Continuação da sessão 10
— Então, vamos descobrir juntas?
Josiane permaneceu em silêncio, o olhar baixo
seus dedos inquietos repousando no colo. Patrícia podia sentir a tensão no ar, como se Josiane estivesse à beira de dizer algo importante, mas se segurava, recuando novamente para dentro de sua fortaleza.
Por um momento, Patrícia sentiu um impulso. Era algo quase instintivo, movido pela conexão silenciosa que parecia crescer entre as duas. Lentamente, ela estendeu a mão e, com cuidado, segurou as mãos de Josiane.
— Você não precisa ter medo — disse Patrícia, a voz mais baixa, quase um sussurro.
Josiane levantou os olhos rapidamente, surpresa pelo gesto. As mãos de Patrícia eram firmes, mas gentis, e aquilo era diferente de qualquer coisa que Josiane havia experimentado antes. Por um instante, ela não afastou as mãos. Ficaram assim, conectadas, enquanto um silêncio cheio de significados pairava na sala.
Aproximadas, as duas ficaram frente a frente, e Josiane sentiu algo que não sabia explicar. Sua mente, normalmente tão cheia de defesas, agora parecia tomada por um pensamento intrusivo.
Ela se imaginou beijando Patrícia.
Foi rápido, quase um flash. Mas foi o suficiente para causar um tumulto dentro de si. Ela se viu inclinando-se para a frente, sentindo o calor do toque em seus lábios, contra o dele, algo que nunca acontecera, mas parecia tão real. O pensamento veio como uma onda, inesperada e impossível de ignorar.
A visão intrusiva foi imediatamente seguida por um susto.
Josiane recuou abruptamente, puxando suas mãos das de Patrícia, como se o toque tivesse se tornado insuportável, Patrícia, alheia as imagem que Josiane teve em sua mente, a olhou para ela, confusa.
— Josiane? O que foi?
— Eu... eu não quero falar mais. — Josiane respondeu, sua voz mais alta do que pretendia. Ela desviou o olhar, tentando se recompor, mas ainda sentia o calor nas mãos e o impacto daquela imagem em sua mente.
Patrícia permaneceu calma, mas havia uma mistura de surpresa e preocupação em seus olhos. Ela não conseguia entender o que havia acabado de acontecer, mas sabia que Josiane estava claramente assustada.
— Está tudo bem, Josiane. Não precisamos continuar agora se você não quiser.
Josiane assentiu, mas não olhou para Patrícia. Levantou-se, quase abruptamente, e cruzou os braços em um gesto defensivo.
— Eu só... não quero mais, tá bom? — disse ela, já caminhando para a porta.
Patrícia respeitou o espaço dela, permanecendo sentada.
— Tudo bem. Podemos continuar quando você estiver pronta.
Josiane saiu rapidamente, sem olhar para trás. Patrícia permaneceu na sala, ainda sentindo o calor residual daquele breve contato. Algo na reação de Josiane a intrigava profundamente, mas, ao mesmo tempo, havia um desconforto crescente dentro de si.
— O que foi isso? — Patrícia murmurou para si mesma, enquanto a sala voltava ao silêncio.
Ela sabia que algo havia mudado naquele momento, mas ainda não conseguia entender o que era.
Patrícia estava sentada na sala de reuniões da clínica, mexendo distraidamente na tampa da caneta que segurava. Seus pensamentos ainda estavam presos na última sessão com Josiane,que tinha sido mais neste dia mais cedo. especificamente no momento em que tocou suas mãos. Não era algo que fazia com frequência, mas também não era completamente fora do protocolo. Algumas vezes, um toque no ombro ou um gesto de apoio com as mãos fazia parte do processo terapêutico, especialmente quando um paciente precisava de um momento de calma.
Mas aquele toque não havia sido como os outros. Patrícia sabia que havia algo diferente na conexão que sentiu, e o susto de Josiane ao recuar reforçava essa diferença.
— Está tudo bem? — A voz de Caroline interrompeu seus pensamentos.
Patrícia olhou para a supervisora, que acabava de entrar na sala com uma pasta na mão.
— Na verdade, não sei. — Patrícia hesitou, Caroline notou algo, e fechou a porta. Então Patrícia criou coragem. — Preciso conversar com você.
