O Intruso Improvisado

Aria Black

O caminho até minha casa é surpreendentemente silencioso. Liam dirige com uma concentração inesperada, o que me dá tempo para observar o cenário passando pela janela. Dou as instruções para ele virar à esquerda ou à direita, sem nunca tirar os olhos da estrada. Meu tornozelo lateja, e cada solavanco do carro faz a dor pulsar. Quero chegar logo.

Quando finalmente paramos diante da minha mansão, respiro aliviada. As luzes automáticas se acendem no jardim, revelando a fachada imponente e o portão de ferro. Liam dá um leve assobio de admiração, mas não comenta.

-Pegue as chaves no bolso da minha bolsa, no banco de trás-digo, tentando soar prática.

Ele alcança a bolsa e encontra o chaveiro. Assim que abre a porta da frente, percebo que está olhando para mim com aquele sorriso de canto, o que nunca é um bom sinal.

-Você quer que eu te carregue até lá dentro ou prefere pular num pé só até o quarto?

Reviro os olhos, mas sei que não tenho muita escolha.

-Só faz isso rápido.

Antes que eu possa protestar, Liam se inclina e me pega no colo. Tento não demonstrar o desconforto, mas não ajuda o fato de que ele parece estar se divertindo demais com a situação.

-Você pesa menos do que parece- comenta, provocativo, enquanto atravessa a sala de estar.

-E você fala mais do que devia- retruco, cruzando os braços.

A casa está silenciosa, apenas o som dos nossos passos ecoa pelas paredes amplas. Indico o caminho com curtos comandos

– Corredor à direita, depois a última porta– e ele segue sem hesitar, ainda carregando aquele sorriso irritante no rosto.

Quando chegamos ao meu quarto, ele empurra a porta com o pé e me coloca delicadamente na cama. O colchão macio me recebe, mas não alivia o incômodo de ter Liam tão... presente na minha vida de repente.

Ele olha ao redor, examinando o quarto com curiosidade indiscreta. Meu espaço é uma mistura de clássico e moderno: móveis de madeira escura, uma cama com dossel, mas também toques contemporâneos, como a enorme TV na parede e as estantes minimalistas.

-Bonito lugar. Bem a sua cara- ele comenta, com uma leve provocação.

-Obrigada, acho.- Tento me ajeitar na cama sem mexer muito o pé.

Liam cruza os braços e me encara com aquele brilho travesso nos olhos.

-Precisa de ajuda pra trocar de roupa, Estrela?

Meu olhar dispara para ele, incrédula.

-Nem em um milhão de anos.

Ele ri, claramente se divertindo.

-Achei que fosse educado oferecer.

Ignoro o comentário e aponto para a porta do banheiro.

-Dá pra segurar a língua por cinco minutos?

-Não prometo nada- ele diz, mas se afasta, dando espaço para que eu me levante com cuidado e pegue meu celular do bolso da calça.

Preciso de reforços. Seguro o aparelho e começo a discar o número da Harper. Enquanto espero o telefone chamar, olho para Liam, que está casualmente inspecionando as fotos na prateleira como se tivesse todo o direito de estar ali.

-Vou pedir pra Harper vir,” digo, tentando soar autoritária.

-Você já pode ir embora. E... obrigada, por me ajudar. Contra a minha vontade, mas ainda assim.

Ele não responde imediatamente. Em vez disso, se senta na beira da minha cama, como se tivesse todo o tempo do mundo.

-Vou esperar ela chegar- ele declara, despreocupado.

Reviro os olhos.

-Você não precisa fazer isso. Eu estou bem.

-Não é o que parece. E, sinceramente, não confio em você pra seguir as ordens do médico.

-Ah, claro- rebato, sarcástica.

-Porque você, o rei da impulsividade, é um modelo de comportamento responsável?

Ele apenas dá de ombros, um sorriso brincando nos lábios.

-Alguém tem que garantir que você não vai sair pulando por aí. E, pra ser sincero, essa cama parece bem confortável pra esperar.

Exalo um suspiro longo, sabendo que discutir com ele é inútil. Harper atenderia em breve, e ele estaria fora da minha casa antes que eu perdesse a paciência.

-Só não mexe em nada- aviso

-Nem em suas gavetas de calcinha ?- ele provoca de longe.

-Principalmente nelas- respondo irritada

Olho para o celular e ouço o sinal de chamada mais uma vez antes da mensagem automática ecoar: caixa postal. Harper não atende. Respiro fundo e tento outro número, dessa vez da minha prima Lea. Ela nunca deixa de responder, mesmo a essa hora. Pelo menos, é o que eu espero.

Só que o telefone toca uma, duas, três vezes, e então, mais uma vez, o som irritante da caixa postal me recebe.

-Ótimo- murmuro para mim mesma, apertando o celular com força.

