Patrícia estava sentada em sua poltrona, o caderno de anotações aberto em seu colo. Os dedos deslizavam pelas páginas enquanto ela relia as observações das cinco primeiras sessões com Josiane. A voz dela ecoava suavemente pela sala, quase como se falasse consigo mesma. Não era alta o suficiente para ser ouvida por alguém de fora, mas o suficiente para organizar os pensamentos.
— Sessão um, resistência total. Poucas interações, silêncio absoluto. Sessão dominada por apatia e falta de engajamento. Nenhuma abertura significativa. Apenas relatos básicos de sua vida, como onde morava, e porque estava lá.— Patrícia fez uma pausa, riscando algo na margem. — Sessão dois pequena mudança. Josiane respondeu com frases curtas, e evasiva. A resistência continua, mas observei gestos de desconforto quando, ela falou sobre um gosto particular dela. A leitura. Isso teve um significado, já que ela não queria que fosse revelado.
Ela virou a página, os olhos atentos às anotações.
— Sessão três, Silêncio total – Patrícia suspirou, quando se lembrou deste dia e do desconforto. — E o mesmo ocorreu na quarta sessão.
Patrícia suspirou e passou para a página seguinte.
— Ainda na sessão quatro: a conversa com Caroline me ajudou. Mantive a postura, controlei minhas reações. Resultado? Na quinta sessão, Josiane finalmente quebrou o silêncio com provocações, mas revelou indiretamente sua insatisfação com as sessões e com sua própria vida. Metáfora do tempo nublado... — Patrícia fez uma pausa, rabiscando algo ao lado dessa nota. — Foi um pequeno avanço.
Ela folheou até a última sessão, o lápis tamborilando contra a borda da página.
— Ainda na Sessão cinco: o desabafo. Raiva. Josiane revelou a sensação de estar presa às obrigações, sua relação conturbada com as regras e os abrigos, e, claro, a perda da mãe... mais hostilidade. Respostas carregadas de sarcasmo, tentativa clara de me provocar. Notei que essa hostilidade se intensifica quando sinto que estou no controle da situação. Estratégia? Usar a própria raiva dela, para poder obter informações.
Patrícia fechou o caderno, os dedos deslizando pela capa de couro.
"Tenho material suficiente para trabalhar agora. Mas como devo abordar isso?" Ela pensava, sentindo um misto de ansiedade e determinação.
Por um lado, o desabafo de Josiane era um tesouro, um ponto de partida para aprofundar a relação terapêutica. Por outro, usá-lo de maneira direta poderia ser arriscado. "Devo provocar mais para ampliar a abertura? Ou volto a uma abordagem padrão e mais segura? Talvez uma terceira opção..."
Antes que pudesse decidir, o relógio na parede marcou o horário da sessão. Patrícia levantou-se, respirou fundo e foi até a porta. Ao abri-la, viu Josiane no corredor.
Sexta sessão
— Bom dia, Josiane. — disse Patrícia, mantendo o tom gentil, mas firme.
Josiane não respondeu, mas sua postura estava diferente. Ela andou em direção ao sofá com passos rápidos, quase apressados, e sentou-se de forma desconfortável, cruzando os braços imediatamente. Patrícia percebeu a diferença. Algo estava incomodando Josiane.
"Ela não está no controle desta vez."
Patrícia se sentou em sua poltrona com calma, ajustando-se como quem toma posse do espaço. Pela primeira vez, percebeu que a paciente parecia inquieta, logo de início. A terapeuta, no entanto, manteve o rosto neutro. Por dentro, sentia que era sua vez de conduzir a sessão, mas sabia que precisava ser cuidadosa.
— Você gosta de silêncio, Josiane? — disse Patrícia, sua voz calma, mas calculada.
Josiane lançou um olhar afiado para ela, mas não respondeu. Patrícia continuou.
— Então, vamos fazer assim: se quiser conversar, estou aqui. Se não quiser, vou ficar em silêncio também. E está tudo bem.
Josiane mudou de posição no sofá, os ombros enrijecidos. Patrícia percebeu a reação. A paciente detestava a ideia de que outra pessoa pudesse controlar o silêncio. Josiane sempre usara o silêncio como arma, mas, agora, parecia desconfortável com ele.
— Você acha que isso vai funcionar, tentar usar essa técnica? — Josiane finalmente perguntou, sua voz carregada de ironia, mas sem a mesma força de antes.
Patrícia sorriu levemente, inclinando-se um pouco para frente.
— Técnica? Talvez funcione, talvez não. Mas não é esse o ponto. O que importa é o que você quer fazer com esse momento, você decide o que fazer aqui.
Josiane estreitou os olhos, como se estivesse tentando decifrar Patrícia.
— Você acha que é esperta, não é? — disse Josiane, cruzando os braços novamente.
— Não sei se é questão de ser esperta. — Patrícia respondeu, com um tom leve. — Mas sei que estou aqui para te ouvir, se você quiser falar.
O silêncio voltou, mas era diferente. Josiane parecia estar travando uma luta interna. Depois de alguns segundos, ela se inclinou para frente, encarando Patrícia com uma intensidade que misturava raiva e frustração.
— E se eu não quiser? — disparou Josiane.
— Então ficamos em silêncio. — respondeu Patrícia, tranquilamente.
Josiane soltou uma risada curta e amarga, mas não se moveu.
— Você não vai desistir, vai? — perguntou, o tom desafiador, mas com uma pitada de cansaço.
— Não. — disse Patrícia, com uma simplicidade desarmante.
Por um momento, Josiane pareceu sem palavras. Ela desviou o olhar, mas não conseguiu evitar que seus ombros relaxassem ligeiramente. Patrícia percebeu.
"É isso. Ela está cedendo, aos poucos."
