8: Oitava sessão - A Carta

Oitava sessão

Patrícia olhou para o relógio discretamente enquanto seu paciente falava, os dedos tamborilando na borda do caderno. Ela tentava manter a concentração, mas sua mente insistia em se desviar.

O território conquistado na última sessão com Josiane ainda pairava em sua mente. Ela se sentia satisfeita, mas havia algo mais ali, algo que não conseguia nomear de imediato.

Porém, sabia que estava muito fixa na consulta que ainda iria acontecer com Josiane, do que no seu paciente no momento, esse paciente, tinha uma sessão a cada 15 dias, e esse era o momento de ouvir mais ele, mas sua mente vagava em Josiane.

"É só porque consegui avançar como profissional,"

 Dizia para sim mesma, quase como um mantra.

Mas, no fundo, sabia que não era só isso. Era uma satisfação que vinha de um lugar mais profundo.

O paciente à sua frente interrompeu seu devaneio com um suspiro longo e desinteressado.

— Então, como eu estava dizendo... — ele recomeçou, a voz arrastada e monotônica.

Patrícia assentiu, mantendo a postura profissional impecável, mesmo sentindo o peso da impaciência. Aquele paciente, embora desafiador e frequentemente rotulado como "difícil", era um compromisso que ela honrava. Contudo, hoje, seu foco estava dividido.

Entre pausas no discurso do paciente, Patrícia permitiu-se planejar a próxima sessão com Josiane.

"O que eu deveria fazer? Continuar explorando as pequenas concessões que ela faz, ao me dizer algo? Ou tentar algo mais ousado?"

 Ela sabia que precisava ser cautelosa, e também o prestar mais atenção no paciente, mas a ansiedade para vê-la novamente era palpável.

Quando o relógio finalmente marcou o fim da sessão, Patrícia se despediu com profissionalismo, mas, ao fechar a porta atrás do paciente, sentiu um alívio.

"Agora é a vez dela,"

Pensou, sentindo o coração acelerar.

Minutos depois, Patrícia abriu a porta novamente, e lá estava Josiane. Mas algo estava diferente. Patrícia notou imediatamente, a postura dela não era mais hostil, como de costume. Em vez disso, Josiane parecia mais tímida, quase retraída, como se tivesse baixado uma parte de suas defesas.

— Bom dia, Josiane. — disse Patrícia, tentando manter o tom casual.

Josiane hesitou por um segundo, mas respondeu, para a surpresa de Patrícia

— Bom dia.

Era uma troca simples, mas cheia de significados. Patrícia percebeu que, naquele momento, Josiane estava entregando algo, mesmo que pequeno. A terapeuta gesticulou para que ela se sentasse, e Josiane o fez, cruzando os braços de forma defensiva, mas sem a usual agressividade.

Houve um momento de silêncio enquanto Patrícia abria o caderno e se ajustava na poltrona. Ela sabia que Josiane precisava desse espaço para decidir o próximo passo.

— Então, Josiane, como você está hoje?

Josiane balançou a cabeça, soltando um suspiro leve.

— Hoje quero falar — disse, finalmente, sua voz carregada de medo, mas era melhor falar qualquer coisa, ou A terapeuta, iria arrancar dela, com os seus truques, era pelo menos isso que ela achava.

Patrícia manteve o olhar firme, mas sem pressionar.

— Sobre o quê?

Josiane desviou os olhos para a janela, como se estivesse organizando os pensamentos.

— Sobre o trabalho. — começou, com um tom que parecia mais uma concessão do que um desabafo genuíno. — Todo dia é a mesma coisa. Caminhar pela ferrovia, pegar lixo, juntar coisas inúteis.

Ela fez uma pausa, mexendo nos dedos sobre o colo.

— Às vezes, encontro umas porcarias lá, mas também coisas engraçadas, tipo uma carta, que uma pessoa escreveu para si mesma. No total e sempre papéis velhos, sacolas rasgadas... coisinhas inúteis, camisinhas usadas, você acredita?

Patrícia percebeu que Josiane estava oferecendo algo. Era uma informação superficial, algo que ela considerava insignificante, mas ainda assim era uma entrega.

— Deve ser cansativo. — disse Patrícia, com um tom de empatia que não parecia forçado.

