Décima Primeira Sessão
A tensão entre Patrícia e Josiane parecia palpável naquela manhã. A sala, antes silenciosa, carregava um peso diferente, um jogo sutil de emoções que ambas pareciam não conseguir controlar.
Patrícia olhava pela janela, tentando se distanciar emocionalmente da situação, mas sua mente rodava em círculos.
"Eu mudei meu método, fiz tudo o que podia. Por que ela insiste em me afastar? Não sei mais o que fazer."
Ela suspirou quase imperceptivelmente, frustrada, enquanto Josiane permanecia sentada, inquieta, sem coragem de iniciar qualquer diálogo.
Josiane sentia um aperto no peito. Não era sua intenção magoar Patrícia, mas, de alguma forma, ela sabia que a terapeuta estava incomodada.
A ideia de ter imaginado aquele beijo dias atrás a deixava nervosa, com medo de suas próprias emoções. Porém, o silêncio de Patrícia era pior. Era como se as palavras não ditas tivessem um peso ainda maior.
Finalmente, Josiane quebrou o silêncio.
— Você deve achar que eu não quero falar com você... — disse ela, hesitante, sem coragem de olhar diretamente para Patrícia. Depois de uma pausa, continuou, envergonhada: — Tudo que menos quero é falar do passado.
Patrícia virou-se devagar, ainda apática, tentando controlar as emoções. Queria incentivá-la a continuar, mas não queria parecer pressionar. Seu olhar fixo dizia:
"Continue, estou ouvindo."
Josiane respirou fundo, como quem mergulha em águas perigosas.
— Me pergunto por que tenho que trazer meu passado à tona? Isso muda o fato de que minha mãe me colocou em um abrigo e, meses depois, morreu de pneumonia? Falar traz ela de volta? — Sua voz estava trêmula, mas carregada de amargura. — Ou o fato de que, quando completei 18 anos, o abrigo não podia mais me manter devido à idade, e eu dormi escondida por meses dentro de um hospital público? — Ela riu nervosamente. — Eles fechavam o hospital, e eu me escondia no banheiro. Eu tinha medo... medo de dormir na rua.
Patrícia sentiu o impacto das palavras de Josiane como um soco. Queria se levantar e anotar tudo, mas algo a deteve. "Não agora. Não posso assustá-la." Ela permaneceu imóvel, ouvindo cada palavra com o coração apertado.
Josiane continuou, a voz agora mais frágil.
— Uma assistente social me encontrou e conseguiu esse abrigo, onde não teria idade para morar. Mas me fez prometer que cumpriria todas as regras, porque a fila era enorme. — Sua expressão misturava medo e gratidão. — Ela dizia que eu precisava fazer valer a pena a oportunidade.
O silêncio tomou conta novamente. Patrícia podia sentir a densidade das memórias pairando na sala.
Josiane mexeu-se desconfortavelmente antes de soltar o que parecia realmente incomodá-la. Ela se levantou, indo até a janela, e olhou fixamente para o lado de fora.
— Tem um guarda onde eu moro... Ele vive jogando indiretas para mim. Certa vez, eu o peguei me observando de um jeito diferente. — Ela parou, tentando encontrar as palavras certas. — Ele encosta as mãos nos meus ombros, sabe? Não é de uma maneira legal. — Ela suspirou. — Eu tenho vontade de socar a cara dele, mas... tenho medo do que pode acontecer comigo, ele trabalha lá, pode me prejudicar, mas não sei até quando vou tolerar ele.
Patrícia endireitou-se, e aquilo chamou sua atenção de imediato.
— Como assim ele toca em você? Pode me explicar melhor? — A terapeuta tentava manter a calma, mas a preocupação era evidente.
Josiane deu de ombros, tentando minimizar o impacto.
— Não é nada demais, tá? Fica tranquila. Já passei por coisas piores com outros caras. Esse guarda... Eu acho que ele pensa em fazer algo, mas lhe falta coragem.
Patrícia levantou-se abruptamente, os olhos carregados de irritação.
