Aria
O espelho à minha frente não está ajudando. Meus dedos inquietos puxam a barra do vestido de novo, como se ajustar o tecido fosse acalmar o nó no meu estômago. O vestido é simples, preto, de corte reto, com alças finas e um decote discreto. Não é ousado demais, mas também não é conservador. Combinei com uma jaqueta de couro que Harper insistiu que eu usasse, dizendo que “é rock, mas com um toque de Aria.” Meus sapatos, um par de botas de salto médio, completam o visual. Nada gritante, mas o suficiente para me fazer sentir deslocada.
Droga. Por que estou tão nervosa?
Estamos nos bastidores de um enorme arena em Barcelona, e o barulho do público começa a aumentar. O Nocturnal Echo vai se apresentar para milhares de fãs enlouquecidos, e eu, por algum motivo que ainda não compreendo totalmente, estou envolvida nessa confusão. Faz vinte dias desde que aceitei o acordo e já estou começando a questionar minha sanidade. O plano era simples: estar presente na turne mundial que eles iriam fazer , assistir à apresentação de um lugar estrategicamente reservado na lateral do palco e, depois, aparecer com Liam. Algumas fotos, talvez um breve contato com a imprensa, e pronto. Fácil, certo? Exceto que nada envolvendo Liam Ashford é simples.
-Você está fabulosa- diz Harper, surgindo ao meu lado e ajustando a jaqueta nos meus ombros. Ela está impecável, como sempre, parecendo mais à vontade nesse ambiente do que eu jamais estarei.
-Fabulosa ou fora de lugar?- retruco, lançando-lhe um olhar pelo espelho.
-Você está perfeita- ela diz, ignorando minha tentativa de dramatizar a situação.
-Agora, respire. É só um show, Aria.
-Sim, um show com milhares de pessoas- murmuro, franzindo a testa.
-E depois disso, eu preciso fingir que estou apaixonada por um cara que é... completamente insuportável.
Harper apenas arqueia uma sobrancelha. -Insuportável? Você tem certeza? Porque eu tenho algumas lembranças de um certo bad boy que te levou ao hospital, cuidou de você e ainda serviu café na cama.
Reviro os olhos, mas não respondo. Não posso negar que Liam tem seus momentos... surpreendentes.
Antes que eu possa afundar mais nos meus pensamentos, a porta do camarim se abre, e um dos assistentes de palco avisa que o show começará em breve.
-É agora-Harper diz, me dando um sorriso encorajador.
Com um suspiro profundo, sigo para a lateral do palco, onde vou assistir ao show. É um lugar reservado, fora da vista do público, mas próximo o suficiente para sentir a energia que vibra no ar. A luz das câmeras e dos celulares piscam na multidão, criando um espetáculo antes mesmo de a banda entrar no palco.
Eu vim em um avião separado da banda então essa é a primeira vez que verei todos pessoalmente
As luzes se apagam, e a explosão de gritos é quase ensurdecedora.
Liam e os outros entram no palco, e o público enlouquece. Ele está em casa aqui, completamente à vontade, e é impossível não notar como ele comanda cada olhar, cada som, cada momento.
Ele parece... magnético. Eu ainda acho ele um idiota, mas há algo sobre ele no palco que é difícil de ignorar.
Droga. Por que isso está me afetando tanto?
A música começa, e a multidão explode em gritos. As luzes pulsantes iluminam o palco enquanto a banda toma suas posições, cada um com uma presença magnética que cativa o público antes mesmo de tocarem a primeira nota.
Eu me recosto na parede, cruzando os braços, tentando parecer indiferente, mas é impossível ignorar o impacto deles. Liam está na frente, claro, com sua postura descontraída e aquela confiança que irrita e intriga ao mesmo tempo. Ele não faz esforço algum para conquistar o público; ele simplesmente existe, e isso parece suficiente para colocá-los a seus pés.
Os primeiros acordes da guitarra soam, profundos e envolventes, e os gritos da plateia se tornam quase ensurdecedores. É Cole quem está comandando, seus dedos deslizando pelas cordas como se fizessem parte dele. Felix, no baixo, é discreto, mas seu talento é inegável, criando uma base sólida que sustenta a melodia. Jasper, na bateria, é como um relâmpago: preciso e explosivo, guiando o ritmo com facilidade.
E então, Liam começa a cantar.
A voz dele...
É como se o mundo inteiro silenciasse por um segundo, deixando apenas aquela rouquidão intensa preencher o ar. É sedutora, hipnotizante, com uma profundidade que não combina com a postura arrogante que ele exibe fora do palco. É uma voz que me puxa, me prende, como se cada palavra tivesse sido moldada para se infiltrar nos meus pensamentos.
Um arrepio percorre minha espinha, involuntário. Tento ignorar, mas é impossível. Há algo quase palpável na forma como ele canta, como se estivesse contando uma história que só ele entende, mas que todos querem desesperadamente desvendar.
A multidão está extasiada, e eu os entendo. Mesmo que isso me irrite, eu entendo.