-Problemas?- A voz de Liam interrompe meus pensamentos.

Levanto o olhar para ele. Ele está encostado na cabeceira da cama, as mãos atrás da cabeça e aquele maldito sorriso presunçoso dançando nos lábios.

-Harper e Lea não atenderam. Satisfeito?

Ele solta uma risada curta, como se achasse graça da minha frustração.

-Aria, são duas da manhã. Elas provavelmente estão dormindo.

Droga. Eu não tinha me atentado ao horário. Fecho os olhos por um momento e suspiro, jogando o celular na cama ao meu lado.

-E agora?- ele pergunta, quase com um tom de diversão.

Não posso ligar para minha mãe – meus pais estão morando na Alemanha e não faz sentido incomodá-los por algo tão trivial. Além disso, se eu contar para minha mãe que me machuquei, ela vai querer pegar o primeiro voo para cá. Não preciso desse tipo de caos agora.

-Parece que eu vou precisar ficar-Liam diz, interrompendo meus pensamentos. Há um tom deliberadamente irritante na sua voz, como se ele estivesse adorando a ideia.

-Eu posso me virar sozinha- retruco, mas minha voz não soa tão firme quanto eu gostaria.

Ele levanta uma sobrancelha, o sorriso ainda intacto.

-Ah, claro. Porque mancar pela casa numa perna só é totalmente seguro.

Droga. Ele tem razão, e isso só torna a situação mais insuportável.

Suspiro, cruzando os braços.

-Tá, mas isso não significa que eu quero você aqui me atormentando.

Ele dá de ombros como se não se importasse. -Olha, se você pedir com carinho, quem sabe eu considere ficar.

-Nem sonhando- corto, apontando para o corredor.

-Se quiser ficar, tem um quarto ao lado. Boa sorte com o colchão.

-Ah, que caridosa- ele diz com um suspiro teatral.

-Mas tudo bem. Eu sou um cara altruísta. Não deixo donzelas em apuros.

-Você é insuportável.- Minha resposta sai automática, acompanhada de mais um suspiro.

Coloco as mãos na cama para me apoiar e levanto, cuidadosamente me equilibrando em um pé só. Ele me observa com um olhar divertido, e antes que eu dê um passo, ouço sua voz novamente.

-O que você vai fazer agora?

-Tomar um banho-digo, como se fosse óbvio.

- Ah, claro. Porque isso parece uma ótima ideia no seu estado. Vai precisar de ajuda pra chegar lá.

-Não, obrigada.

Mas ele não me dá tempo para discutir. Antes que eu perceba, Liam já está se movendo em minha direção e me pega no colo novamente.

-Eu não pedi pra você fazer isso!- protesto, mas ele só sorri enquanto me carrega em direção ao banheiro.

O coração acelera, traindo o controle que tento desesperadamente manter. Ele está tão perto que não consigo ignorar o cheiro dele: um perfume amadeirado com notas de couro e especiarias. É sutil, mas completamente intoxicante.

Droga. Odeio como meu corpo reage a isso.

-Preciso pegar meu pijama e minhas roupas- digo, tentando soar firme.

Ele para e me olha com aquele sorriso cheio de intenções que me irrita e, ao mesmo tempo, me desconcerta.

-Eu pego pra você.

-Nem pensar- corto rapidamente, sentindo o rosto esquentar.

-Você não vai tocar nas minhas roupas íntimas.

Ele explode em uma gargalhada que ecoa pelo quarto, sem nem tentar disfarçar.

-Ah, relaxa, estrela. Não tô assim tão interessado- diz, mas o brilho no olhar sugere exatamente o oposto.

-Me coloca no chão- exijo, cruzando os braços.

Liam obedece, mas me posiciona perto do guarda-roupa. Respiro fundo, ignorando o calor nas minhas bochechas, e pego uma toalha, o pijama e as peças que preciso. Ele observa cada movimento como se fosse parte de algum jogo que só ele entende.

-Pronto- digo, segurando as roupas com firmeza.

Ele não diz nada, apenas pega meu braço e me ajuda a caminhar até o banheiro. Seu toque é firme, mas surpreendentemente cuidadoso. Quando finalmente chego à porta, ele para e me encara com um sorriso quase genuíno, o que é ainda mais irritante.

-Vai conseguir sozinha agora, ou devo ficar pra garantir que você não escorregue no sabonete?

-Você tá se superando no quesito irritante- digo, empurrando a porta na cara dele antes que ele diga mais alguma coisa.

Ouço sua risada do outro lado, e, por um momento, penso em como seria bom jogar alguma coisa nele. Mas a ideia de relaxar na água quente logo afasta esse pensamento.

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Comments

Bruna Carolina

Bruna Carolina

Adorando esses dois!!!!

2025-01-28

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