Terceiro sessão
— Bom dia, Josiane. – Patrícia falou com o tom calmo que havia se tornado uma segunda pele para ela, mas que naquele momento parecia mais uma armadura.
Josiane entrou no consultório com o mesmo ritmo habitual, sem pressa. Sentou-se no sofá de forma mecânica, cruzando as mãos sobre o colo e fixando os olhos na janela. Ela nem sequer respondeu ao cumprimento. Não era necessário, parecia dizer com o silêncio. Ou seja, "o dia não estava nada bem".
Patrícia ajeitou a cadeira a com um cuidado, tentando disfarçar o incômodo que já começava a surgir. Era a terceira sessão com Josiane, e, apesar dos pequenos avanços na anterior, ela sentia que estava novamente sendo jogada contra um muro intransponível.
— Podemos começar?
Patrícia fez uma pausa, esperando algum movimento, mas nada aconteceu. Respirou fundo e tentou seguir o fluxo natural das sessões.
– Como foi o seu final de semana? – perguntou com um sorriso que tentava parecer natural.
– Normal. – A palavra saiu de Josiane, sem muito entusiasmo, e com olhos fixos o tempo todo no mesmo ponto.
Patrícia anotou alguma coisa no caderno, embora soubesse que não havia nada significativo para registrar. O silêncio tomou conta da sala, um silêncio que, para Patrícia, era insuportável, mas Patrícia manteve o tom profissional.
– Tudo bem. Podemos continuar de onde paramos na última sessão, se quiser? Você chegou a mencionar alguns hobbies... talvez possamos explorar mais isso? – sugeriu, sua voz ainda tranquila.
Josiane não respondeu. Nem fez um movimento, nem um desvio de olhar.
A imobilidade dela era quase desconcertante. Patrícia ajustou a postura na cadeira, inclinando-se ligeiramente para frente, tentando demonstrar interesse e paciência. Mas por dentro, a frustração começava a crescer.
— Josiane? – chamou novamente, sem mudar o tom, mas agora buscando algo, qualquer coisa que rompesse aquela barreira.
Ainda assim, nada. Josiane parecia uma estátua.
Seus olhos permaneciam fixos em um ponto qualquer, como se Patrícia sequer estivesse na sala. Porém, o que Patrícia não percebia à distância era o esforço monumental que Josiane fazia para manter essa fachada de calma. Por dentro, um caos. Cada músculo de seu corpo queria se mover, suas pernas tremiam sob controle absoluto, e sua respiração, apesar de ofegante, era contida ao máximo. Para quem olhasse de fora, ela estava imperturbável. Por dentro, era puro desespero.
Patrícia começou a sentir o desconforto se transformar em algo mais. Não era apenas frustração, era irritação.
Irritação por não saber lidar com aquilo, por não conseguir acessar a paciente, por não entender se estava falhando.
Ela manteve o rosto neutro, mas sua mente estava em uma turbulência crescente. Cada pergunta que fazia e cada silêncio como resposta era como um empurrão que a jogava ainda mais fundo em um poço de frustração.
— Josiane, eu sei que pode ser difícil falar sobre si mesma, mas estou aqui para ouvir, sem julgamento. Não precisa ter pressa. – A voz de Patrícia era calma, mas por dentro, ela já estava se perguntando se aquilo realmente fazia algum sentido.
Josiane desviou os olhos, das janela por um breve momento, mas apenas para se fixar em outro ponto distante. Ou seja, o chão.
A imobilidade dela era sua defesa. Por mais que estivesse desesperada, tentando não ceder à vontade de se mexer, de responder, de explodir, ela não deixaria Patrícia perceber. Não novamente.
A sessão anterior já havia sido um deslize. Ela havia entregado algo que achava pequeno, mas que, ao refletir depois, a deixou irritada consigo mesma. Não podia cometer o mesmo erro.
O silêncio se prolongou, Deixando Patrícia, irritada, que tentava disfarçar mexendo no caderno, fingindo anotar algo. Mas a verdade é que não sabia mais como prosseguir. Josiane parecia uma muralha inabalável, e aquilo estava começando a afetá-la de um jeito que ela não esperava. Por mais experiente que fosse, por mais casos complexos que já tivesse lidado, havia algo em Josiane que a desconcertava.
Patrícia lançou mais uma pergunta, desta vez um pouco mais direta, mas sem perder o tom gentil:
– Você gostaria de falar sobre algo específico hoje? Talvez sobre como está se sentindo ou algo que tenha acontecido nos últimos dias?
E obteve mais silêncio, como resposta.
Patrícia sentiu a irritação se transformar em uma tristeza sutil, mas crescente. Ela manteve a calma exterior, mas, por dentro, sabia que estava perdendo o controle emocional. E isso a incomodava ainda mais. Não era apenas Josiane que estava travada, ela também estava.
Patrícia se inclinou para trás na poltrona, cruzando as pernas e respirando fundo, tentando esconder qualquer sinal de irritação. Ela sabia que precisava manter o profissionalismo, mas o silêncio de Josiane parecia uma provocação, mesmo que racionalmente ela soubesse que não era.
A sala ficou novamente em silêncio, um silêncio pesado e quase opressor. Patrícia sabia que, naquele momento, era melhor recuar do que insistir. Ela baixou o olhar para o caderno, fingindo que o silêncio fazia parte da sessão, mas, na verdade, ela só queria reorganizar seus pensamentos. Por enquanto, ela teria que aceitar que essa batalha estava perdida. Mas apenas por enquanto.
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Atualizado até capítulo 89
Comments
Erca Tovela
interessante
2024-12-11
1