A sala estava silenciosa, exceto pelo som constante das teclas sendo pressionadas enquanto Cecília trabalhava no computador. Eduardo estava sentado em sua cadeira, observando-a de longe, sem saber exatamente o que fazer com o crescente desconforto em sua própria pele. A sensação de estar sendo ignorado o incomodava, mas ele não podia negar que havia algo fascinante nela, algo que ele não conseguia decifrar.
Cecília, por sua vez, estava imersa em seu trabalho. Ela sabia que a missão que Eduardo havia lhe dado era mais complexa do que ele imaginava. Não era apenas sobre rastrear falhas no sistema ou identificar problemas óbvios nos relatórios financeiros. Era mais profundo, mais estratégico. Ela sabia que ele estava começando a se aproximar dela de uma maneira que ela não queria. Mas, por mais que tentasse ignorar, a presença dele a fazia questionar suas próprias barreiras.
"Você encontrou algo?", Eduardo perguntou, quebrando o silêncio. Sua voz estava mais suave do que ele queria, quase como se estivesse hesitando em invadir o espaço dela.
Ela olhou para ele por um segundo, antes de voltar à tela do computador. "Ainda não. Preciso de mais dados. É um trabalho minucioso."
Ele assentiu, tentando esconder a frustração. "Eu sei. Você tem feito um ótimo trabalho até agora."
Cecília não respondeu imediatamente. Apenas continuou digitando. Ele notou como sua postura era rígida, como se ela estivesse fazendo um esforço consciente para não ceder a qualquer tipo de aproximação.
“Não sei como você consegue trabalhar assim, com tanta concentração,” disse Eduardo, em uma tentativa de puxar conversa.
Cecília finalmente parou de digitar e o encarou por um momento, seus olhos ainda inexpressivos. “Eu me concentro no que precisa ser feito. Distrações não ajudam.”
Ele queria protestar, queria dizer algo que quebrasse a distância que ela impunha, mas sabia que não era o momento. Cecília parecia ter um escudo invisível, uma barreira que ele não conseguia atravessar.
“Eu entendo,” respondeu ele, com um suspiro frustrado. Ele não sabia mais o que dizer, então se levantou e foi até a janela, olhando para a vista da cidade. Ele observava as luzes piscando no horizonte, tentando dar sentido à sua própria agitação interna. “Às vezes, eu me sinto assim. Como se tudo estivesse fora de controle, e a única forma de lidar com isso fosse não olhar para nada mais. Só para o trabalho.”
Cecília se virou lentamente para ele, seus olhos suaves, mas calculadores. “Você se perde no trabalho para não ter que lidar com os outros aspectos da vida?”
Ele não respondeu de imediato. Cecília tocara um ponto sensível, e ele não sabia se estava pronto para se abrir. Mas algo no tom dela o fez sentir que ela sabia mais sobre ele do que ele gostaria. Como se ela estivesse lendo o que ele tentava esconder.
"Eu..." Eduardo começou, hesitante. “Eu sou bom em resolver problemas, Cecília. Isso é o que eu faço. Mas quando não sei como resolver, é como se o resto do mundo perdesse o sentido."
Ela olhou para ele por um momento, mas não disse nada. Apenas voltou para o computador, como se já tivesse dado a sua resposta.
Eduardo respirou fundo, sentindo um misto de frustração e admiração. Ele nunca havia conhecido alguém como Cecília. Ela tinha uma força silenciosa, algo que ele não conseguia tocar. Ele achava que poderia convencê-la a relaxar, a abrir-se para ele de alguma forma. Mas ela estava impenetrável, como uma fortaleza que ele não conseguia escalar.
Nos dias seguintes, Eduardo tentava novamente, com mais frequência do que admitiria. Em uma reunião, ele tentou puxar um assunto casual sobre a cidade onde ela morava, tentando descobrir mais sobre quem ela era fora do trabalho.
"Você é de São Paulo, não é?", perguntou ele, enquanto ela estava revisando algumas pastas no escritório.
Cecília olhou para ele rapidamente antes de responder, com a mesma frieza de sempre. "Sim, nasci aqui. Por que a pergunta?"
Ele se recostou na cadeira, pensativo. "Só achei curioso. Não parecia muito… confortável aqui, quando chegou. Como se você estivesse tentando escapar de algo."
Ela permaneceu em silêncio por um momento, e Eduardo quase pensou que ela não fosse responder. Quando falou, sua voz foi baixa e direta.
"Eu não estou tentando escapar de nada, Eduardo. Eu sou apenas… eficiente. Não gosto de perder tempo."
Ele assentiu, embora o tom dela tivesse algo de evasivo. "Você acha que as pessoas perdem tempo quando não estão focadas no trabalho?"
"Sim," ela respondeu, sem hesitação. "É a única maneira de ser realmente produtivo."
Ele olhou para ela, sentindo a frieza em suas palavras, mas também algo mais. Algo que ele não conseguia identificar, mas que estava começando a lhe chamar a atenção. Ela não apenas evitava a conversa, ela estava em total controle dela. E ele estava começando a admirar isso, mais do que gostaria de admitir.
Os dias seguiram com a mesma dinâmica. Eduardo tentava mais uma vez quebrar o gelo, mas Cecília sempre se mantinha distante, firme na sua postura de profissional. E, enquanto ela se fechava cada vez mais, Eduardo se via cada vez mais atraído por sua resistência.
Ele não sabia até onde iria, nem o que ela realmente pensava, mas uma coisa ele tinha certeza: ela não era como as outras pessoas com quem trabalhava. Cecília não se deixava envolver, não se deixava arrastar pelas expectativas dos outros. E isso o fascinava, mais do que ele imaginava.
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Atualizado até capítulo 27
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