Não tive muito contato com Liam desde aquele dia no parque. Algumas ligações rápidas, onde ele parecia mais preocupado em cumprir sua parte do acordo do que realmente em saber como eu estava. "E o pé? Consegue andar?" eram as únicas perguntas, seguidas por um "Ótimo. Nos vemos no show." Seco e direto, sem deixar espaço para conversa.
Mas agora, vendo-o ali, é como se eu estivesse conhecendo outra pessoa. Ele é um idiota, claro, mas no palco... no palco ele é algo completamente diferente.
O refrão explode, e o público canta junto, seus gritos competindo com a voz dele. Liam se inclina para a frente, o microfone perto o suficiente para que eu veja cada movimento dele, cada expressão.
Droga.
Cruzo os braços com mais força, como se isso pudesse afastar o impacto que ele está tendo sobre mim.
Os outros membros da banda também são incríveis. Felix tem um jeito quase tranquilo de tocar, como se nada pudesse abalá-lo, enquanto Cole é pura energia, sorrindo como se cada nota fosse uma piada interna que só ele entende. Jasper mantém tudo junto, sua concentração visível a cada batida.
Mas é Liam quem domina.
E eu odeio admitir isso, mas a música dele tem algo que me alcança, algo que faz minha mente correr para lugares que eu preferiria evitar.
“Foco, Aria,” murmuro para mim mesma, tentando me convencer de que é só a música. Só o momento.
Mas quando ele termina a música com uma nota final arrastada, sua voz rouca ecoando pelo ar, sei que estou mentindo para mim mesma.
...
Após o show fui para o camarim esperar a banda para finalmente os conhecer pessoalmente
Os bastidores estão uma confusão controlada. Técnicos e assistentes passam apressados, enrolando cabos, ajustando equipamentos, e conversando sobre o show. O som abafado da plateia ainda ecoa ao fundo, uma lembrança do espetáculo que acabou de acontecer. Meu coração está acelerado, e não sei se é pela energia do show ou pelo fato de que estou prestes a encarar Liam novamente
A porta se abre, e o grupo entra, ainda transbordando a adrenalina do palco. Liam é o primeiro a passar, o cabelo desalinhado, o suor escorrendo pela testa. Ele segura uma garrafa de água e me encara como se estivesse avaliando o quanto estou fora do lugar aqui.
-Ah, a estrela chegou - ele comenta, a voz rouca, ainda mais marcante depois de cantar.
Reviro os olhos antes de responder.
-E você claramente ainda está no personagem de bad boy.
Ele sorri de canto, aquele tipo de sorriso que parece mais um desafio do que qualquer coisa amigável.
- E você, fingindo que não está impressionada.
Antes que eu possa responder, um homem mais velho e bem vestido entra na sala, claramente acostumado a lidar com o caos. Ele estende a mão para mim com um sorriso profissional.
-Aria Black. Finalmente nos encontramos. Sou Will, assessor da banda. Prazer em conhecê-la pessoalmente.
Aperto a mão dele, tentando esconder o desconforto.
-Prazer. O show foi... impressionante.
Will dá uma risada curta, olhando de relance para Liam.
-Sim, eles têm esse efeito nas pessoas. Venha, deixe-me apresentá-la ao restante da banda.
Os outros membros se aproximam, ainda conversando entre si. Cole é o primeiro a falar, com um sorriso tão contagiante que me pega desprevenida.
-Então, você é a famosa Aria. Liam não para de falar sobre você.
Liam interrompe, balançando a cabeça.
-Cala a boca, Cole.
Felix, ao lado dele, ri baixo e cruza os braços. -Ignore o Cole, ele adora dramatizar. Sou Felix, baixista, e o único adulto responsável aqui.
-Responsável?- Jasper, o baterista, arqueia uma sobrancelha, a expressão tão seca quanto seu tom.
-Diz o cara que começou a guerra de Nerf na última turnê.
-Detalhes- Felix rebate, com um sorriso tranquilo.
Jasper se aproxima, estendendo a mão.
Sorrio apertando a mão dele.
-Acho que você é o único aqui que não tenta ser engraçado.
Ele dá um meio sorriso.
-Eu escolho os momentos.
Enquanto os outros continuam a conversar, percebo que Liam está me observando, como se estivesse esperando algo. É desconcertante, mas não vou dar a ele a satisfação de admitir isso.
-Bem-Will interrompe, claramente acostumado a colocar ordem no caos.
-Temos uma agenda para seguir. Liam e Aria, lembrarem-se do plano?
- Sim- Liam responde antes de mim, sua expressão séria agora.
-Podemos lidar com isso.
Eu cruzo os braços, tentando ignorar o peso da expectativa.
-É só fingir, certo? Não pode ser tão difícil.
Ele se inclina ligeiramente, a voz baixa o suficiente para que só eu ouça.
-Não é tão difícil quanto você está tentando fazer parecer.
Minha resposta está na ponta da língua, mas Will nos interrompe, organizando tudo antes que eu tenha a chance.
