corrida seguiu em silêncio, mas não era um silêncio confortável. Carolina tentava se concentrar no ritmo dos passos, na respiração controlada, no frescor do inicio da noite após a chuva, mas sua mente estava inquieta. A revelação de Gustavo sobre sua esposa ter ido à festa não saía de sua cabeça. Ele sabia de algo? Estava testando sua reação? Ou aquilo não passava de uma coincidência inocente?
Depois de completarem o percurso, Gustavo reduziu a velocidade e parou próximo ao banco onde sempre se alongavam ao final do treino. Carolina seguiu o movimento, apoiando as mãos nos joelhos por um instante para recuperar o fôlego.
— Está pegando o jeito — ele comentou, respirando fundo e alongando os braços.
Ela riu, ainda um pouco ofegante.
— Queria evitar passar vergonha de novo.
Gustavo arqueou uma sobrancelha e lançou um olhar divertido.
— Você nunca passou vergonha.
Carolina sorriu de lado, mas percebeu que ele a observava com atenção. Havia algo diferente no jeito como Gustavo a olhava naquela noite. Um certo peso no ar entre eles, como se palavras não ditas pairassem no silêncio.
Ele passou a mão pelos cabelos úmidos de suor e quebrou a tensão com um comentário casual:
— Sábado tem outro evento.
Ela franziu o cenho, tentando se lembrar de alguma coisa.
— Outra viagem?
— Não, dessa vez é um jantar formal. Aquele evento da advocacia que acontece todo ano.
Carolina pensou por um instante.
— Ah, ouvi falar. Meu pai recebeu o convite no escritório. Mas não tinha planejado ir.
— Deveria considerar. É uma boa oportunidade para conhecer gente da área.
Ela suspirou, indecisa.
— Não sei... esses eventos são cheios de gente importante, advogados renomados, promotores, juízes... Eu sou só alguém que acabou de sair da faculdade.
Gustavo sorriu de leve.
— Todos eles já foram alguém que acabou de sair da faculdade um dia.
Carolina segurou o olhar dele por um momento, sentindo uma estranha mistura de orgulho e nervosismo crescer dentro de si.
— Você vai? — perguntou, tentando parecer indiferente.
— Sim, tenho algumas obrigações por lá.
É claro que teria. Ele era um nome respeitado na promotoria, fazia sentido que estivesse envolvido.
— Vou pensar no assunto então — ela disse, sem se comprometer.
Gustavo abriu um meio sorriso.
— Faça isso. Seria interessante te ver lá.
Carolina sentiu um arrepio na nuca, mas manteve a compostura.
Ele pegou a garrafa d’água que havia deixado ao lado do banco, bebeu um gole e então a ofereceu para ela.
— Quer um pouco?
Ela hesitou por um segundo antes de aceitar. Seus dedos roçaram os dele quando pegou a garrafa, e o toque, embora breve, fez sentir borboletas na barriga.
Ao terminar de beber, devolveu a garrafa, e Gustavo segurou a mão dela por um instante a mais do que o necessário.
— Você sempre pensa demais — ele disse em um tom baixo, a voz quase um sussurro.
O coração de Carolina deu um salto.
— Talvez — murmurou, sentindo o peso do olhar dele sobre si.
Por um segundo, o mundo ao redor pareceu desaparecer. Só havia os dois ali, presos em algo indefinível, algo que nenhum dos dois parecia disposto a nomear.
Mas então ela respirou fundo, piscando algumas vezes para afastar o turbilhão de pensamentos.
— Nos vemos amanhã? — perguntou, tentando recuperar a leveza.
— Claro — ele respondeu, o olhar ainda cravado nela.
Carolina virou-se para ir embora, sentindo o coração acelerado. Tentou não olhar para trás, mas, no fundo, sabia que Gustavo ainda estava ali, observando-a partir.
E, mesmo sem ver, podia sentir o peso daquele olhar queimando em sua pele.
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Atualizado até capítulo 51
Comments
J.Lo
Perdeu a oportunidade de falar do que viu na festa.
Na hora que ele falou que a esposa foi ao evento, ela devia ter dito que viu ela lá e não sabia que eles tinham um casamento aberto, já que a esposa estava às beijos com um jovem no show 🤭🤭
2025-03-11
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