Décima sessão
A manhã começou como qualquer outra segunda-feira para Patrícia, mas, ao mesmo tempo, parecia diferente. O ritual de se preparar para o trabalho seguia normalmente, banho, café apressado, roupa escolhida no armário com praticidade. Ainda assim, ela sentia uma inquietação constante, algo que não sabia bem como definir.
Enquanto ajustava o blazer em frente ao espelho, seus pensamentos voltaram inevitavelmente à última sessão com Josiane, na segunda-feira. A carta que lera, o impacto de suas palavras, a discussão anterior… tudo parecia se misturar em sua mente. Patrícia se pegou respirando fundo, tentando organizar suas emoções. "É só pela carta," ela repetiu para si mesma. "É natural me sentir assim. Foi uma revelação importante, algo que mexeria com qualquer terapeuta."
Mas, no fundo, algo mais estava crescendo. Um sentimento que ela não conseguia nomear, algo além da empatia profissional.
No caminho para o trabalho, a inquietação não diminuía. Patrícia manteve os olhos na estrada, mas sua mente vagava pelas interações com Josiane. Lembrou-se da conversa com sua mãe na semana anterior. As palavras de Helena ainda ecoavam:
"Algumas pessoas não sabem sonhar porque nunca tiveram a oportunidade."
Aquilo era verdade, mas parecia incompleto. Josiane não era apenas alguém sem sonhos, ela era um enigma. Patrícia sentia que havia muito mais por trás daquela fachada prática e defensiva, algo que ela precisava entender, mas não conseguia acessar completamente.
Chegando ao consultório, Patrícia estacionou o carro e desceu, ajustando a bolsa no ombro. O prédio já estava movimentado, e ela cumprimentou alguns colegas pelo corredor antes de entrar na sua sala.
A agenda do dia estava cheia, mas, como sempre, ela sabia que o ponto alto seria a sessão com Josiane. Uma mistura de ansiedade e expectativa tomou conta dela enquanto organizava os papéis e preparava o espaço. Ela acreditava que sua ansiedade era apenas pela oportunidade de discutir a carta e abrir novas portas no caso. Mas, no fundo, havia algo mais.
Havia dois erros sutis no ambiente profissional ao redor dela que contribuíam para o que estava acontecendo. Primeiro, Caroline, sua supervisora, estava tão focada nas metas e no contrato com a prefeitura que não enxergava o impacto emocional que o caso estava tendo em Patrícia. Sua visão objetiva e prática a impedia de perceber o vínculo que começava a se formar.
E então havia Helena, a mãe de Patrícia. Uma terapeuta brilhante e uma figura maternal amorosa, mas tão dedicada à profissão que jamais suspeitaria que sua filha pudesse estar cruzando uma linha emocional com uma paciente. Helena via as reflexões de Patrícia como parte do processo natural de lidar com casos desafiadores, sem imaginar que algo mais profundo estava se desenvolvendo.
Mas nem Caroline, nem Helena, podiam ser culpadas por isso. Nem mesmo Patrícia estava totalmente consciente do que sentia. Para ela, o impacto de Josiane ainda parecia ser apenas o peso de um caso complicado.
A porta do consultório se fechou com um clique suave, abafando os sons do corredor. Josiane entrou devagar, como fazia sempre, mas antes que pudesse se sentar no pequeno sofá onde costumava ficar, Patrícia a interrompeu.
— Josiane, não se sente ainda.
Josiane parou, franzindo o cenho em confusão.
— O quê?
Patrícia deu um passo à frente, apontando para a janela lateral, que sempre ficava visível do lugar onde Josiane sentava.
— Aquela janela ali... — começou ela, com um leve sorriso no canto da boca. — Sabe o que ela me lembra? Criptonita.
Josiane piscou, ainda mais confusa.
— Criptonita?
— Sim. Sabe, aquela coisa verde que deixa o Superman fraco.
