Aria
O passado é um lugar traiçoeiro. Ele se infiltra em momentos inesperados, como agora, enquanto olho para o celular ainda na minha mão, a voz de Tom ecoando em minha mente. Não é só a surpresa da ligação — é a lembrança de como tudo desmoronou entre nós.
A conversa com Tom ainda está fresca na minha memória, como se tivesse acontecido ontem. Depois que ele saiu da minha casa, deixando-me com mais perguntas do que respostas, passei dias tentando consertar o que tínhamos.
Na manhã seguinte, liguei para ele, a voz carregada de ansiedade e esperança.
Mas caiu na caixa postal, então deixei um recado:
— Tom, precisamos falar. Por favor, me liga.
Mas o retorno nunca veio.
Ainda no mesmo dia, dirigi até o apartamento dele, determinada a esclarecer tudo. Toquei a campainha e esperei. Toquei de novo. Nada. Um vizinho passou pelo corredor e, vendo minha expressão confusa, comentou casualmente:
— Ah, o rapaz do 14B? Ele se mudou ontem à noite, às pressas. Ele estava com uma mulher, achei que pudesse ser uma amiga dele.
As palavras dele soaram como um golpe. Meus lábios se moveram para responder, mas nada saiu. Ele tinha ido embora sem sequer me avisar.
Ainda mais... ele estava com outra mulher. Quem seria? Uma amiga? Uma irmã? Ou pior... uma namorada?
Tom nunca falou muito sobre sua família. Por mais que eu perguntasse, ele sempre desviava o assunto. Eu não sou idiota; lógico que desconfiava de algo. Mas estava apaixonada demais para questionar.
Nos dias que se seguiram, procurei por Tom no trabalho. O hospital onde ele costumava passar suas horas diárias estava diferente, quase vazio, mas minha determinação ainda estava firme. Na recepção, uma jovem de sorriso ensaiado confirmou o que eu já temia:
— Tom? Ele não veio trabalhar. Não conseguimos entrar em contato com ele.
Foi ali, diante daquele balcão frio e indiferente, que percebi o quanto tinha me perdido tentando encontrá-lo. Liguei mais algumas vezes, mas, sem respostas, acabei desistindo.
Por que perseguir alguém que claramente não queria ser encontrado?
— Você está agindo como uma stalker — murmurei para mim mesma, enquanto encarava a tela do meu celular, o número dele brilhando como uma lembrança constante de minha frustração.
Decidi que aquilo precisava parar. Tom havia feito sua escolha. Agora era minha vez de seguir em frente.
Ou, pelo menos, tentar.
E agora, mais de um mês depois, aqui estava ele, invadindo minha vida novamente. Meu sangue ferve só de pensar no esforço que fiz para superar o que ele me fez passar.
O calor sobe ao meu rosto, e minhas mãos começam a tremer. Mas não é nervosismo — é raiva. É como se ele tivesse arrancado o ar dos meus pulmões e me deixado sem chão, de novo.
— O que você quer? — disparo, sem rodeios.
Ele faz uma pausa, e o som da sua respiração na linha me irrita ainda mais.
— Precisamos conversar.
Rio, mas é um som amargo, sem humor.
— Conversar? Depois de semanas em que você simplesmente desapareceu? Não acredito que estou ouvindo isso.
— Aria, eu...
— Você o quê, Tom? Deixou de atender minhas ligações, mudou de casa, saiu do trabalho, e agora aparece do nada achando que pode... o quê? Fingir que nada aconteceu?
A cada palavra, sinto o peso do passado se misturar ao presente, esmagando minha calma.
— Eu tinha meus motivos.
— Motivos? Você me deve muito mais do que essa desculpa esfarrapada. Você me deixou sem explicações, como se eu não fosse nada. E agora acha que pode simplesmente ligar e me pedir para conversar?
O silêncio do outro lado da linha é ensurdecedor. Ele não tem nada para dizer porque sabe que não há justificativa.
— Olha, eu só preciso que você me ouça — ele finalmente diz, a voz baixa, quase suplicante.
— Aria... — Ele faz uma pausa, sua voz carregada de emoção. — Eu ainda te amo.
As palavras caem pesadas, mas não do jeito que ele provavelmente imaginava. Elas não trazem conforto, nem clareza. Apenas irritação.
— Amor? — Eu quase rio, mas não há humor na minha voz. — Você chama de amor o que fez comigo?
— Eu fiz o que achei que era certo. Achei que seria melhor para você, naquele momento.
Balanço a cabeça, mesmo sabendo que ele não pode me ver.
