Capítulo 6: O Peso das Palavras Não Ditadas

Os dias seguintes passaram lentamente para Cecília. A rotina parecia repetitiva, quase automática, como se ela tentasse se convencer de que poderia simplesmente seguir em frente sem olhar para o que havia acontecido entre ela e Eduardo. Mas, a cada passo, a cada movimento, algo estava mudando. E ela não sabia como impedir.

Ela tentava se concentrar em suas tarefas, em seu trabalho, mas sempre que sua mente se desviava, encontrava-se pensando nas palavras de Eduardo, na forma como ele tinha de ver além das camadas de proteção que ela construíra ao longo dos anos. Ele parecia entender algo que ela nem mesmo sabia que estava tentando esconder.

Ainda naquela manhã, ao chegar ao escritório, encontrou uma mensagem de texto dele. A simples notificação fez seu coração acelerar de uma forma desconcertante. Ela hesitou, o dedo pairando sobre a tela do celular, antes de finalmente abrir a mensagem.

"Cecília, espero que esteja bem. Sei que as coisas não têm sido fáceis, mas se você precisar conversar, estarei aqui. Sei que você não acredita nisso, mas... talvez eu possa ajudar de alguma forma."

Ela olhou para as palavras por um momento, sem saber o que fazer com elas. O que ele realmente queria dizer com isso? Ajudar? Como ele poderia ajudá-la? Não havia nada que ele pudesse fazer para mudar as coisas. Nada que ele pudesse fazer para que ela se sentisse diferente. Ela se forçou a não responder imediatamente, sua mente girando enquanto tentava afastar os pensamentos que ameaçavam invadir.

Mas não conseguiria. Não dessa vez.

Ela se sentou à sua mesa, os dedos inquietos tocando o teclado, mas sua mente não conseguia focar no trabalho. Em vez disso, ela estava imersa em um mar de perguntas. Eduardo... O que ele queria realmente? Será que ele estava começando a enxergar o que ela tentava esconder até de si mesma? Ou era apenas mais uma tentativa de se aproximar, como tantas outras pessoas tentaram no passado? Só que, de algum modo, Eduardo parecia diferente. Ele não desistia. Ele não a deixava escapar tão facilmente.

O som de um toque suave a tirou de seus pensamentos. O telefone.

Ela olhou para o visor e, por um breve momento, teve a vontade de ignorá-lo, mas a curiosidade falou mais alto. Era ele novamente. Eduardo.

Ela sabia que poderia simplesmente deixar a chamada passar, mas algo dentro dela a impeliu a atender.

— Cecília? — A voz dele veio baixa, tranquila, mas havia uma nota de preocupação que ela não conseguiu ignorar. "Eu sei que você está ocupada, mas pensei que talvez a gente pudesse conversar um pouco. Só um pouco."

Ela sentiu um nó na garganta. Ele tinha a mesma habilidade de sempre, a de fazer com que ela se sentisse vulnerável e exposta, sem nunca forçar nada. Ele nunca empurrava, mas sempre estava lá, esperando.

— Eu não sei se é uma boa ideia, Eduardo — sua voz estava mais baixa do que ela gostaria. "Eu... não tenho muito o que dizer."

Ele suspirou, mas o som não era de frustração. Era mais uma aceitação silenciosa de sua resistência.

— Não precisa dizer nada, Cecília. Eu só quero que saiba que, se um dia você precisar, pode contar comigo. Eu não espero que você se abra agora, nem que as coisas mudem de repente. Mas sei que há algo dentro de você que está esperando para ser ouvido. E eu vou esperar. Não vou te pressionar.

O silêncio no telefone foi profundo. Ela fechou os olhos por um momento, sentindo-se como se estivesse à beira de um abismo. Ele estava certo em algo. Havia algo dentro dela, algo que ela estava empurrando para longe, tentando negar, mas que ele parecia ver com clareza. Ele não estava sendo agressivo, nem insistente demais. Ele estava apenas... ali.

Ela engoliu em seco, o peso das palavras não ditadas, as palavras que ela não queria dizer, apertando seu peito.

— Eu... eu não sei se posso confiar nisso, Eduardo. Não sei se posso confiar em mim mesma.

A voz dele, serena, ecoou em resposta, mais suave do que ela imaginava.

— A confiança leva tempo, Cecília. Não é algo que você precise entregar de uma vez só. Mas saiba que, se você precisar, eu estarei aqui. Não é fácil, eu sei. E não há pressa.

Ela não sabia o que responder. Quase sentiu que havia uma rendição em suas palavras, mas ela não queria que fosse isso. Não queria que ele pensasse que ela estava começando a ceder. Ainda assim, algo dentro dela dizia que, talvez, fosse hora de encarar o que ela vinha evitando.

— Eu vou... pensar sobre isso. — As palavras saíram de sua boca, como um compromisso silencioso, algo que ela não sabia se poderia cumprir.

Ele sorriu do outro lado da linha, e Cecília sentiu que ele não estava esperando uma resposta imediata. Ele sabia que ela precisava de tempo. Só não sabia se ela tinha o suficiente.

— Está bem — disse ele, ainda com a mesma calma. "Eu só quero que saiba que, quando for a hora, você não estará sozinha."

Ela desligou o telefone sem dizer mais nada, e ficou ali, em silêncio, com a mente correndo. Ele havia falado de uma maneira que ela não estava acostumada. Não com insistência, mas com paciência. E essa paciência... essa calma, foi o que mais a desconcertou.

Cecília não sabia o que sentir, mas uma coisa estava clara: Eduardo estava começando a romper as barreiras que ela mesma havia colocado ao redor de seu coração. Ela não sabia até onde isso poderia ir, mas agora, mais do que nunca, ela sabia que não conseguiria mais ignorá-lo.

E talvez, por um momento, ela até quisesse que ele estivesse certo.

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