— Melhor do que ficar no abrigo — Josiane deu de ombros, mas havia algo na forma como desviava o olhar que denunciava um desconforto.

Patrícia inclinou-se levemente para frente, sem invadir o espaço de Josiane.

— Parece que você acha seu trabalho mais importantes, do que o seu lar?

Josiane soltou uma risada curta com ironia.

— Porque é. Embora para muitos o que faço é só retirar o lixo. Mas, sei lá, acho que alguém tem que fazer, alguém tem que limpar os lixos, que os outros fazem.

Patrícia assentiu, anotando algo no caderno. Ela sabia que Josiane estava tentando manter o controle da interação, manipulando o foco para longe de qualquer coisa pessoal ou emocional. Ainda assim, Patrícia enxergava aquilo como um progresso, e mesmo tentando direcionar para outro lado da conversa, ainda sim, entregava informações valiosas.

"Ela acha que está me controlando, mas está me dando exatamente o que eu preciso," pensou Patrícia.

— Você se importa em falar mais sobre isso? — Patrícia perguntou, mantendo o tom leve.

Josiane a olhou de relance, como se estivesse avaliando as intenções por trás da pergunta.

— Não tem muito o que falar. Só faço o que mandam. É assim que funciona, né?

Houve um silêncio que Patrícia decidiu não preencher. Isso era importante, não tentar preencher com perguntas, o momento, que deve ser de reflexão para Josiane.

Josiane mexeu nos dedos, desconfortável, mas parecia relutante em continuar.

— É só isso. — concluiu Josiane, como se colocasse um ponto final na conversa.

Patrícia sorriu internamente, Josiane havia oferecido uma parte pequena de sua rotina, já havia feito isso antes, mas a diferença era que agora ela falava o que sentia em relação a essa rotina, sem ser eu "odeio isso". Era um pequeno passo, mas significativo.

— Obrigada por compartilhar isso, Josiane. — disse Patrícia, genuinamente.

Josiane não respondeu, mas sua postura parecia menos tensa. Patrícia sabia que, naquele momento, era melhor não pressionar. A trégua estava estabelecida, e ela não queria arriscar quebrá-la.

Patrícia observou Josiane em silêncio, ainda assimilando o que ela havia compartilhado sobre o trabalho. A maneira como Josiane falou do dia a dia na ferrovia, parecia, por um lado, superficial e indiferente, mas por outro, carregava pequenas brechas de algo maior.

— Você mencionou que encontrou uma carta para si mesma. — disse Patrícia, com um tom que misturava curiosidade e leveza. — Você chegou a ler?

Josiane olhou para ela, erguendo uma sobrancelha, como se considerasse se valia a pena compartilhar mais.

— Claro que li. — respondeu, finalmente. — Quem não leria algo assim?

Patrícia sorriu ligeiramente, incentivando-a sem palavras a continuar.

— Era... — Josiane fez uma pausa, como se organizasse os pensamentos. — Era uma carta meio bizarra, sabe? Alguém escreveu para si mesma, tipo. "Querida eu do futuro, espero que você tenha parado de ser uma idiota."

Ela riu levemente, e Patrícia percebeu um brilho diferente em seus olhos, algo que não via antes.

— Isso me fez rir na hora. — Josiane continuou. — Porque, sabe, quem escreve uma coisa dessas? E o pior é que a carta ficava oscilando entre ser engraçada e... sei lá, meio deprimente.

Patrícia inclinou-se levemente para frente.

— Deprimente como?

Josiane balançou a cabeça, sorrindo de forma contida.

— Tipo... a pessoa dizia que esperava que, no futuro, ela tivesse "parado de ser um peso morto" ou algo assim. E depois mudava de tom, falando que queria ser mais corajosa, mais sei lá, livre. — Josiane deu de ombros. — Era engraçado, mas também meio triste.

— E você ficou pensando sobre essa pessoa? — perguntou Patrícia, cuidadosamente.

Josiane cruzou os braços, mas não parecia defensiva.

— Um pouco. — admitiu, com relutância. — Tipo, quem era essa pessoa? O que ela estava passando pra escrever algo assim?

Ela fez uma pausa, seus olhos fixos em algum ponto do chão.