— Eu não preciso desse tipo de amor, Tom. Um amor que desaparece quando fica difícil? Isso não é amor. É covardia.
— Me escuta! — ele implora. — Por quanto tempo você vai ficar em Barcelona? Eu preciso te ver. Nós precisamos conversar, mas tem que ser pessoalmente. Eu pego um voo amanhã, hoje, o que for preciso, mas por favor... me dê essa chance.
Fecho os olhos, tentando acalmar a tempestade dentro de mim. Cada palavra dele me puxa de volta para dias de dor e incerteza.
— Não, Tom — digo finalmente, minha voz firme. — Eu não quero te ver. Não quero ouvir mais desculpas. O que você fez... eu não consigo esquecer. E eu definitivamente não quero repetir.
— Aria, por favor...
Desligo antes que ele possa terminar.
Meu coração está acelerado, mas é mais de frustração do que de tristeza. Respiro fundo, desbloqueio o telefone e localizo o número dele na lista de chamadas recentes. Em dois toques, bloqueio.
Não vou passar por isso de novo.
Volto para o estúdio com passos firmes, mas meu coração ainda está em descompasso.
Respiro fundo antes de abrir a porta e entrar. Cole e Liam estão jogados em um sofá, enquanto Harper está encostada perto da mesa de som, analisando algo em seu caderno. Ela sempre parece impecável, organizada, mas levanta os olhos assim que entro.
Seus olhos se estreitam em minha direção, captando algo imediatamente. Harper sempre percebe tudo. Ela caminha até mim, a preocupação evidente no rosto.
— Tudo bem? — ela pergunta em um tom baixo, só para eu ouvir.
Forço um sorriso que deve parecer tão falso quanto soa.
— Foi só uma ligação errada. Nada demais.
Ela hesita, claramente não convencida, mas assente.
— Ok. Se precisar de algo...
Antes que possa completar, Liam, que está sentado com uma lata de cerveja na mão, ergue uma sobrancelha em minha direção. Ele está largado na poltrona como se fosse dono do lugar, mas seus olhos me analisam de forma quase casual.
— Ligação errada, é? — ele comenta, o tom leve, mas com um subtexto claro.
Ignoro o olhar curioso e me sento no outro sofá, jogando minha bolsa de lado. Para meu alívio, ninguém insiste no assunto. Cole, que estava mexendo em algumas garrafas em uma mesa improvisada de bebidas, sorri para mim.
— Quer uma bebida, Aria? Temos vinho, cerveja, e... bem, algo que parece ser tequila, mas não confio muito.
— Cerveja está ótimo — digo, aceitando de bom grado qualquer distração.
Ele me entrega uma lata gelada e senta no braço do sofá, seu sorriso fácil iluminando o ambiente.
— E você, Harper? — ele pergunta, estendendo outra lata.
Ela balança a cabeça, recusando educadamente.
— Não, obrigada. Eu não bebo.
Cole arregala os olhos como se ela tivesse dito algo absurdo.
— Você não bebe? Nem socialmente?
Harper solta uma risadinha curta.
— Não. Nunca gostei muito.
Ele ri, balançando a cabeça.
— Você é muito certinha. Precisa se soltar um pouco, Harper.
— E você precisa parar de tentar ser o cara engraçado — ela retruca sem perder a compostura, o que só faz Cole rir mais alto.
Enquanto eles trocam provocações, olho para a minha cerveja. O alumínio gelado nas mãos contrasta com o calor que ainda sinto na pele. Por mais que eu diga para mim mesma que superei, a ligação de Tom trouxe de volta lembranças que eu preferia manter enterradas.
Tomo um gole, tentando apagar a sensação de invasão que ele deixou. Liam continua me observando de longe, o olhar meio fechado, como se estivesse tentando adivinhar o que me incomoda. Ele não pergunta, e agradeço por isso.
Por enquanto, o barulho do estúdio, as conversas e as risadas de Cole e Harper são a distração perfeita. Mas sei que, quando a noite chegar e o silêncio me encontrar, a memória de Tom vai me perseguir. E eu vou precisar encontrar uma maneira de, mais uma vez, enterrá-lo onde ele pertence: no passado.
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Atualizado até capítulo 32
Comments
Bruna Carolina
Sei não, o pior de tudo é que minha mente só me leva pra um detalhe, que Ária contou pra Tom que o rolo dela com Liam era apenas de mentira.
2025-01-29
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Bruna Carolina
Sabia, sabia, esse Tom não presta!
2025-01-29
0
Juh Machado
esse Tom é muito estranho
2025-01-29
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