Ainda havia muito caminho pela frente, mas Patrícia sabia que, naquele dia, algo havia mudado. Pela primeira vez, Josiane parecia reconhecer que, por mais que lutasse contra, Patrícia não iria a lugar nenhum.
O silêncio na sala continuou. Josiane olhava para a janela, os olhos fixos em algum ponto na janela como se estivesse tentando se agarrar a algo invisível. Patrícia, sentada com o caderno fechado sobre o colo, observava sem pressionar. Ela sabia que aquele momento não podia ser apressado.
Depois de um longo minuto, Josiane respirou fundo e finalmente quebrou o silêncio, mas sem olhar diretamente para Patrícia.
— Não é contra você. — disse, a voz seca, mas carregada de algo mais profundo. — É contra tudo isso.
Patrícia permaneceu quieta, inclinando-se levemente para frente para mostrar que estava ouvindo.
— Não é contra você, de verdade. — Josiane repetiu, mas desta vez sua voz vacilou. Ela se mexeu desconfortavelmente no sofá, como se a tensão dentro dela fosse grande demais para conter. — Mas, ao mesmo tempo, é também.
Patrícia arqueou ligeiramente as sobrancelhas, mas manteve o tom neutro ao responder.
— Pode me explicar o que você quer dizer?
Josiane virou-se lentamente para Patrícia, o olhar agora mais firme.
— Não é você, é tudo isso... toda essa dinâmica. — disse, gesticulando vagamente com as mãos. — Essa coisa de sentar aqui, você com esse caderno, anotando como se estivesse resolvendo alguma coisa.
Patrícia continuou ouvindo, sem interrompê-la. Josiane respirou fundo, como se precisasse reunir forças para continuar.
— Eu sei que isso é importante, tá? Que é pra eu conseguir ficar no abrigo. — A voz dela ficou mais amarga, mas ainda controlada. — Esses abrigos com filas imensas de pessoas querendo um lugar pra ficar. Seria ingratidão não me esforçar pra manter o meu.
Josiane deu uma risada curta, com ironia. e olhou de volta para a janela.
— Então o que eu faço? Se eu tenho que trabalhar, eu vou. Se eu tenho que participar de atividades, eu participo. Se tenho que pegar lixo todo dia ou limpar balcão, eu faço. Porque eu preciso cumprir as regras, senão eu tô fora. — Ela deu de ombros, o gesto frio, mas carregado de resignação. — É assim que funciona.
Patrícia fez uma pequena anotação, mas de forma discreta, para não atrair a atenção de Josiane. Sabia que o momento era delicado e não queria quebrar a conexão que começava a se formar.
— Eu entendo que o governo diga que é gratuito, mas não é. — continuou Josiane — Eles chamam de concessão, mas só se você cumprir as regras. Terapia, trabalho, essas festa sociais que eles acham interessantes... Se você não faz, você não fica. Não é de graça. Nada é.
Patrícia assentiu levemente, sinalizando que estava acompanhando.
— Eu cumpro minha parte. Sempre cumpri. Mas toda vez que eu venho aqui... — Josiane parou por um momento, os olhos fixos no chão, antes de erguer o olhar para Patrícia. — Vocês pegam esse caderno, fazem anotações como se fosse algo importante e querem que eu me abra.Que eu fale da minha vida, do meu passado, e depois me transfere, só cutuca, algo que não quero.
Patrícia manteve o olhar fixo em Josiane, sem julgar, apenas ouvindo.
— Por isso que eu não quero trazer nada à tona. Tá no passado, deixa lá. Pra que trazer? — A voz dela tremia ligeiramente – Pra que trazer isso pra frente?
Josiane ficou em silêncio, mas Patrícia percebeu que ainda havia algo fervendo dentro dela. Esperou alguns segundos antes de responder, escolhendo cuidadosamente as palavras.
— Eu entendo que você queira deixar o passado lá. Ele dói, e abrir essas feridas não é fácil. — Patrícia falou calmamente, sua voz era um convite, e não uma imposição. — Mas o que aconteceu lá atrás ainda afeta como você vive hoje, como você se sente agora.
Josiane balançou a cabeça, como se quisesse afastar aquelas palavras.
— É fácil falar. — retrucou, com um tom defensivo. — Você tá aí, sentada, anotando. Não é você que tem que reviver tudo.
Patrícia inclinou-se ligeiramente para frente, os olhos fixos nos de Josiane.
— Não, não sou eu. Mas estou aqui para te ajudar a carregar isso, se você deixar.
O silêncio voltou, mas desta vez não era desconfortável. Josiane parecia processar as palavras, o olhar perdido em algum lugar entre Patrícia e o chão.
— Tá. — murmurou finalmente, recostando-se no sofá. — Mas não espere muita coisa.
Patrícia permitiu-se um pequeno sorriso interno. Sabia que, para Josiane, aquilo era o mais próximo de um acordo que poderia obter naquele momento.
— Não espero nada além do que você está disposta a dar. — respondeu Patrícia, com sinceridade.
Josiane não respondeu, mas algo em sua postura parecia menos tenso. Patrícia sabia que ainda havia muito trabalho pela frente, mas aquele momento era um ponto de partida, um começo de confiança.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 89
Comments
Valdenia Silva
Josiane ergueu o muro como proteção,ela ja lidou com o abandono e as mudanças tantas vezes que pra ela de nada serve se abrir pra alguém que a qualquer momento pode deixar . Patricia tem tudo pra mudar essa postura dela,ela so precisa ser paciente e atenciosa,acredito que a Josiane so precisa de alguém que se importe ,que a entenda e que continue com ela
2025-02-12
0
Erca Tovela
paciência Patrícia disistir não é uma opção
2024-12-11
2