Patrícia afundou na poltrona, o corpo tenso e a mente girando em círculos. A sessão com Josiane havia sido exaustiva, e a sensação de impotência a consumia.
A porta da sala, entreaberta, revelava sua expressão desconfortável para quem passava pelo corredor.
— Patrícia? — A voz de Caroline, sua supervisora, ecoou com suavidade, mas com a firmeza típica dela. O rosto, sempre sereno, trazia aquele sorriso calculado que parecia tanto acolhedor quanto inquisidor.
Patrícia ergueu os olhos e tentou recompor-se rapidamente, mas o cansaço era evidente.
— Caroline. — Ela ajustou-se na poltrona, tentando recuperar uma postura mais profissional. — Entre, por favor.
Caroline fechou a porta ao entrar. Sentou-se na sofá à frente de Patrícia, cruzando as pernas com elegância.
— Percebi que você estava... desconfortável. Algo em particular aconteceu? — Caroline começou, apoiando a pasta que segurava sobre os joelhos.
Patrícia hesitou por um momento. Sabia que poderia falar, mas precisava escolher as palavras com cuidado. Afinal, tinha que falar de uma paciente, sem revelar algo sensível, embora ela não tivesse nada dela para falar.
— É a Josiane. Eu sinto que estou andando em círculos com ela. Nada que eu faça parece surtir efeito, e está começando a me desgastar. — Patrícia suspirou, os dedos tamborilando no braço da poltrona. — Ela simplesmente não coopera, e eu... sinto que estou falhando.
Caroline manteve o sorriso, inclinando-se ligeiramente para frente.
— Entendo. Josiane é um caso complicado, mas isso faz parte do que fazemos, não é? — Caroline começou, o tom ainda gentil. — Quero lembrar que essa parceria com a prefeitura é essencial para nosso trabalho. Esses jovens vêm de histórias difíceis, e, muitas vezes, essas resistências é apenas um reflexo daquilo que viveram.
Patrícia assentiu lentamente, mas não conseguiu esconder a frustração.
— Eu entendo isso. Só que, no caso dela, parece... diferente. Não é só resistência, é como se ela estivesse cumprindo uma obrigação, nada mais. — Patrícia deixou escapar um suspiro carregado. — E isso me faz sentir como se estivesse falando com uma parede.
Caroline ajeitou-se no sofá, apoiando as mãos sobre a pasta.
— Patrícia, eu confio em sua capacidade, e sei que você é uma profissional dedicada, e exatamente, por isso que quero reforçar algo, esse contrato com a prefeitura tem uma duração inicial de dois anos, com possibilidade de renovação. E você sabe tão bem quanto eu que essa renovação depende de resultados. — Ela fez uma pausa — Não podemos nos dar ao luxo de deixar um caso como o de Josiane estagnar. Precisamos avançar, ainda que seja aos poucos.
Patrícia engoliu seco. As palavras de Caroline eram educadas, mas o subtexto era claro: desistir não era uma opção.
— Eu entendo, Caroline. Só que... está começando a ficar difícil. Sinto que nada funciona, e, honestamente, não sei quanto tempo vou conseguir lidar com isso sem me desgastar ainda mais. — A voz de Patrícia falhou por um instante, mas ela rapidamente se recompôs.
Caroline inclinou-se mais para frente, agora com a expressão mais séria.
— Patrícia, Eu valorizo muito o que você fez, e faz aqui, queria muito abrir uma exceção, e transferir, Josiane para outro profissional. Mas você sabe que o contrato vai além de nós duas. É a base de algo maior, algo que afeta a vida de muitos jovens. Não podemos permitir que as dificuldades de um caso nos façam perder o foco. — O sorriso de Caroline retornou — Confio em você para encontrar uma solução, porque sei que é capaz. Mas quero que entenda, precisamos que todos os casos avancem. É isso que será avaliado. Eles querem o mínimo de desistência, e troca de profissionais.– Ela pausou por um instante — Sabe porque? Esses jovens estão mudando de profissionais o tempo todo.
Patrícia ficou em silêncio por um momento, absorvendo as palavras. Havia algo reconfortante na confiança de Caroline, mas também uma "pressão" que pesava em seus ombros.
— Vou fazer o meu melhor. Prometo. — Patrícia respondeu finalmente, mantendo o tom profissional.
Caroline relaxou a postura e levantou-se, ajeitando a pasta nos braços.
— Sei que fará. E lembre-se. você pode me procurar se precisar de apoio ou orientação. Minha porta está sempre aberta. — Ela parou na porta, olhando para Patrícia uma última vez. — Cuide de si também, Patrícia. Precisamos de você no seu melhor.
Assim que Caroline saiu, Patrícia afundou na poltrona novamente, soltando um suspiro longo. Ela sabia que Caroline não fazia por mal, mas o foco no contrato parecia ofuscar a percepção de que a própria terapeuta estava começando a se desgastar.
Patrícia sabia que precisaria lidar com Josiane, mas também sabia que, para isso, teria que encontrar uma maneira de lidar com sua própria frustração.
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Atualizado até capítulo 89
Comments
Sara viih
muito profundo
2025-01-03
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