— Não importa se ele não ultrapassou a barreira. Ele não pode usar sua situação vulnerável para... — As palavras travaram em sua garganta.
— Patrícia, não é o que você está pensando! — disse Josiane rapidamente, percebendo a tensão. — Não fique assim. Não transforme isso num problema, por favor. — Era a primeira vez que Josiane usava o nome de Patrícia durante uma sessão.
Patrícia respirou fundo, mas não conseguiu esconder o quanto estava abalada. Josiane percebeu e, por um momento, sentiu a necessidade de confortá-la. Ela se aproximou devagar, hesitante, mas com um gesto tímido.
— É por isso que você não gostou de eu ter te tocado naquele dia? — A voz de Patrícia soou mais baixa do que ela pretendia. — Quando coloquei minhas mãos sobre as suas?
Josiane balançou a cabeça rapidamente.
— Patrícia, não... Não tem nada a ver. — Sua voz saiu rouca, e ela desviou o olhar.
Patrícia, ainda tentando controlar o que sentia, disse:
— Peço desculpas por ter te tocado naquele dia. Não queria invadir seu espaço. — Sua vergonha transparecia em cada palavra, mas ela tentava manter a postura.
Josiane aproximou-se mais, seus corpos agora quase se tocando. Por um instante, tudo pareceu suspenso. O silêncio era mais alto que qualquer palavra.
Josiane, com um gesto suave, afastou os cabelos de Patrícia para trás.
— Me desculpa se fiz parecer isso, que não queria ser tocado por você. — A voz de Josiane era quase um sussurro.
Josiane inclinou-se levemente para frente, os lábios das duas agora tão próximos que podiam sentir a respiração uma da outra.
O tempo parecia congelar, e as emoções que ambas tentavam reprimir transbordavam naquele breve momento. Patrícia sentiu seu coração disparar, enquanto seus olhos mergulhavam nos de Josiane. Era como se uma barreira estivesse prestes a ser rompida.
Mas então, com delicadeza, Josiane afastou-se um pouco. Segurou as mãos de Patrícia com cuidado, acariciando os dedos dela em um gesto que era tão íntimo quanto as palavras que vieram a seguir.
— Eu quero sua ajuda. Você pode me ajudar?
As palavras atingiram Patrícia como um bálsamo. Por mais baixas que fossem, carregavam um peso de sinceridade que aqueceu seu coração. Ela respirou fundo, sentindo uma pontinha de esperança.
“Eu posso ajudá-la. Ela quer ser ajudada.”
Depois que Josiane saiu, Patrícia recostou-se na cadeira, respirando fundo. A sensação de vitória pela sessão bem-sucedida estava ali, mas, ao mesmo tempo, algo mais insistia em ocupar seus pensamentos.
"Eu consegui. Ela finalmente se abriu e pediu minha ajuda. Isso é o mais importante," pensou, tentando se concentrar no progresso.
Mas, mesmo assim, não conseguia ignorar o que havia acontecido momentos antes. A proximidade. O olhar fixo. A respiração compartilhada em um espaço tão pequeno.
"Não posso negar..." admitiu para si mesma, fechando os olhos. "Parecia que... parecia que íamos nos beijar."
A ideia a fez sentir um calor estranho no rosto, uma mistura de vergonha.
Imediatamente, tentou afastar aquele pensamento.
"Não, não. Não era isso. Apenas estávamos muito próximas. Isso é natural em um momento intenso, nada além disso."
Por mais que tentasse racionalizar, a sensação persistia, insistindo em desafiar sua lógica. Patrícia balançou a cabeça, tentando focar no trabalho, mas sabia que essa batalha interna estava apenas começando.
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Atualizado até capítulo 89
Comments
Vandreia Oliveira
nossa foi tenso demais
2024-12-31
0
Ana Faneco
amando cada capítulo 😍❤️
2024-12-07
0
Maria Fabiana
que história boa é viciante. Parabéns autora
2024-11-29
4