— E, sei lá, o que aconteceu com ela? Porque, né, a carta estava ali, jogada no meio do lixo. Será que ela se tornou o que queria? quando ela fez essa carta? parecia ser bem velha.

Patrícia observava atentamente, mas não interrompeu. Josiane parecia perdida em seus pensamentos, mas continuava falando.

Outra coisa que chamou a atenção de Patrícia, era o vocabulário de Josiane, de todos do abrigo, ela parecia às vezes, falar com um conhecimento, de vocabulário refinado.

— Acho que o que me fez rir foi o jeito que a pessoa se zoava. Tipo, ela se chamava de preguiçosa, desastrada, e terminava dizendo algo como "espero que você tenha aprendido a não tropeçar na própria vida". — Josiane soltou uma risada curta. — Meio trágico, mas engraçado também.

— Você conseguiu se identificar com algo que estava na carta? — perguntou Patrícia, sua voz suave, mas carregada de intenção.

Josiane ficou quieta por um momento, e Patrícia viu algo mudar em sua expressão. Foi breve, quase imperceptível, mas estava lá.

— Não sei. Talvez. — respondeu Josiane, finalmente. — Mas, sabe, eu só achei curioso. Não é como se fosse sobre mim ou algo assim.

Patrícia sorriu levemente, percebendo que Josiane estava tentando minimizar o impacto que a carta havia tido nela.

— Parece que essa carta te marcou, de alguma forma.

— Ah, não exagera. — disse Josiane, balançando a cabeça com um sorriso de canto. — Foi só uma coisa engraçada que encontrei.

— Engraçada, mas... reflexiva também, não acha?

Josiane deu de ombros novamente, mas não respondeu. Patrícia notou que, embora estivesse tentando manter a fachada, havia um brilho diferente nos olhos dela, uma abertura que não existia antes.

— E você guardou a carta? — Patrícia perguntou, com delicadeza.

Josiane hesitou, mas acabou balançando a cabeça.

— Não. Mas, por algum motivo, lembro dela de vez em quando.

Patrícia sorriu internamente. "Mesmo sem admitir, essa carta mexeu com ela," pensou.

Josiane, percebendo o silêncio que se formara, em Patrícia, desconfiada, de que ela, já tivesse tirando conclusões, tentou mudar de assunto, mas Patrícia sabia que já havia obtido o suficiente por enquanto. Cada palavra, cada risada curta e cada pausa carregava muito significado.

Enquanto Josiane divagava sobre outra coisa qualquer, Patrícia mentalmente revisava o que havia acabado de ouvir.

"Ela está começando a entregar mais, mesmo que ache que está no controle. É um começo. Pequeno, mas significativo."

E, pela primeira vez naquela sessão, Patrícia sentiu que estava começando a ver a verdadeira Josiane emergir, ainda que aos poucos, por entre as camadas de defesa.

