A carta.
Patrícia segurava o papel com cuidado, como se ele pudesse desintegrar-se a qualquer momento. A sala estava em silêncio, exceto pelo som de sua respiração, que parecia um pouco mais pesada do que o normal. Havia algo quase íntimo naquela leitura, como se estivesse invadindo um espaço sagrado, mas a decisão de Josiane de deixar a carta no caderno eliminava qualquer dúvida.
"Ela quis que eu lesse" pensou Patrícia.
Abrindo a folha, começou a leitura. No topo, a frase "Querida eu do futuro" Patrícia soltou um sorriso breve e murmurou para si mesma:
— "Querida"...
Continuou a ler, deixando que as palavras de Josiane a guiassem.
"Querida eu do futuro,
É engraçado começar assim, porque não sei se sou minha própria 'querida'. Na verdade, acho que não.
Eu não sei como vai estar o futuro. Meu maior medo é não estar mais no abrigo. Parece estranho ter medo disso, porque eu odeio este lugar, mas o que seria pior do que isso? Não ter esse pouco que eu tenho agora. E o que tenho?
O emprego limitado, as normas sufocantes, as pessoas que me irritam... tudo pertence ao governo, não a mim. Nem mesmo a minha vida parece realmente Mim.
Mas, ao mesmo tempo, quantas vezes ouvi dizer que lá fora é muito pior? Que na rua você não encontra comida, só frio, privações e, talvez, algo mais perigoso.
Quantas vezes eu quis fugir? Muitas. Mas alguém sempre diz para mim: 'Não faça isso, lá fora é pior.' Então, eu fico. Não porque eu quero, mas porque eu tenho medo.
O meu maior sonho... na verdade, eu nem sei o que é sonhar. As pessoas falam sobre sonhos como se fossem tão naturais, talvez seja, tipo...ser astronauta, médica, advogada. Eu nunca consegui aspirar nada disso. Meu único objetivo é sobreviver. É isso que minha mãe me ensinou. Ser prática.
E é isso que eu tento ser. Só prática."
Patrícia terminou de ler e deixou o papel descansar em suas mãos. A cada palavra, sentiu como se estivesse olhando diretamente para a alma de Josiane, algo que a jovem sempre se esforçava tanto para esconder.
"Ela não sonha" pensou Patrícia, com o coração apertado. "Ela não vê o futuro como algo possível. Para ela, tudo se resume a sobrevivência."
A terapeuta recostou-se na cadeira, o olhar perdido por um momento. Era difícil não sentir o peso daquela revelação, a forma como Josiane expunha seus medos mais profundos de uma maneira tão simples e, ainda assim, tão devastadora.
Mas, ao mesmo tempo, Patrícia percebeu algo importante, o simples fato de Josiane ter escrito aquela carta era um passo significativo. Talvez ela não sonhasse, mas havia algo naquela escrita que indicava uma pequena, quase imperceptível, faísca de esperança.
Patrícia dobrou a carta com cuidado e a colocou de volta no caderno. Sabia que precisaria abordar isso na próxima sessão, mas, por enquanto, decidiu dar a si mesma um momento para refletir.
Enquanto pegava sua xícara de café, sentiu uma mistura de gratidão e responsabilidade. Josiane havia confiado nela, mesmo que de forma indireta. E Patrícia sabia que não podia desperdiçar essa oportunidade.
— "Vamos descobrir juntas o que significa sonhar," — murmurou para si mesma, antes de fechar o caderno.
Quando Patrícia chegou em casa, o peso do dia parecia mais presente do que nunca. A carta de Josiane não apenas havia mexido com ela, mas continuava ecoando em sua mente de uma forma que ela não conseguia afastar. Era como se cada palavra escrita estivesse grudada em seus pensamentos, se repetindo em um ciclo que ela não sabia como interromper.
Ela largou a bolsa no sofá e foi direto para o banho, na esperança de que a água quente pudesse aliviar a tensão que sentia. Normalmente, um banho era suficiente para recarregar suas energias, mas, dessa vez, enquanto a água escorria pelo corpo, tudo o que conseguia pensar era na frase que mais havia marcado na carta: "Eu não sei o que é sonhar."
"Como alguém não sabe o que é sonhar?" pensou. Para Patrícia, aquilo era quase inconcebível. Sua vida inteira havia sido movida por sonhos — desde os pequenos, como entrar ir na Disney, depois na faculdade de psicologia, até os maiores, como se tornar uma profissional reconhecida. Seus pais, sempre tão dedicados, haviam incentivado esses sonhos. Sua mãe, terapeuta como ela, a ensinara que a prática era importante, mas os sonhos eram o que realmente moviam a vida. E seu pai um grande Cardiologista, ensinava o amor pela vida.