Will ajusta os óculos e olha para nós dois, como se estivesse falando com crianças teimosas. -Certo, Liam e Aria, vocês serão os primeiros a sair. Vão sair pela entrada principal, de mãos dadas. Nada de entrevistas, apenas sigam direto para o carro. Os outros vão sair alguns minutos depois de vocês.
-Vai ser divertido, Aria. Quem sabe você até gosta.-Liam diz com uma expressão de falsa inocência.
Reviro os olhos e cruzo os braços.
-Vamos acabar logo com isso.
Will gesticula para que a gente se posicione perto da porta que dá acesso à entrada principal. Consigo ouvir o burburinho lá fora — os flashes das câmeras, as vozes exaltadas dos jornalistas e os gritos dos fãs. Meu estômago dá um nó, mas tento manter a expressão neutra. Afinal, isso é um papel, como qualquer outro que já desempenhei.
Liam para ao meu lado e estende a mão, a palma virada para cima.
-Pronta, estrela?
Sua voz tem aquele tom de provocação que me irrita, mas há algo mais ali, uma calma que parece desarmar a minha resistência. Respiro fundo e coloco minha mão na dele. No momento em que nossos dedos se tocam, sinto uma corrente elétrica percorrer meu braço, como se o simples contato fosse capaz de acender algo que eu preferiria deixar apagado. Droga.
Ele segura minha mão com firmeza, mas sem apertar demais, e me puxa suavemente em direção à saída.
-Vamos lá. Hora do espetáculo.
A porta se abre, e o barulho lá fora me atinge como uma onda. Os flashes são quase cegantes, e as vozes misturadas formam um rugido que me deixa momentaneamente zonza. Liam aperta minha mão levemente, como se fosse um lembrete silencioso de que ele está ali. É estranho, mas reconfortante de uma forma que eu não quero admitir.
Mantenho minha postura ereta, o queixo levemente erguido, enquanto caminhamos em direção ao carro. Liam, ao meu lado, parece completamente à vontade, como se estivesse no palco. Ele não está fingindo ser descontraído; ele simplesmente é. Eu, por outro lado, estou lutando para ignorar os olhares fixos, os gritos e as perguntas que os jornalistas lançam na nossa direção.
“Liam, é verdade que vocês estão namorando?”
“Aria, como é estar ao lado de um dos homens mais cobiçados do momento?”
“Vocês já estão juntos a quanto tempo?”
As perguntas vêm de todos os lados, mas seguimos em frente, ignorando todas elas. Estou tão concentrada em não tropeçar que quase não percebo quando Liam inclina a cabeça na minha direção e murmura.
“Está indo bem.”
Dou um sorriso tenso, mais para mim mesma do que para ele. Quando finalmente alcançamos o carro, um segurança abre a porta, e Liam faz um gesto exagerado, como se fosse um cavalheiro medieval.
-Depois de você, milady.
Entro no carro sem dizer nada, ainda sentindo o calor da mão dele na minha. Liam entra logo em seguida, e a porta se fecha, bloqueando o barulho lá fora. Respiro fundo, tentando me acalmar. É só o começo, penso. Só o começo desse plano absurdo.
Liam se recosta no assento, os olhos fixos em mim.
-Você sobreviveu. Não foi tão ruim assim, foi?
Lanço um olhar irritado na direção dele, mas ele apenas sorri, aquele sorriso que é ao mesmo tempo irritante e... hipnotizante. Não, Aria, não vá por esse caminho.
-Vamos ver se eu sobrevivo ao resto- murmuro, olhando pela janela enquanto o carro acelera.
Liam se inclina um pouco no banco, o olhar fixo em mim, mas carregado daquela familiar provocação que parece ser sua marca registrada. Ele tamborila os dedos no joelho antes de soltar, casualmente:
-Bem, você vai precisar sobreviver, Aria. Ainda temos a festa, e seria uma pena se nossos queridos paparazzi saíssem de lá sem o conteúdo que esperam.
Reviro os olhos, cruzando os braços.
-Festa? Você não acha que já deu por hoje? Digo, você acabou de sair de um show. Não está cansado?
Ele ri, um som grave e leve ao mesmo tempo, como se minha pergunta fosse algo que ele ouve o tempo todo e nunca leva a sério.
-Cansado?-Um sorriso desafiador surge em seus lábios.
-A noite ainda é uma criança, estrela. E, sinceramente, é nas festas que a diversão realmente começa.
Ele parece notar meu silêncio, mas não diz nada. Apenas tamborila os dedos no joelho, a batida constante combinando com a música baixa que toca no carro. A paisagem iluminada de Barcelona passa rapidamente, uma mistura de cores e luzes que só faz meu estômago revirar mais.
O carro desacelera, e as luzes de um clube começam a brilhar à nossa frente. Do lado de fora, vejo flashes de câmeras já esperando por nós. Sinto meu peito apertar. É agora. O show pode ter terminado no palco, mas parece que o verdadeiro espetáculo está apenas começando.
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Atualizado até capítulo 32
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