Gaal soltou uma risada que ecoou pelo vagão, uma risada que parecia mais assustadora do que divertida. Ele não parecia se importar com a gravidade da situação, seu único objetivo era coletar corpos para entregar ao Açougueiro. Ele fez uma expressão fofa, mas Zangi e Gats trocaram olhares preocupados, pensando que aquilo era mais uma demonstração de psicopatia do que o comportamento de um amigo.
— O que foi? — Gaal perguntou, percebendo a tensão entre eles.
— Nada — responderam Zangi e Gats em uníssono, sem querer se aprofundar na estranha natureza de Gaal.
Nesse momento, a porta do vagão se abriu novamente, e um novo personagem entrou. Era Siz, com a cara surrada e coberta de faixas, claramente machucado. Ele se sentou ao lado de Gats, deixando escapar um suspiro exausto.
— Olha quem chegou! — Gaal exclamou, rindo de forma sádica. — Como foi a briga de gatos na semana passada?
Siz lançou um olhar fulminante para Gaal, claramente irritado.
— Aqueles fantasmas em forma de gato são um pesadelo para lidar e exorcizar! — disse ele, sua voz carregada de raiva. — Eles são mais chatos do que você, Gaal.
Siz mostrou a língua para Gaal, um gesto infantil que parecia fora de lugar no contexto sombrio em que estavam. Zangi não pôde deixar de sorrir, mas logo o sorriso se desfez ao lembrar da situação em que estavam envolvidos.
— Fantasmas em forma de gato? — Zangi perguntou, intrigado.
— É uma longa história — Siz respondeu, tentando se recompor. — Eles vivem nas ruínas da antiga fábrica. Estão sempre se intrometendo, e quando você tenta exorcizá-los, eles simplesmente riem e desaparecem.
Gats, que estava ouvindo tudo com atenção, balançou a cabeça.
— Então, o que temos até agora? Um Açougueiro que decapita corpos, um cirurgião misterioso que faz experiências com eles e fantasmas em forma de gato que não param de atormentar você — disse Gats, a ironia na voz. — Isso é uma missão ou um pesadelo?
Gaal riu novamente, como se a situação fosse a coisa mais divertida do mundo.
— É tudo um grande jogo! — ele exclamou, seus olhos brilhando de forma estranha. — E nós somos os jogadores!
Zangi sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A ideia de que estavam sendo manipulados como peças em um tabuleiro era inquietante. Ele olhou para Gats e Siz, percebendo que a verdadeira batalha estava apenas começando, e que cada um deles tinha seus próprios demônios a enfrentar, tanto internos quanto externos.
— Precisamos manter o foco — disse Zangi, tentando trazer a conversa de volta ao que realmente importava. — Nossa missão é descobrir a verdade sobre os demônios Las e encontrar o Void. Não podemos nos distrair com... essas coisas.
Os outros dois assentiram, embora a tensão continuasse a pairar no ar. O trem seguia seu caminho, e o destino incerto aguardava, repleto de perigos, segredos e desafios que testariam não apenas suas habilidades, mas também a força de suas amizades.
Siz levantou um sorriso travesso, como se tivesse uma revelação brilhante para fazer.
— Já que o Gaal tá aqui pra zuar com a minha cara, acho que é hora de eu falar umas coisinhas também — disse ele, a expressão mudando para um tom mais sombrio. — Lembram que fomos nós dois que levamos o Danel pro andar... ou melhor, setor 0 das instalações?
Gats e Zangi trocaram olhares preocupados. A menção do setor 0 era, para eles, como abrir uma caixa de Pandora.
— A gente o deixou na sala do Void — continuou Siz, um brilho sinistro nos olhos. — E ficamos na porta, ouvindo os gritos de Danel. Os gritos de dor.
As palavras de Siz pairaram pesadamente no ar, e Gaal ficou mais pálido do que um vampiro, sua expressão congelada em uma espécie de catatonia, como se estivesse se lembrando de um pesadelo.
— E a "cirurgia" foi feita sem anestesia — Siz completou, a voz grave e quase divertida, embora a atmosfera estivesse carregada de horror.
Zangi e Gats engoliram em seco, o rosto de ambos assombrado pela revelação. O que antes parecia uma missão de investigação agora se tornava um labirinto de traumas e decisões questionáveis. A lembrança da dor de Danel os envolvia como uma névoa opressiva.
Gaal, por sua vez, tinha um olhar distante, como se estivesse perdido em memórias dolorosas. Ele não conseguiu desviar os olhos de Siz, e o que antes era uma amizade descomplicada agora estava tingida de uma gravidade que não podiam ignorar.
— Você não precisava lembrar disso — Gaal murmurou, sua voz quase inaudível, enquanto a expressão de Siz se tornava mais sombria.
— Ah, mas é importante lembrar — Siz respondeu, com um sorriso que não alcançava os olhos. — Isso mostra que estamos todos envolvidos nesse jogo sujo. Não dá pra esquecer o que fizemos.
O vagão ficou em silêncio, enquanto cada um deles lutava com suas próprias lembranças. Gats se virou para Gaal, tentando entender o que ele estava sentindo.
— Você não é responsável por isso, Gaal. Ninguém sabia o que estava por vir — disse Gats, tentando oferecer um pouco de consolo.
Gaal balançou a cabeça, mas a culpa ainda parecia o consumir.
— A questão é que agora estamos todos na mesma situação. Cada um de nós tem suas sombras para enfrentar. E, mesmo que isso tenha sido uma parte do passado, não podemos esquecer o que o Void é capaz de fazer.
Zangi olhou para os três, percebendo que estavam mais interligados do que jamais imaginariam. O trem seguia seu curso, e eles estavam prestes a entrar em um território onde as decisões do passado ecoavam nas sombras do presente. A jornada estava apenas começando, e cada um deles teria que enfrentar não apenas os demônios externos, mas também os internos que os assombravam.
...Continua ...
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Erika Solis
Uau, que história!
2025-02-16
3