A luz dourada do amanhecer lentamente se dissipava, dando lugar a um céu azul suave que se estendia além das janelas do loft.
A cidade lá fora já estava em pleno movimento, mas dentro daquele espaço íntimo, o tempo parecia suspenso, como se o mundo lá fora não existisse.
Amélia sentou-se na cama, puxando o lençol até os ombros, o olhar distante enquanto seus pensamentos se desenrolavam em uma confusão silenciosa.
A noite anterior havia sido intensa, e não apenas no aspecto físico.
Alex estava sentado na poltrona próxima à janela, ainda sem camisa, os músculos tensos e o olhar fixo em um ponto distante.
Era raro vê-lo tão vulnerável, tão perdido em seus próprios pensamentos.
A luz da manhã realçava os contornos do seu rosto, destacando a expressão séria e os olhos que pareciam carregar o peso do mundo. Ele não era mais o homem frio e calculista que ela conhecera. Ali, diante dela, estava um homem quebrado, lutando contra demônios que ela ainda não conhecia.
Amélia quebrou o silêncio, a voz suave, mas carregada de tensão:
— O que aconteceu com você, Alex? — Ela sabia que a pergunta era direta, talvez até invasiva, mas não conseguia mais ignorar a sensação de que havia algo mais profundo por trás daquela fachada de controle absoluto.
Ele demorou um momento para responder, os dedos batendo suavemente no braço da poltrona.
Finalmente, ele olhou para ela, os olhos sombrios, como se estivesse prestes a abrir uma porta que mantivera fechada por muito tempo.
— Todos nós temos nossos segredos, Amélia. Você não é a única a carregar um passado que dói.
Ela franziu o cenho, surpresa pela resposta. — O que quer dizer com isso?
Ele respirou fundo, desviando o olhar para o horizonte, como se buscasse coragem nas linhas distantes dos prédios.
— Minha mãe morreu por culpa do meu pai...
As palavras pairaram no ar, carregadas de uma dor que ele mal conseguia esconder.
Amélia ficou em silêncio, absorvendo o impacto da revelação.
Ela não esperava algo tão profundo, tão pessoal. Alex sempre parecia inabalável, como se nada pudesse tocá-lo, mas agora, ela via as rachaduras em sua armadura.
— Como assim? — ela sussurrou, a voz quase trêmula.
Ele fechou os olhos por um momento, como se estivesse revivendo uma memória dolorosa.
— Meu pai era um homem poderoso, assim como o seu. Ele controlava negócios que iam além do que as pessoas podiam ver. Não era apenas um CEO; ele era um manipulador, um homem que usava o poder para conseguir o que queria, sem se importar com quem fosse destruído no processo.
Amélia sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
A história de Alex parecia, de alguma forma, ecoar a sua própria.
Ela sabia o que era crescer sob a sombra de um homem poderoso e cruel. Sabia o que era viver em um mundo onde as aparências eram tudo, e a verdade era apenas uma ilusão.
— Minha mãe era diferente — ele continuou, a voz mais baixa agora. — Ela era doce, gentil. Ela não pertencia àquele mundo. Acho que, no fundo, ela sabia o que meu pai era, mas escolheu ignorar. Talvez por amor, talvez por medo. Mas o preço dessa escolha foi alto demais.
Ele fez uma pausa, o olhar perdido em alguma lembrança distante.
— Eu era criança quando tudo aconteceu. Não sabia exatamente o que meu pai fazia, mas sentia o peso daquela escuridão. Um dia, minha mãe descobriu algo... algo que ela não deveria ter visto. Ela tentou confrontá-lo, mas ele não era o tipo de homem que aceitava ser desafiado.
Amélia prendeu a respiração, o coração apertado. — O que aconteceu?
— Um "acidente" — ele respondeu, o tom amargo. — Pelo menos foi isso que a polícia disse. Mas eu sabia a verdade. Ele a matou. Não diretamente, mas orquestrou tudo para parecer um acidente. Ela morreu porque ousou desafiar o poder dele. E eu... eu fiquei sozinho com um homem que não tinha nada além de desprezo por mim.
Ela sentiu as lágrimas queimando seus olhos, mas não as deixou cair.
Alex nunca havia falado sobre seu passado, e agora ela entendia por quê. A dor que ele carregava era imensa, algo que ele havia enterrado tão profundamente que, por um momento, ela pensou que ele nunca a revelaria.
— Alex... — ela começou, mas não sabia o que dizer. Não havia palavras que pudessem aliviar aquela dor, nada que pudesse apagar o que ele havia vivido.
Ele se levantou, caminhando até a janela.
— Eu jurei que nunca seria como ele. Que nunca deixaria o poder me corromper. Mas, às vezes, me pergunto se estou apenas seguindo o mesmo caminho, se estou condenado a repetir os erros dele.
Amélia levantou-se da cama, caminhando até ele.
Colocou a mão em seu ombro, o toque suave, mas firme.
— Você não é o seu pai, Alex. Você fez suas escolhas, e elas não definem quem você é.
Ele virou-se para encará-la, os olhos cheios de uma dor que ela reconhecia.
— E você? Acha que pode fugir do legado do seu pai? Que pode apagar o que ele fez?
Ela engoliu em seco, as palavras dele atingindo um ponto sensível.
— Não sei. Mas quero tentar. Quero acreditar que somos mais do que os pecados dos nossos pais. Que podemos ser diferentes.
Eles ficaram em silêncio por um momento, o peso de suas histórias pairando entre eles.
Eram duas almas quebradas, unidas por cicatrizes que o mundo não podia ver.
— Por que está me contando isso agora? — ela perguntou, a voz suave.
Ele respirou fundo, os olhos fixos nos dela.
— Porque acho que, pela primeira vez, encontrei alguém que entende. Que sabe o que é carregar um fardo tão pesado que parece impossível de suportar.
Ela assentiu, as lágrimas finalmente escapando.
— Estamos juntos nisso, Alex. Não sei o que o futuro reserva, mas sei que não quero enfrentar isso sozinha.
Ele a puxou para um abraço, o gesto mais íntimo do que qualquer coisa que haviam compartilhado antes. Ali, naquele momento, as máscaras caíram, as barreiras foram quebradas.
Eram apenas duas pessoas tentando encontrar um caminho em meio à escuridão.
— Vamos enfrentar isso juntos — ele sussurrou. — Seja o que for, não vou deixar que o passado nos destrua.
E ali, naquele amanhecer, uma promessa foi feita.
Não uma promessa de amor, ou de felicidade, mas uma promessa de sobrevivência.
De lutar contra as sombras que os perseguiam, e de, talvez, encontrar uma maneira de serem livres.
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Atualizado até capítulo 30
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