A porta de vidro do prédio se fechou atrás de Amélia, abafando o barulho frenético das ruas.
Seu coração ainda batia rápido.
Ela tentava ignorar a lembrança daquele encontro irritante com o homem de terno caro, mas era impossível. “Arrogante e insuportável”, repetiu mentalmente, enquanto apertava o botão do elevador.
O dia precisava melhorar. Ela tinha duas entrevistas agendadas e sabia que não poderia se dar ao luxo de deixar aquela confusão afetar sua concentração. Respirou fundo, endireitou os ombros e revisou mentalmente o roteiro que havia ensaiado tantas vezes.
A primeira entrevista seria em um escritório menor, especializado em direitos civis — o tipo de lugar onde realmente poderia fazer a diferença. O outro, em uma firma maior e mais tradicional, oferecia estabilidade e, provavelmente, mais pressão.
Quando chegou ao saguão do primeiro escritório, a atmosfera era completamente diferente da que encontrara na Harrington & Goldstein. Menos ostentação, mais humanidade.
O lugar tinha paredes de tijolos à vista e móveis de madeira desgastada, criando um ambiente acolhedor. A recepcionista, uma mulher de meia-idade de sorriso caloroso, a cumprimentou.
— Amélia Martins? Pode entrar, doutor Souza já está esperando.
Ela entrou na pequena sala de reuniões, onde um homem de cabelos grisalhos e óculos redondos revisava alguns documentos. Ele levantou o olhar, oferecendo um sorriso amigável.
— Amélia, certo? — Ele indicou a cadeira à sua frente. — Sente-se, por favor.
O bate-papo fluiu naturalmente. Eles falaram sobre a trajetória dela, seus estágios, e até sobre o motivo de ter escolhido Direito. Tudo parecia caminhar bem, até que o tom da conversa mudou.
— Vejo que você tem grande interesse em direitos civis, mas… — Ele fez uma pausa, ajustando os óculos. — Nova York é uma cidade difícil. O mercado está saturado, e muitos escritórios procuram alguém com experiência mais sólida.
Amélia sentiu o chão sumir sob seus pés. O discurso era o mesmo que ouvira tantas vezes. Suas mãos apertaram o tecido da saia, mas ela manteve a voz firme.
— Entendo, senhor Souza. Mas acredito que minha paixão pela área e minha dedicação podem compensar a falta de experiência.
Ele sorriu, mas era um sorriso cheio de compaixão — o tipo que as pessoas usam quando estão prestes a dizer algo difícil.
— Vou manter seu currículo em nosso banco de dados. Se surgir alguma oportunidade, entraremos em contato.
Ao sair do prédio, Amélia sentiu as lágrimas ameaçarem escapar. Não era só pela entrevista; era pela soma de tudo. A sensação de estar sempre correndo atrás, sem nunca alcançar.
No outro lado da cidade…
Alex Wakefield encarava o quadro de horários em sua sala de reuniões. Ele ainda pensava na mulher que esbarrara mais cedo. Não entendia por que o encontro o incomodava tanto, não era a primeira vez que alguém derramava café nele, mas havia algo na forma como ela o enfrentara, algo que o tirara do eixo.
— Senhor Wakefield? — A voz de sua assistente o trouxe de volta à realidade. — A reunião com os investidores foi adiada para amanhã.
Ele assentiu, sem realmente prestar atenção. Sua mente estava ocupada demais com um pensamento incômodo: por que aquela desconhecida ainda rondava sua cabeça?
Ele se recostou na cadeira, tentando desviar o olhar dos papéis sobre a mesa. Algo nela o desafiara, e isso o irritava profundamente. Não era comum encontrar alguém que o encarasse com tanta… coragem. A maioria das pessoas evitava olhar diretamente em seus olhos, mas ela fizera isso, como se fosse igual a ele. Ou talvez até mais forte. Isso, mais do que tudo, o deixava desconcertado.
A manhã avançava e, apesar de sua agenda cheia, o pensamento nela permanecia. Ela tinha algo de diferente, algo que o fazia questionar sua própria necessidade de controle.
“Ela deve ser uma daquelas pessoas que se iludem com a ideia de que podem mudar o mundo”, pensou ele, afastando-se da ideia. “Não tem o que fazer. A vida em Nova York não perdoa sonhadores.”
Ele passou a mão no rosto e suspirou, como se tentasse afastar o pensamento de sua mente. Alex tinha mais o que fazer. Reuniões, decisões importantes, investidores que precisavam de respostas rápidas. Ele não podia se permitir perder tempo com um erro insignificante, como uma mulher qualquer.
Mas, enquanto a tarde passava, Alex se via sem querer pensar nela, na forma como ela o desafiara a olhar além de sua própria arrogância.
Mais tarde…
Amélia, por sua vez, caminhava pelas ruas da cidade, os passos ecoando nas calçadas molhadas pela chuva fina que caía novamente. Ela olhou para o celular e viu que tinha uma mensagem da mãe, perguntando como estavam as entrevistas.
Respirou fundo, tentando controlar a frustração que invadia seu peito.
Olhou ao redor e percebeu como a cidade, apesar de ser cheia de gente, ainda a fazia se sentir tão sozinha. Ela tinha amigos, mas sentia que nada comparava à sensação de não ser vista de verdade. As portas estavam sempre fechadas, e as respostas pareciam não ser o suficiente para fazer a vida acontecer.
Com os pensamentos bagunçados e o coração pesado, ela decidiu ligar para uma amiga. Talvez um pouco de conversa aliviaria a tensão.
Enquanto a conversa tomava forma, o som de um carro freando bruscamente fez Amélia olhar para o lado. Era o mesmo táxi que passara mais cedo, parado no meio da rua, com alguém discutindo com o motorista. Ela estendeu o braço, num impulso, mas logo reconheceu o homem — o CEO de antes.
Alex.
Ele estava no banco de trás, ainda com a expressão irritada. Quando seus olhos se cruzaram novamente, ele a olhou de forma diferente. Não mais com desprezo, mas com uma curiosidade silenciosa. Algo em sua postura indicava que ele também sentia o peso da situação.
O carro se afastou antes que ela pudesse pensar no que dizer ou fazer. Apenas ficou ali, observando, sentindo uma leve dor no peito.
Por mais que tentasse negar, aquela troca de olhares a inquietava.
E, assim, os destinos de Amélia e Alex se entrelaçavam, de uma maneira estranha, que nenhum dos dois poderia ainda compreender.
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Atualizado até capítulo 30
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