Capítulo 10: O Peso do Silêncio

Cecília acordou com o som suave da chuva batendo contra a janela. Era como uma melodia familiar que a acalmava, mas, hoje, trazia um peso extra. Ela se espreguiçou lentamente, os olhos fixos no teto enquanto tentava organizar os pensamentos ainda confusos. A conversa com Eduardo, ou talvez o que restou dela, continuava a ecoar em sua mente, misturando-se com os fantasmas do passado que ela havia tentado enterrar tão bem.

Ela se levantou e caminhou até a cozinha, começando o ritual diário que sempre a ajudava a começar o dia: café forte, silêncio. Mas hoje, algo estava diferente. A expectativa de algo – ou alguém – estava pairando no ar. Eduardo. Desde a última ligação, ele havia se tornado uma presença constante, mesmo que ela não o quisesse assim.

O celular na bancada vibrou, interrompendo seus pensamentos. Ela olhou para a tela e, por um momento, hesitou. O nome de Eduardo apareceu, e Cecília sentiu um nó na garganta. A voz dele, com o tom suave e paciente, parecia agora mais próxima do que ela gostaria.

Ela sabia o que fazer. Ou melhor, sabia o que não fazer. Ignorar. Ignorar a mensagem, ignorar a necessidade de respostas. Mas não conseguiu. Ela tocou a tela, hesitante, e leu a mensagem dele.

"Eu sei que você está ocupada, mas gostaria de ver você mais tarde. Não precisa ser nada grandioso, apenas uma conversa. Eu prometo que não vou pressionar. Só quero saber se você está bem."

Ela mordeu o lábio, a sensação de estar dividida entre o que ela queria e o que ela achava que deveria querer. Ele estava sendo gentil, não estava pressionando, mas havia algo em suas palavras que fazia Cecília sentir-se desconfortável. Não era só o medo de se abrir, de ser vulnerável. Havia algo mais, algo que ela não sabia nomear, mas que a fazia recuar.

Ela respondeu depois de um longo momento de reflexão.

"Eu estou bem, Eduardo. Obrigada pela preocupação. Mas preciso de um tempo. Preciso me focar no meu trabalho."

Cecília sabia que estava se enganando. Não estava apenas se concentrando no trabalho, estava se escondendo. Se afastando de algo que a assustava, algo que ela não sabia como lidar. Mas a mentira confortava, de algum modo.

Ela não esperou uma resposta. Desligou o celular e foi até o seu escritório. O trabalho, ela sabia, seria sua fuga, como sempre fora. Mas, mesmo enquanto mergulhava nas tarefas do dia, ela não podia escapar da sensação de que estava faltando algo, ou melhor, alguém.

O dia passou em um borrão de reuniões e chamadas. Sua mente estava distante, tentando se concentrar nas demandas da empresa, mas ela sentia uma ausência crescente. Uma falta de algo que não conseguia nomear.

Por volta do fim da tarde, Cecília se pegou parada na janela do seu escritório, observando a cidade. As luzes começavam a brilhar enquanto o sol se punha, mas a noite que caía não trazia a paz de outros dias. Ela sentiu, pela primeira vez, que não estava sozinha na sua solidão. Eduardo estava lá, à sua espera, e, de alguma forma, ele havia se infiltrado na sua vida de uma maneira que ela não conseguia mais controlar.

O celular tocou novamente, e, desta vez, Cecília não hesitou em atender.

— Cecília? — A voz de Eduardo era suave, mas havia uma urgência sutil nela. "Eu sei que você está ocupada, mas eu... eu só queria ouvir sua voz. Se você puder."

Ela fechou os olhos, exausta da batalha interna. Não era só o trabalho, não era só a pressão. Era ele. O desejo que ela sentia de não se abrir, de não se deixar afetar, estava sendo quebrado, pedaço por pedaço.

— Eu... — A voz dela vacilou, e ela se permitiu respirar fundo antes de continuar. "Eu não sei o que você espera de mim, Eduardo. Eu não sei o que você quer."

Ela ouviu um suspiro do outro lado da linha.

— Não estou esperando nada, Cecília. Só quero... saber como você está. Isso não é sobre esperar alguma coisa em troca. Eu só quero ver você bem. E, se me permitir, estar ao seu lado, como um amigo, se for o que você precisar.

As palavras dele a tocaram de uma maneira que ela não esperava. Ele não estava pedindo nada, não estava exigindo nada. Só estava ali, oferecendo apoio. A sensação de alívio foi instantânea, mas também causou uma dor que ela não sabia como lidar.

Cecília olhou para a cidade lá fora, sentindo o peso da solidão, e ao mesmo tempo, a leveza do que ele oferecia. Ela não sabia mais como responder. O que ele estava oferecendo era algo tão simples e puro, mas ela sabia que isso vinha com riscos. Riscos que ela não queria correr, não agora.

— Eu preciso pensar sobre isso, Eduardo. Eu não sei se posso deixar alguém se aproximar assim. Eu... — Ela parou, engolindo a frase no meio. "Eu não quero que as coisas mudem."

— Eu entendo. Não vou forçar nada. Mas saiba que, quando você estiver pronta, estarei aqui.

Ela sentiu uma dor aguda no peito. Algo estava prestes a mudar, ela sabia. E não seria fácil.

— Obrigada, Eduardo. Realmente. Mas, por agora, preciso de espaço. Preciso lidar com minhas próprias coisas.

Ele não insistiu, como ela temia. Apenas disse algo que a fez sentir-se mais leve, embora ainda fosse difícil acreditar nele.

— Claro. Só não se esqueça de que eu estou aqui, se precisar de algo.

A ligação foi encerrada e, por alguns minutos, Cecília ficou ali, em silêncio. Ela sabia que o futuro deles estava suspenso em uma linha tênue. O peso do silêncio em torno de Eduardo e de suas próprias emoções a dominava, mas, no fundo, havia algo de reconfortante nesse silêncio.

Ainda assim, ela sabia que estava se aproximando de algo muito maior. Ela só não sabia ainda se estava pronta para isso.

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