Caroline sentou-se à mesa, ajustando os óculos e cruzando os braços com atenção.
— Sobre o caso da Josiane?
Patrícia assentiu, o olhar inquieto.
— Sim. Sinto que estou avançando e recuando ao mesmo tempo. Ela escreveu uma carta para mim...na verdade para ela mesma, mas guardou para mim ler.
— Isso é um grande progresso, Patrícia. — Caroline interrompeu, com um sorriso de aprovação.
— Eu sei. E, por um momento, achei que finalmente estava conseguindo quebrar as barreiras dela. Mas agora... parece que tudo voltou ao ponto inicial.
Patrícia começou a contar os eventos recentes, omitindo detalhes que considerava pessoais ou muito específicos sobre Josiane, por sigilo profissional, mas compartilhando o suficiente para expressar sua preocupação. Não mencionou como Josiane havia colocado a carta no caderno, mas destacou como o gesto havia quebrado o ritmo usual da terapia.
— É como se tudo estivesse fora do padrão — continuou Patrícia. — Sei que a abordagem que estou usando não é exatamente convencional, mas também não sei se estou sendo eficaz. Parece que toda vez que dou um passo à frente, dou dois para trás.
Caroline escutava atentamente, e, quando Patrícia terminou, ela suspirou e inclinou-se para a frente.
— Olha, Patrícia, o que você está sentindo é natural. — Caroline começou, sua voz carregada de experiência e tranquilidade. — Você está experimentando um novo método. Algo diferente do que aprendeu na faculdade, que, convenhamos, é muito teórico e cheio de regras rígidas. Aqui, na prática, as coisas são mais dinâmicas.
Patrícia franziu o cenho, ainda inquieta.
— Mas e se eu estiver me desviando demais do que é apropriado? E se eu acabar prejudicando o progresso dela?
Caroline balançou a cabeça, sorrindo levemente.
— Você não está prejudicando nada. Na verdade, está fazendo mais progresso do que qualquer um conseguiu com ela até agora. Josiane se abriu o suficiente para te escrever uma carta, Patrícia. Isso não é pouca coisa. Pelo que fiquei sabendo, ela nunca fez isso antes, com ninguém.
Patrícia desviou o olhar, ainda incerta.
— Mesmo assim, não posso deixar de pensar que algo está... errado. Não só com a abordagem, mas comigo.
Caroline observou Patrícia por um momento, como se estivesse tentando decidir o que dizer.
— Patrícia, deixa eu te falar uma coisa. Se você desistir agora, vai carregar isso como um peso em sua carreira. — Caroline encarando-a diretamente. — Você já tem quatro anos de experiência, mas, no fundo, sabe que esse caso é especial. Não só pelo contrato que temos com a prefeitura, mas porque você conseguiu algo que ninguém mais conseguiu: ela confiou em você.
Patrícia balançou a cabeça, suspirando profundamente.
— Mas e se eu falhar?
Caroline colocou a mão no ombro dela, apertando suavemente.
— Todos falhamos em algum momento. Faz parte do trabalho. Mas, se você desistir agora, não só estará falhando com ela, mas também com você mesma.
Patrícia ficou em silêncio, absorvendo aquelas palavras.
— Reflita sobre isso — continuou Caroline. — E lembre-se, se Josiane confiou em você o suficiente para te entregar aquela carta, ela está te dando uma chance que provavelmente nunca deu a ninguém. E se você se fechar para ela agora, pode ser que ela se feche para sempre.
Patrícia respirou fundo, sentindo o peso das palavras de Caroline. Ela sabia que a supervisora tinha razão, mas isso não tornava as coisas mais fáceis.
— Obrigada, Caroline. Vou pensar sobre isso.
Caroline deu um leve sorriso e se levantou, pegando a pasta.
— Não se preocupe tanto, Patrícia. Você está indo melhor do que imagina.
Quando Caroline saiu, Patrícia permaneceu sentada, olhando para a mesa, perdida em pensamentos. Ela sabia que não poderia desistir, mas também sabia que precisava encontrar uma maneira de lidar com os sentimentos que começavam a surgir, sentimentos que ela ainda não queria reconhecer totalmente.
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Atualizado até capítulo 89
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