Na sala de reunião, final do expediente, Patrícia estava sentada na poltrona, só estava ela e Caroline, suas mãos trêmulas segurando um lenço já úmido de lágrimas. Caroline, do outro lado, olhava para ela com uma mistura de preocupação e impaciência, esperando que ela começasse a falar.
— Eu... eu preciso que você transfira a Josiane para outro terapeuta. — A voz de Patrícia saiu entrecortada, como se cada palavra exigisse um esforço imenso.
Caroline estreitou os olhos, inclinando-se ligeiramente para frente.
— Patrícia, o que está acontecendo? Por que esse pedido agora novamento?
Patrícia abaixou a cabeça, evitando o olhar da supervisora. Ela segurou o lenço com mais força, como se isso fosse ajudá-la a organizar os pensamentos.
— Porque... — Sua voz falhou, e as lágrimas começaram a rolar novamente. Ela respirou fundo antes de continuar. — Porque eu perdi o controle.
Caroline franziu o cenho, surpresa.
— Perdeu o controle? O que isso significa, exatamente?
Patrícia engoliu em seco, sentindo a vergonha apertar o peito.
— Eu... me aproximei demais da paciente. — Ela hesitou, fechando os olhos por um momento, antes de continuar. — Houve... contato físico.
Caroline se recostou na cadeira, o rosto agora mais sério, mas sem demonstrar julgamento imediato.
— Contato físico? Preciso que você seja clara, Patrícia. O que exatamente aconteceu?
Patrícia balançou a cabeça, as lágrimas caindo com mais intensidade.
— Eu a abracei, mais... e foi mais do que deveria ser da normalidade. — Sua voz estava carregada de culpa e vergonha. Ela não conseguia confessar o beijo; era um peso que parecia impossível de dividir. — Foi errado. Eu perdi completamente a mão, Caroline. Eu não sei o que está acontecendo comigo.
Caroline permaneceu em silêncio por um momento, analisando a situação com cuidado. Quando finalmente falou, sua voz era calma, mas firme.
— Patrícia, você sabe o quanto esse contrato com o abrigo é importante, não sabe? Não é apenas sobre estabilidade financeira. Esse contrato garante o nome da clínica, nossa credibilidade com a prefeitura e outras parcerias.
Patrícia levantou o olhar, os olhos vermelhos de choro.
— Eu sei disso, mas... eu não estou conseguindo mais manter a distância profissional. Cada sessão é um desafio, e eu não quero prejudicá-la. Ela precisa de ajuda, Caroline, e eu... eu não sou a pessoa certa para isso.
Caroline cruzou as mãos sobre a mesa, inclinando-se para frente com um olhar direto.
— Patrícia, eu entendo que você está se sentindo emocionalmente envolvida. Mas transfiri-la não é uma opção. — Sua voz ficou mais firme. — Você conquistou a confiança dela. E sabe tão bem quanto eu que essa confiança não é fácil de ganhar. Transfiri-la agora seria como jogá-la no abismo novamente.
Patrícia começou a balançar a cabeça em negação, mas Caroline continuou.
— E, sinceramente, não importa como você chegou até ela, Patrícia. O que importa é que você obteve resultados que ninguém mais conseguiu. Você conseguiu avançar com ela de maneiras que muitos terapeutas jamais sonhariam.
Patrícia mordeu o lábio, tentando conter o choro.
— Mas... E esse sentimento que sinto? E se isso acabar prejudicando ela mais do que ajudando?
Caroline suavizou o tom, mas manteve a firmeza.
— Engula esses sentimentos, Patrícia. Se você realmente quer o bem dela, continue. Como terapeuta, você sabe que lidar com nossos próprios conflitos faz parte do trabalho.
Patrícia respirou fundo, mas sua expressão ainda estava cheia de dúvidas.
Caroline se levantou e caminhou até ela, colocando uma mão firme em seu ombro.
— Patrícia, a clínica é essencial para essas pessoas. É uma das poucas opções que elas têm. E você está no centro disso.Não desista agora.
Patrícia fechou os olhos, sentindo o peso da responsabilidade aumentar, mas ao mesmo tempo, algo dentro dela reconhecia a verdade nas palavras de Caroline. Ela assentiu levemente, enxugando as lágrimas e tentando se recompor.
— Desculpas o descontrole.
Caroline sorriu levemente, retirando a mão de seu ombro.
— Não tem problema, querida. Você não está sozinha nisso, Patrícia. Se precisar de suporte, estou aqui. Mas não desistista
Patrícia se levantou, ainda visivelmente abalada, mas determinada a continuar. Enquanto deixava o escritório, sabia que precisaria enfrentar não apenas os desafios de Josiane, mas também os conflitos dentro de si mesma.
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Atualizado até capítulo 89
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