" Que saudades de você pai" falou Patrícia sentido falta de seus conselhos
Depois do banho, Patrícia colocou um pijama confortável e foi para a sala, tentando se distrair com uma série na TV. Não demorou muito para que sua mãe, que morava com ela desde que o pai falecera, aparecesse na porta. Dona Helena era uma mulher observadora, e algo no comportamento da filha lhe parecia diferente naquela noite.
— Patrícia, está tudo bem? — perguntou, apoiando-se no batente da porta.
Patrícia desviou o olhar da TV, surpresa pela interrupção.
— Sim, mãe. Tudo certo. Só estou... cansada.
Helena franziu o cenho, caminhando até o sofá e sentando-se ao lado da filha.
— Cansada? Você normalmente estaria na academia a essa hora ou visitando alguma amiga. Cansada não parece ser a palavra certa. O que aconteceu no trabalho?
Patrícia hesitou por um momento. Não gostava de discutir casos com ninguém, mas também sabia que sua mãe tinha uma intuição afiada.
— Nada demais, mãe. Foi só um dia mais... intenso.
Helena a olhou fixamente, o tipo de olhar que Patrícia conhecia bem. Era o mesmo olhar que havia guiado tantas sessões de terapia conduzidas pela mãe. Sabia que não havia como escapar.
— Patrícia, você está triste? Ou pensativa? O que foi que te deixou assim? Algo mexeu com você, claramente.
Patrícia suspirou, cruzando as pernas no sofá e abraçando um travesseiro.
— É uma paciente. Ela escreveu uma carta. Não posso entrar em detalhes, mas... algo na carta me fez pensar. Ela falou sobre não saber o que é sonhar, mãe. Você consegue imaginar isso? Não ter sonhos?
Helena ficou em silêncio por um momento, processando as palavras da filha. Finalmente, respondeu:
— Para algumas pessoas, sonhar não é uma opção. É um privilégio que elas acreditam que não podem ter. A vida, para elas, é sobre sobrevivência, sobre lidar com o hoje, porque o amanhã é incerto demais.
Patrícia assentiu lentamente, mas ainda parecia confusa.
— Eu entendo isso... racionalmente. Mas, para mim, é tão estranho. Sempre tive sonhos. Você e o pai me ensinaram a sonhar. Sempre houve esse incentivo, esse suporte. Então, como alguém pode viver sem sequer saber o que é sonhar?
Helena sorriu levemente, colocando uma mão sobre a de Patrícia.
— Porque talvez ela não teve o que você teve. É a paciente Misteriosa que você fala sempre, certo? — Helena não esperou confirmação. — E se ela não teve pais como nós, que a ensinaram a sonhar. E se ela não teve uma base segura. Se for assim para ela, os sonhos são luxos que a realidade não permite.
Patrícia sentiu um aperto no peito ao ouvir aquelas palavras. Era isso. Josiane não sabia sonhar porque nunca teve a chance de fazê-lo. Sua vida sempre fora prática, como dissera na carta. Sobreviver era sua prioridade, e sonhar era um conceito distante, algo que nem sequer fazia sentido.
— Eu me sinto... estranha com isso. — confessou Patrícia, a voz baixa. — Como se tudo o que eu faço, tudo o que eu tento, não fosse suficiente para ajudá-la.
Helena apertou a mão da filha com um sorriso compreensivo.
— Patrícia, você não pode mudar o passado dela. Mas pode ajudá-la a entender que o futuro não precisa ser igual ao que ela já viveu. E, quem sabe, ensinar a ela o que é sonhar, mesmo que isso leve tempo.
Patrícia ficou em silêncio, processando as palavras da mãe. Havia algo reconfortante naquilo, mas também uma enorme responsabilidade. Talvez fosse isso o que a deixava tão inquieta: o medo de falhar, de não conseguir mostrar a Josiane que o futuro podia ser diferente.
— Obrigada, mãe. — disse finalmente, com um leve sorriso.
Helena retribuiu o sorriso, levantando-se do sofá.
— Apenas se lembre, querida. Os maiores desafios podem ser vencidos apenas com paciência e perseverança. Agora, termine sua série e descanse. Você vai precisar de energia para amanhã.
Patrícia observou a mãe sair da sala e voltou seu olhar para a TV, mas sabia que não conseguiria se concentrar. A carta de Josiane continuava rondando sua mente, e, no fundo, ela sabia que aquela noite seria longa.
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Atualizado até capítulo 89
Comments
Vandreia Oliveira
ensina ela sonha doutora
2024-12-31
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