— Eu sei o que é criptonita. — respondeu Josiane, cruzando os braços com um ar de quem estava começando a ficar impaciente. — Mas o que isso tem a ver?
Patrícia caminhou até a janela, segurando as cortinas com as mãos, mas sem fechá-las ainda.
— Acho que essa janela é a sua criptonita, Josiane. Toda vez que você olha para ela, parece que enfraquece, que desiste de tentar algo novo. Ela é o seu ponto de fuga, mas também o que te prende.
Josiane permaneceu em silêncio por um momento, olhando fixamente para Patrícia, como se estivesse avaliando aquelas palavras.
— Você acha mesmo?
— Eu tenho certeza. — respondeu Patrícia com um tom tranquilo, mas assertivo. — Então, só por hoje, vou mudar as coisas.
Ela puxou as cortinas, cobrindo completamente a janela, e voltou sua atenção para o sofá de Josiane. Patrícia o arrastou com esforço, ele era pesado e grande posicionando-o de maneira que ficasse de costas para a janela. Depois, pegou sua própria poltrona, que era mais leve, e a colocou em frente ao sofá, diminuindo a distância entre elas.
— Pronto. Vamos mudar a dinâmica.
Josiane observou tudo sem dizer nada, mas seus olhos estavam mais atentos agora, como se tentasse entender o que estava acontecendo, logo se sentou
Patrícia se sentou na poltrona, cruzou as pernas e olhou diretamente para Josiane.
— Você quebrou duas vezes o protocolo de como eu trabalho — começou Patrícia, sua voz calma, mas firme. — Primeiro, quando pediu que eu não anotasse nada durante as sessões. E, segundo, quando deixou aquela carta no meu caderno.
Josiane desviou o olhar, um misto de desconforto e vergonha.
— Sobre isso... — começou ela, mas Patrícia a interrompeu com um gesto gentil.
— Eu aprecio a confiança que você teve em mim ao escrever a carta. Foi um grande passo, e eu fico grata por isso. Mas confesso que fiquei desconcertada com a forma como você fez.
Josiane levantou uma sobrancelha, como se estivesse desafiando Patrícia a continuar.
— Desconcertada?
— Sim. Além de entrar na minha sala quando eu não estava, o que considero uma violação de privacidade, você também me deixou em dúvida sobre o que fazer. A carta estava entre as minhas coisas. Então, tecnicamente, era algo que eu deveria ler. E então eu acabei lendo, mas fiquei preocupada, se era isso que você queria.
Josiane respirou fundo, desviando os olhos novamente.
— Eu coloquei lá enquanto você saiu para beber água. Foi a única chance que eu tive.
Patrícia inclinou levemente a cabeça, seus olhos fixos nos de Josiane.
— Eu entendo os motivos. Mas, mesmo assim, não é a maneira certa de fazer as coisas.
Josiane apertou os lábios, claramente desconfortável.
— Então, por que você leu? — perguntou, com um tom que misturava desafio e curiosidade.
Patrícia esboçou um leve sorriso.
— Porque você queria que eu lesse, e eu precisava respeitar isso. Embora tive dúvidas.
Josiane ficou em silêncio por um momento, o olhar fixo no chão. Patrícia aproveitou a pausa para se inclinar um pouco mais para frente, suas mãos descansando no colo.
— Agora, Josiane, me diga: quem é você de verdade?
Josiane levantou os olhos lentamente, mas sua expressão era um misto de desconforto e vulnerabilidade.
— Eu não sei.
Patrícia assentiu, seu tom mais suave agora.
— Então, vamos descobrir juntas?
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Atualizado até capítulo 89
Comments
Vandreia Oliveira
tem amor entre elas agora não tem outro jeito rsrs
2024-12-31
0
liliane souza
Estou amando muito essa história /Kiss/
2025-02-12
0
Anônimo Forçado
Quando o sentimento começa a falar mais alto que a razão❣️
2025-02-07
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