Distrito X
O trem roncava suavemente sobre os trilhos, suas rodas produzindo um som rítmico que se misturava ao barulho do vento. No último vagão, Gats estava absorto na paisagem que passava rapidamente pela janela. As árvores se tornavam borrões verdes, e as montanhas ao longe pareciam dançar sob a luz do sol poente. Ele tinha um ar pensativo, como se estivesse refletindo sobre algo mais profundo do que a simples viagem.
De repente, a porta do vagão se abriu com um rangido, e Zangi, um meio demônio de olhar penetrante e cabelos negros como a noite, entrou. Ele se encostou na porta, cruzando os braços, e observou Gats por um momento, antes de se aproximar.
— Você não parece muito animado para uma aventura — comentou Zangi, seu tom desafiador, mas com um leve sorriso nos lábios.
Gats se virou, um pouco surpreso, mas logo sorriu de volta.
— Não é uma aventura qualquer, Zangi. Estamos indo investigar rumores sobre demônios Las. Isso não é só uma viagem de turismo.
Zangi se sentou ao lado dele, as luzes do trem refletindo em suas pupilas escuras.
— Eu sei, mas você deveria relaxar. Esses demônios não são nada que a gente não possa enfrentar. Além do mais, se forem apenas rumores, pode ser que não encontremos nada.
Gats suspirou, olhando pela janela novamente. A ideia de demônios Las o incomodava. Era uma lenda antiga, falada em sussurros, sobre criaturas que se alimentavam das sombras e eram capazes de manipular a mente dos humanos.
— E se forem reais? — perguntou Gats, seu tom se tornando mais sério. — E se eles estiverem se preparando para algo maior?
Zangi inclinou-se para frente, seu interesse despertado.
— Você realmente acredita que eles têm um plano? O que poderia ser tão importante para eles que valesse a pena sair das sombras?
Gats hesitou, mas a preocupação estava estampada em seu rosto.
— A última vez que surgiram rumores sobre os demônios Las, várias aldeias desapareceram. E não foram só histórias de medo. Pessoas realmente sumiram.
Zangi ponderou sobre isso, seu sorriso desaparecendo aos poucos.
— Então, temos que estar prontos. O que você sugere que façamos quando chegarmos lá?
— Primeiro, vamos investigar as aldeias ao redor. Precisamos descobrir se há alguma ligação entre os desaparecimentos e a presença deles. Se formos rápidos, poderemos interceptá-los antes que causem mais estragos.
O trem continuou sua jornada, enquanto os dois jovens, um humano e um meio demônio, traçavam seus planos. A paisagem mudava, mas a tensão no ar aumentava. Eles estavam prestes a entrar em um território desconhecido, onde as sombras poderiam esconder muito mais do que imaginavam.
Gats balançava a cabeça de um lado para o outro, deixando-se levar pelo ritmo do trem e pelo vento que entrava pela janela. Zangi, que ainda o observava com atenção, percebeu que havia algo mais em seu amigo.
— O que foi? — perguntou Zangi, a curiosidade evidente em seu olhar.
Gats suspirou, desviando o olhar para fora, como se as paisagens pudessem distraí-lo de seus pensamentos.
— É... a briga com o Danel tá meio complicada — respondeu, finalmente. Ele então começou a fazer sinais com as mãos, gesticulando como se estivesse encenando a situação. — Eu tava indo por baixo da fábrica, enquanto ele subia. Aí, vi umas sombras passando e... — Gats hesitou, sua expressão mudando ao lembrar.
Zangi se inclinou para frente, a tensão aumentando entre eles. Gats continuou, sua voz mais baixa.
— Eu disparei com o rifle, pensando que era um inimigo. Mas quando vi... — ele parou, engolindo em seco. — Era o braço do Danel. Metade do braço, arrancado.
A frieza na voz de Gats era quase desarmante. Zangi sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas Gats parecia estranhamente calmo, como se o horror da lembrança não o afetasse mais.
— Ver o braço dele fora do lugar foi horrível — Gats disse, seu tom desprovido de arrependimento ou medo, apenas um leve enjoo. Ele desviou o olhar, como se a cena ainda estivesse gravada em sua mente. — Danel teve que trocar o braço dele por uma lâmina... uma lâmina que parecia um estilete grande.
O silêncio pairou entre eles, pesado e carregado de lembranças. Gats e Danel tinham parado de se olhar por um bom tempo depois disso. Era uma ferida que nunca havia cicatrizado completamente, uma marca na amizade que parecia inapagável.
Zangi estava pálido, absorvendo a gravidade da revelação. Ele conhecia Danel apenas de ouvir, mas agora a história tomava forma, e a dor de Gats se tornava tangível.
— Isso foi há dois anos, não foi? — Zangi perguntou, sua voz quase um sussurro.
Gats acenou, o olhar distante.
— Sim. E, finalmente, eu respondi a sua dúvida antiga. Aquelas sombras... não eram apenas demônios. Eram os nossos medos, os nossos erros. E eles sempre voltam para nos assombrar.
Zangi ficou em silêncio, lutando para processar o que acabara de ouvir. O trem continuava seu curso, mas a atmosfera no vagão parecia ter mudado, como se o peso do passado estivesse agora entre eles, um fardo que ambos precisavam carregar.
— Vamos enfrentar isso juntos — Zangi disse finalmente, sua determinação renovada. — Não importa o que encontrarmos no caminho, não vamos deixar que os erros do passado nos definam.
Gats olhou para ele, e pela primeira vez, um pequeno sorriso se formou em seus lábios.
— É isso que eu espero. Vamos descobrir a verdade sobre os demônios Las e, quem sabe, encontrar uma forma de lidar com os nossos próprios monstros.
......continua......
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Atualizado até capítulo 42
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