Capítulo 7

Como de costume, no final do dia, no domingo, eu sempre reservava um tempo para correr. A corrida era meu momento de fuga, de conexão comigo mesma. A adrenalina correndo pelo corpo me fazia esquecer das responsabilidades do dia e ajudava a desabafar as frustrações silenciosas que se acumulavam dentro de mim.

Era uma rotina que eu já havia adotado há algum tempo: seguir pelo parque, ouvir música no fone de ouvido e deixar o movimento me levar. O entardecer em Brasília sempre foi especial, com o sol se pondo atrás das árvores e o céu se transformando em uma mistura de cores quentes. Era o tipo de momento que me fazia refletir sobre como a vida passava rápido e o quanto eu precisava aproveitar cada instante.

Naquele dia, estava mais focada do que nunca na corrida. O calor do dia dava lugar a uma brisa fresca, e o ar parecia mais leve, convidativo. No entanto, ao passar por uma das alamedas que normalmente cortava, algo fez meu passo vacilar.

Ele estava lá. **Gustavo.**

Eu não sabia exatamente como reagir, mas, ao vê-lo correndo na minha direção, uma sensação estranha tomou conta de mim. Ele parecia tão focado, os cabelos bagunçados pelo vento e a expressão de quem tentava se perder na corrida, talvez para afastar os pensamentos. Quando ele me viu, seu rosto se iluminou com um sorriso leve, e, em um impulso, ele acelerou o passo até alcançar meu ritmo.

— Carol? Que coincidência você por aqui! — comentou, sorrindo.

Parei por um momento, tentando esconder o turbilhão de pensamentos que invadia minha mente. Não sabia bem o que estava acontecendo, mas aquela era uma oportunidade de manter a sensação de normalidade, de distância... De não deixar que sentimentos confusos tomassem conta de mim.

— Olá, Gustavo. Acho que é mais uma coincidência de quem corre no mesmo horário — respondi, tentando manter o tom descontraído, sem demonstrar nada além disso.

Ele riu. **Meu Deus, aquele sorriso... Assim fica difícil.** O som era caloroso e amigável. Ele parecia confortável, como se essa conversa fosse algo natural entre nós, como se o mundo lá fora não tivesse importância naquele momento.

— Verdade, parece que acabamos criando uma rotina de corridas, né? — ele disse, ajustando-se ao meu ritmo. — Como estão as coisas?

Observei-o por um instante, tentando me concentrar na conversa e não nas emoções que ele despertava em mim. Sabia que era uma ótima oportunidade para manter um papo leve, como se nada estivesse acontecendo, mas, ao mesmo tempo, ele estava ali, tão próximo, tão... real.

— Tudo bem, você sabe como é... Trabalho e cursinho, essas coisas — respondi de forma simples.

Ele assentiu e ficou em silêncio por um momento, como se pensasse no que dizer a seguir.

— A vida é corrida, né? Eu também fico nessa loucura com os filhos e o trabalho. O Noah tem 8 anos, e o Bento tem 6— começou, sua voz ganhando um tom mais suave ao falar deles. — Eles são minha prioridade, claro. Às vezes, é difícil equilibrar tudo, mas… a gente vai se ajeitando.

Olhei para ele, observando a forma como falava dos filhos, com um carinho evidente. Me dei conta de que, apesar de nossa breve interação, ele era um homem realmente dedicado à família. Isso me fez admirá-lo ainda mais.

— Imagino. Deve ser complicado conciliar trabalho e família, especialmente com crianças pequenas — comentei, demonstrando empatia.

Ele suspirou, olhando para o horizonte enquanto corria ao meu lado.

— Complicado, mas vale a pena. Eles me ensinam tanto, sabe? Às vezes, me sinto tão distante de tudo, mas quando vejo o sorriso deles... Tudo se acalma.

Havia algo profundo na forma como ele disse aquilo. Falou com uma sinceridade que me tocou de forma inesperada.

— E você é casado há muito tempo? — perguntei, sem realmente pensar antes de falar.

Gustavo hesitou por um breve instante, como se aquela pergunta o fizesse refletir.

— Sim, sou casado há mais ou menos dez anos. Logo que casei, minha esposa engravidou no primeiro ano.

— Era ela que estava com você no restaurante?

— Isso, Ana tem sido minha companheira de jornada.

Ele ficou em silêncio por um momento, mas, de repente, olhou para mim com um ar de hesitação.

— Posso te confessar algo? Acho que, por você ser mulher, talvez consiga me dar uma visão diferente... — Ele respirou fundo antes de continuar: — Minha esposa anda estranha ultimamente. Meio distante, sabe? Tenho tentado me aproximar, me esforçado para estarmos juntos, mas parece que algo mudou.

Senti um leve desconforto. Quem era eu para aconselhá-lo sobre casamento? Nunca tinha passado por algo assim, nem mesmo no relacionamento dos meus pais.

— Entendo… — murmurei, sem saber bem o que dizer.

Ele soltou um riso sem humor.

— Poxa, Carol, desculpa. Eu aqui te enchendo com meus problemas…

A conversa seguiu de maneira natural, e, aos poucos, percebi que, mesmo sem querer, minha mente estava se abrindo para ele de uma forma diferente. Estávamos correndo lado a lado, mas, ao mesmo tempo, parecíamos percorrer um caminho de descoberta, sem pressa, sem forçar.

— Eu sei que a vida não é fácil, mas acho que devemos tentar aproveitar os pequenos momentos, como esse — comentou, olhando para o lago à nossa direita. — Às vezes, a gente se perde em preocupações e esquece de valorizar as coisas simples.

Assenti, sentindo a verdade em suas palavras. **Ele estava certo.** O simples fato de estarmos ali, correndo juntos, já era um momento que eu deveria apreciar.

Quando finalizamos a corrida, paramos em frente a um quiosque de água de coco.

— Vem aqui, eu pago uma água de coco para você — ele disse.

— Não precisa, Gustavo.

— Qual é, Carol? Vai recusar um agrado do seu professor?

— Tá bom, já que insiste — respondi, rindo.

Nos sentamos em uma mesa ao ar livre, um de frente para o outro. Assim que nos acomodamos, percebi alguns olhares ao redor. Pelo visto, ele também notou.

— Deve ser difícil ser bonita, né? — ele soltou, de repente.

Franzi a testa, confusa.

— Como assim?

— Você atrai olhares por onde passa.

Olhei em volta e vi dois rapazes da minha idade me encarando.

— Nossa… Nem tinha percebido — sorri, um pouco sem graça.

O vendedor trouxe nossa água de coco, e continuamos conversando até o sol desaparecer completamente no horizonte. Quando nos despedimos, ele me acompanhou até o carro.

— Então, até amanhã na primeira aula — disse ele.

— Até, Gustavo.

Ele se inclinou e depositou um beijo no meu rosto. Fiquei sem reação. Gustavo apenas sorriu antes de se afastar, e, pela expressão em seu rosto, parecia se divertir com minha surpresa.

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Comments

Vivi

Vivi

nada a v ele falar isso pra ela ....
quer se aproximar da esposa e flertando com a Carol????? atitude controversa

2025-03-03

1

Miriam Ramos

Miriam Ramos

também ele não facilita só se a mulher tiver traindo também

2025-03-09

0

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