"No palco, somos reis do universo,
Mas fora dele, a realidade nos imerso.
Notas dissonantes, em harmonia, nos unem no auge do desatino."
Liam
As luzes estroboscópicas piscam em sincronia com a batida explosiva da bateria de Jasper, cada compasso ressoando em meu peito como um segundo coração. No palco, sou invencível. O microfone na minha mão é uma extensão do meu ser, enquanto minha voz rouca ecoa pelas ondas de uma multidão em frenesi. Estamos no Echo Fest, e esse momento — suor, som e caos — é o ápice do que significa viver.
A última nota de "Whispers in the Dark" paira no ar antes de ser engolida pelo rugido do público. Cole se vira para a multidão com um sorriso que poderia acender uma cidade inteira, arrancando mais gritos. Felix acena com aquele jeito discreto e elegante que só ele tem, enquanto Jasper ergue suas baquetas, um gesto mínimo, mas que diz tudo. Somos a Nocturnal Echo, e por noventa minutos, fomos deuses.
Descemos do palco, ainda envoltos na eletricidade do show.
Mas o brilho dos holofotes rapidamente dá lugar à realidade mais crua. No salão privado onde a festa pós-show acontece, a energia é diferente — menos efervescente, mais carregada.
Felix está conversando com alguns produtores, casual e afiado, como sempre. Cole, cercado de fãs e amigos recém-feitos, solta sua risada característica, enchendo o ambiente. Jasper, por sua vez, observa a cena de longe, um copo na mão, sempre atento, mas distante. Eu me junto a ele, pegando um uísque que ele oferece com um gesto quase imperceptível.
— Acha que a gente vai sobreviver à turnê com Cole se jogando na multidão de novo? — ele comenta, um sorriso discreto se formando.
— Provavelmente não — respondo, rindo enquanto tomo um gole.
Cole aparece, rindo de alguma piada que só ele parece achar graça, e se junta a nós.
— Cara, você tinha que ver o sujeito na terceira fila. Juro, ele cantou "baleias no parque" em vez do refrão. Quase perdi o compasso de tanto rir.
Jasper balança a cabeça, segurando uma risada.
— E você ainda reclama quando dizem que nossa música é complexa.
Felix chega logo depois, ouvindo a conversa enquanto pega outra cerveja.
— Complexa é pouco. Mas, falando nisso, Cole, e aquela sua tentativa de mergulho na multidão?
Cole dá de ombros, sem um pingo de vergonha.
— Foi espontâneo. Senti a vibe.
— É, e quase sentiu o chão também — respondo, seco.
A conversa segue leve, entre piadas e provocações, até que o ambiente muda. Eu noto antes de todos. Jesse. Ele surge do nada, cambaleando, olhos vidrados de álcool e ressentimento.
— Liam. — Sua voz arrasta o meu nome como se fosse um insulto.
— Sabe, não entendo como ainda tem gente que te leva a sério. Lisa me deixou por você mas você nunca foi bom... você nunca foi suficiente.
Fico imóvel por um momento, medindo minhas opções. Respiro fundo, mas o sangue ferve. Jesse sempre soube como cutucar. Talvez porque sabe que, lá no fundo, ele é o erro que eu preferia apagar.
Bem eu tive um caso com a namorada dele , em minha defesa eu não sabia que eles estavam juntos, agora ele não para de me infernizar , ele deveria focar em sua maldita banda de pop rock talvez assim deixaria de ser um fracassado e alcançar um pouco de sucesso
— Por que você não economiza o fôlego e vai encher o saco de outra pessoa? — disparo, tentando manter o tom neutro.
Ele ri, um som desagradável.
— Ah, claro. Grande Liam Ashford. O cara perfeito no palco, mas um desastre fora dele. Lisa me disse que você é todo fachada.
O empurrão que ele dá é a gota d'água.
— Quer resolver isso aqui? Agora? — pergunto, avançando, minha voz mais baixa, mas perigosa.
