Cecília sentou-se à mesa de café, os dedos brincando nervosamente com a xícara enquanto seus pensamentos a consumiam. Ela não conseguia se livrar da sensação de que algo estava prestes a acontecer. Algo que ela não sabia se queria, mas que, de alguma forma, já estava inescapavelmente em seu caminho.
A última conversa com Eduardo ainda pairava no ar, como uma nuvem pesada que não se dissipava. Ele havia sido claro: ele queria estar lá para ela. Ele não estava pedindo nada em troca, mas, ao mesmo tempo, suas palavras carregavam um peso que Cecília não sabia como carregar.
O que ela temia mais? O que ele poderia oferecer ou o que ela poderia perder ao se abrir para ele?
Ela suspirou e se levantou, caminhando até a janela. O céu estava nublado, uma típica manhã de inverno que parecia combinar perfeitamente com seu estado de espírito. O frio lá fora parecia refletir a distância que ela havia colocado entre ela mesma e o mundo, uma distância que ela tentava manter com todas as suas forças.
Mas Eduardo havia rompido essa barreira de uma maneira que ela não esperava. O pior, ela sabia, não era o que ele queria, mas o que ele fazia com ela ao oferecer seu apoio, sua paciência. Era isso que a aterrorizava. Ela não queria se apegar a ele. Ela não queria precisar de ninguém.
O celular vibrou sobre a mesa, interrompendo seus pensamentos. Ela olhou para a tela e, como se estivesse sendo atraída por um magnetismo desconhecido, tocou na mensagem. Era de Eduardo.
"Cecília, sei que você está ocupada, mas gostaria de saber se podemos conversar mais tarde. Eu entendo se você não quiser, mas eu realmente acho que você está se fechando demais. Eu só quero ser alguém em quem você possa confiar, sem pressões."
As palavras dele, simples e diretas, eram uma constante lembrança do que ela não queria enfrentar. Ele estava ali, oferecendo exatamente o que ela temia: confiança. Ele estava tentando derrubar as paredes que ela havia erguido ao longo dos anos, e isso a fazia se sentir exposta.
Ela passou a mão pelo cabelo, lutando contra a tensão que se formava dentro de si. Não precisava disso. Não precisava de ninguém, ela sempre acreditou nisso. A vida dela havia funcionado assim até agora, com controle e distância. Mas Eduardo não estava aceitando isso. E ele estava certo, ela sabia disso em algum lugar dentro de si.
Ela não respondeu imediatamente. Em vez disso, sentou-se novamente e respirou fundo. O que ela faria agora? Aceitaria o que ele estava oferecendo? Ou continuaria se protegendo de um possível vínculo que, ela temia, poderia destruí-la?
A resposta vinha clara em sua mente, embora ela soubesse que estava evitando encará-la. Ela não estava pronta. Não estava pronta para confiar em ninguém. Não depois de tudo o que aconteceu em sua vida.
Ela fechou os olhos e fez o que parecia ser a única escolha segura: ignorou a mensagem. Novamente, ela se afastou de Eduardo, se escondendo atrás de seu trabalho, sua rotina, como sempre fez. Mas sabia que estava se enganando. O medo de se abrir, de se conectar com alguém, estava em todas as partes da sua vida.
Horas depois, durante uma reunião no escritório, Cecília não conseguia parar de se distrair. As palavras dos colegas passavam por ela sem realmente se fixarem, a mente ainda em outro lugar. Ela sabia que estava fugindo de algo, mas não conseguia identificar o quê. Quando finalmente a reunião terminou, ela se viu sozinha em seu escritório, encarando a tela do computador, sem conseguir encontrar a motivação para continuar o trabalho.
O telefone vibrou novamente.
Ela olhou para a tela. Era uma mensagem de Eduardo, novamente. Desta vez, ele havia sido direto.
"Cecília, eu respeito o seu espaço. Mas entenda uma coisa: você não está sozinha. Eu estou aqui, se quiser falar. Eu não sou um estranho para você."
Ela sentiu uma dor atravessar seu peito ao ler aquelas palavras. Ele estava certo, em muitos aspectos. Mas o que ele não entendia era que ela não sabia como deixar alguém entrar. Não sabia como abrir o coração para alguém depois de anos de solidão. Ele não compreendia o peso do que ela carregava, o medo que a consumia.
Ela não respondeu. Em vez disso, desabou sobre a mesa, enterrando o rosto nas mãos. Por quanto tempo mais ela conseguiria continuar assim? Por quanto tempo ela conseguiria negar o que estava dentro de si?
Era um medo irracional, mas muito real. O medo de se entregar, de confiar, de abrir uma porta para algo que ela não sabia como controlar.
O som do telefone, mais uma vez, interrompeu seu momento de desespero. Desta vez, no entanto, ela não conseguiu ignorá-lo. Ela tocou na tela e, ao atender, a voz de Eduardo veio suave e calma.
— Cecília, estou aqui. Se você precisar de algo, por favor, me diga. Eu só quero ajudar, eu... — Ele parou por um momento, como se sentisse a luta dentro dela. "Eu só quero que você saiba que não precisa carregar tudo sozinha."
Ele estava tão certo quanto ela estava errada. Ela não precisava carregar tudo sozinha. E, no entanto, o que ele estava oferecendo parecia impossível de aceitar.
Ela respirou fundo e, pela primeira vez, decidiu ser honesta consigo mesma.
— Eu estou com medo, Eduardo. Medo de confiar em alguém. Medo de deixar alguém ver quem eu realmente sou.
Havia algo no silêncio do outro lado da linha que a fez perceber que ele não estava julgando. Ele estava ouvindo, simplesmente ouvindo.
— Eu entendo, Cecília. E não vou forçar nada. Mas você não precisa fazer isso sozinha. Quando estiver pronta, eu estarei aqui.
As palavras dele foram simples, mas elas quebraram alguma coisa dentro de Cecília. Algo que ela estava tentando proteger, mas que agora começava a perceber que não poderia mais esconder.
Ela não sabia o que o futuro reservaria. Mas, naquele momento, ela sentiu pela primeira vez uma faísca de esperança. Talvez, um dia, ela pudesse confiar. Talvez, um dia, ela pudesse deixar alguém entrar.
Mas, por enquanto, tudo o que ela sabia era que a escolha ainda era dela. E, por mais difícil que fosse, ela estava começando a entender que, talvez, fosse hora de deixar o medo para trás.
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Atualizado até capítulo 27
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