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Sara viih

Sara viih

tô amando

2025-01-03

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Capítulos
1 1: Segunda sessão - Silêncio
2 2: Terceira sessão- Segunda pele
3 3: Quarta sessão - Indiferença
4 4: Bate papo
5 5: Quinta Sessão - Como está o tempo hoje
6 6. Sexta sessão - Início de uma confiança
7 7 Sétima sessão - O embate
8 8: Oitava sessão - A Carta
9 9: Nova Sessão - Erro de Interpretação
10 10: Continuação da nova sessão - A Carta para o futuro
11 11: A revelação da carta
12 12: Décima Sessão - Criptonita
13 13: Continuação da sessão 10- Aproximação Delicada.
14 14: Décima primeira sessão - Faisca
15 15: Décima segunda sessão - Dentro da mente de Josiane
16 16: Décima Segunda Sessão - Continuação - Seu jeito.
17 17: Décima Terceira Sessão – Eu e ela ?
18 18: Décima quarta sessão - Não pode ou você não quer ouvir?
19 19: Porque...
20 20: Você está me dispensando?
21 21: Pisando em terreno perigoso
22 22: Mas a que custo?
23 23: Décima quinta sessão - Urgência
24 24: Sem saída
25 25: Uma mãe... e uma voz da razão
26 26: Seguir em frente.
27 27: Entre a Ética e o medo
28 28: Louco encontro
29 29. O feiticeira do amor
30 30: Por te amar e assim
31 31: Que as águas libertem
32 Capítulo 32: Garfada
33 Capítulo 33: Uma injustiça não corrige outra.
34 Capítulo 34: Não vou mais te abandonar
35 Capítulo 35: Sob o efeito seu
36 Capítulo: 36 Entre Mãe e Filha
37 Capítulo: 37 A Verdade Oculta
38 Capítulo 38: A Ética e as etiquetas
39 Capítulo 39: Quem é Você?
40 Capítulos 40: Sem medos e sem culpas.
41 Capítulo 41: O peso da Ética e a força do amor
42 Capítulo 42: Amar também é esperar
43 Capítulo 43: A investigação parte 1
44 Capítulo 44: A investigação parte 2
45 45: A investigação parte 3
46 46: Ação e reação parte 1
47 Capítulo 47: Ação e reação parte 2.
48 48: O Tribunal de Ética
49 49: A defesa.
50 50: Justo?
51 51: Redenção e Consequências parte 1
52 52: Redenção e Consequências parte 2
53 53: Porque dói tanto?
54 54: A chegada do outono
55 55: Antes da primeira sessão
56 56: Primeira sessão
57 57: Voltando a rotina
58 58: Uma joia na tempestade.
59 59: Senhor Ranzinza
60 60: As linhas tortas da vida
61 61: Uma nova oportunidade
62 62: Acúmulos
63 63: De certa forma eu me refiz
64 64: Eu ainda te amo
65 65: Sua pele
66 66: Depois da tempestade
67 67: Novos Caminhos, Velhos Sonhos
68 68: Aprendendo
69 69: Sob pressão
70 70: Mágoas passadas
71 71: Querem me ouvir?
72 72: Memória fotográfica
73 73: Fobia
74 74: Um sinal
75 75: Bagunça total
76 76: Reativa
77 77: Peso do passado.
78 78: O passado e o presente no mesmo lugar
79 79: O encontro com a verdade
80 80: Sai do carro
81 81: Tudo bem. Estou com vocês
82 82: Perdão
83 83: Sonhos perdidos?
84 84: preparação.
85 85: Ou uma toalha molhada na cama?
86 86: Escolha ser feliz
87 87: Família é tudo
88 88: Isso significa muito para mim
89 89: Fim
Capítulos

Atualizado até capítulo 89

1
1: Segunda sessão - Silêncio
2
2: Terceira sessão- Segunda pele
3
3: Quarta sessão - Indiferença
4
4: Bate papo
5
5: Quinta Sessão - Como está o tempo hoje
6
6. Sexta sessão - Início de uma confiança
7
7 Sétima sessão - O embate
8
8: Oitava sessão - A Carta
9
9: Nova Sessão - Erro de Interpretação
10
10: Continuação da nova sessão - A Carta para o futuro
11
11: A revelação da carta
12
12: Décima Sessão - Criptonita
13
13: Continuação da sessão 10- Aproximação Delicada.
14
14: Décima primeira sessão - Faisca
15
15: Décima segunda sessão - Dentro da mente de Josiane
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16: Décima Segunda Sessão - Continuação - Seu jeito.
17
17: Décima Terceira Sessão – Eu e ela ?
18
18: Décima quarta sessão - Não pode ou você não quer ouvir?
19
19: Porque...
20
20: Você está me dispensando?
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22
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24
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25
25: Uma mãe... e uma voz da razão
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26: Seguir em frente.
27
27: Entre a Ética e o medo
28
28: Louco encontro
29
29. O feiticeira do amor
30
30: Por te amar e assim
31
31: Que as águas libertem
32
Capítulo 32: Garfada
33
Capítulo 33: Uma injustiça não corrige outra.
34
Capítulo 34: Não vou mais te abandonar
35
Capítulo 35: Sob o efeito seu
36
Capítulo: 36 Entre Mãe e Filha
37
Capítulo: 37 A Verdade Oculta
38
Capítulo 38: A Ética e as etiquetas
39
Capítulo 39: Quem é Você?
40
Capítulos 40: Sem medos e sem culpas.
41
Capítulo 41: O peso da Ética e a força do amor
42
Capítulo 42: Amar também é esperar
43
Capítulo 43: A investigação parte 1
44
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