Jesse cambaleia, o rosto vermelho de raiva. Ele avança sem aviso, me acertando um soco no ombro que me faz recuar um passo.
— Você é um lixo, Ashford! — ele grita, a voz embargada pelo álcool.
Não penso duas vezes. Meu punho atinge novamente o rosto dele com força, um estalo seco que ecoa pelo salão. Jesse tropeça para trás, mas se mantém de pé, o sangue escorrendo do canto da boca.
— É isso que você quer, Jesse? — rosno, cerrando os punhos novamente. — Vamos resolver agora!
Ele avança outra vez, dessa vez me agarrando pela camisa.
— Você arruinou tudo! Tudo — Ele tenta me puxar, mas giro o corpo, empurrando-o contra uma mesa. Copos caem no chão, estilhaçando-se ao impacto.
Jesse se recupera rápido, me acertando um soco no lado da cabeça que faz minha visão embaçar por um segundo. Não recuo. Ataco com um chute no estômago, que o faz cair de joelhos, ofegando.
— Isso é tudo que você tem? — grito, o sangue fervendo.
Ele se ergue com dificuldade, olhos cheios de ódio. Me acerta com um empurrão , me jogando contra a parede. Minha cabeça bate com força, mas a adrenalina me mantém em pé. Contra-ataco com um golpe direto no nariz dele, e o som do osso se quebrando é abafado pelos gritos ao nosso redor.
Jesse cai para trás, segurando o rosto ensanguentado.
— Vocês dois, parem com isso! — A voz de Felix corta o ar como um trovão. Ele me segura pelos ombros, me empurrando para longe. Cole agarra Jesse antes que ele consiga se levantar novamente.
— Solta ele! — Jesse berra, ainda tentando se desvencilhar.
— Você já perdeu, Jesse! — grito, me debatendo contra Felix.
— Fica no chão antes que eu te mande pro hospital!
— Grande Liam Ashford! — ele grita de volta, cuspindo sangue no chão.
— O herói de fachada! Você vai se destruir, e eu vou assistir de camarote!
— Quer tentar de novo? — avanço, mas Felix me segura com força.
— Já chega! — ele grita, a paciência visivelmente no limite.
Jesse é arrastado para fora por Cole, ainda cuspindo insultos e ameaças. Quando a porta bate atrás dele, o silêncio no salão é quase ensurdecedor.
Jasper olha para o caos ao nosso redor — copos quebrados, mesas viradas, manchas de sangue no chão.
— Ótimo show — ele murmura, seco, antes de dar um gole em sua bebida.
Minha respiração está pesada, meus nós dos dedos doloridos e ensanguentados. Olho para Felix, que balança a cabeça em reprovação.
— Ele mereceu
— E você vai merecer a droga que vem depois disso- Felix responde sério
Mas ,no fundo não me importo ,pelo menos agora Jesse sabe que não pode pisar na minha vida sem consequências
— Liam Ashford, você tá maluco? — A voz de Will corta o ar como um chicote. Ele avança pelo salão, tenso, o maxilar travado, e para bem na minha frente. Seu tom é baixo, quase um sussurro entre os dentes, mas não deixa espaço para dúvidas.
— Tem noção do que você acabou de fazer? Isso vai virar um escândalo amanhã, eu te garanto.
Dou de ombros, ainda tentando recuperar o fôlego. Meu olhar varre o salão: os copos quebrados no chão, as mesas viradas, e o sangue fresco em meus nós dos dedos. Parte de mim sente uma pontada de culpa, mas ela é abafada pela adrenalina e pelo que Jesse disse.
— Como eu disse ele mereceu.
Will passa a mão pelos cabelos, claramente tentando se conter.
— Mereceu? — Ele se inclina mais perto, os olhos faiscando.
— Não importa o que ele fez ou disse. O que importa é que você, o vocalista da droga de uma banda em ascensão, acabou de se envolver numa briga pública!
— Não foi público. — Ergo uma sobrancelha, sarcástico.
— Só um salão cheio de gente que não deveria estar aqui de qualquer jeito.
Will aperta os olhos, incrédulo.
— Você é inacreditável, com certeza tem algum paparazzi infiltrado você sabe disso e ainda faz esse escândalo — Ele vira para Felix, que permanece ao meu lado, os braços cruzados, mas sem dizer nada.
— Felix, me ajuda aqui.
Felix suspira, cansado.
— Não dá pra consertar o que já aconteceu, Will.
— Não, mas dá pra evitar que piore. — Will gesticula para o resto da banda, que observa — Cole, Jasper, vamos sair daqui. Agora.
— E quanto ao Jesse? — Jasper pergunta, a voz baixa, mas firme.
— Não me importa onde ele foi parar. Ele que se vire. O foco agora é manter vocês fora de mais confusão.
Will aponta para a porta, claramente esperando que eu o siga. Por um momento, fico parado, desafiador, mas o olhar dele me diz que essa não é uma discussão que eu vou ganhar.
Solto um suspiro longo, pegando meu casaco que está jogado numa cadeira.
— Tá bom, chefe. Você venceu.
Will estreita os olhos, mas não responde. Ele apenas nos guia para fora do salão, lançando um último olhar irritado para o caos deixado para trás.
Na saída, sinto o peso dos olhares sobre mim — dos curiosos, dos chocados, dos julgadores. E, enquanto passo por eles, um pensamento me atravessa como um raio: amanhã, isso vai estar em todas as manchetes.
Mas, no momento, tudo que consigo fazer é ignorar. Porque, isso é o melhor que faço
O caminho até o transporte é um borrão. Apenas flashes de câmeras e murmúrios da multidão ecoam, enquanto somos escoltados para fora por Will e nossa equipe de segurança. O ar gelado da noite bate no meu rosto e, por um momento, parece um alívio, mas ele é passageiro. Não demora para a realidade do que acabou de acontecer cair sobre mim.
No banco de trás, o silêncio pesa. Os caras estão tão calados quanto eu. A tensão é palpável. Eu sei o que acabei de fazer, e não há como ignorar.
— Isso vai ser um pesadelo para arrumar — murmuro, quase sem querer.
Felix solta um suspiro profundo ao meu lado. Ele não precisa dizer nada. Só o olhar já me diz tudo. Ele vira um pouco a cabeça, seus olhos me encontrando na penumbra.
— Você podia tentar não se jogar nessa... — Ele diz, a voz baixa, mas o sarcasmo ali não passa despercebido.
Eu sei que ele está certo, mas a frustração é maior que qualquer explicação que eu possa dar. O óbvio é que não tem como controlar tudo , né?
— Eu tô controlado, Felix — respondo, sem muito entusiasmo.
— Só não sei por quanto tempo.
Felix dá um leve sorriso, mais pelo tom seco do que qualquer coisa.
— Ah, sim. Você “controlado” é sempre um espetáculo à parte.
Eu não posso deixar de rir, mas é uma risada amarga. Tento desviar o olhar, mas a sensação de culpa ainda está lá, batendo. E como se isso não fosse o suficiente, Cole, que está na frente, se vira para nós, o sorriso de sempre no rosto.
— Então, quando é a próxima reunião de emergência do ‘Liam fez merda’? Pizza de novo, ou vamos variar? — Ele solta, sem cerimônia, como se fosse só mais um dia no escritório.
— O lance é, a pizza pode ser o único consolo, né? — Completa, com um sorriso de quem não está nem aí, mas também não está de mal humor.
Jasper, sempre quieto, solta uma risada baixa, quase imperceptível. Mas consigo perceber que, apesar de tudo, ele ainda está ali, como sempre.
Eu me recosto no banco, ainda sentindo o peso do que aconteceu. Mas, à medida que escuto os caras zoando, tem algo reconfortante nisso. Cada um à sua maneira, todos mantêm o caos sob controle. Eles não sabem, mas estão me ajudando a lidar com tudo.
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Atualizado até capítulo 32
Comments
Bruna Carolina
Liam seria você um problema ambulante!?
2025-01-28
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