⚠️ Este capítulo aborda temas delicados.
Décima segunda sessão
Patrícia abriu a porta para Josiane, exibindo um sorriso que, embora profissional, carregava algo mais. Quando Josiane retribuiu com um sorriso leve, Patrícia sentiu o coração acelerar por um breve instante. Era raro ver Josiane tão aberta, ainda que de forma contida.
— Como foi o seu final de semana? — perguntou Patrícia, mantendo a suavidade no tom.
Josiane hesitou. Seus olhos buscaram um ponto indefinido no chão antes de responder, quase como se tentasse medir o impacto de suas palavras.
— Eu não sei se respondo de forma trivial, como todo mundo faz, ou se conto tudo detalhadamente. — A voz dela saiu com um toque de vergonha.
Patrícia inclinou a cabeça, tentando incentivá-la a continuar.
— Eu não quero que você se sinta pressionada... Se preferir falar de outra coisa, está tudo bem.
Josiane cortou Patrícia com um gesto de mão.
— Os finais de semana são sempre o mesmo ritual chato — A franqueza dela fez Patrícia arquear levemente as sobrancelhas. — Eu divido o quarto com uma colega lá no abrigo. Só pode morar lá mulher, mas às vezes alguém da família, tipo um homem, aparece para visitar...entende? Ela dizia ter um “irmão” que vivia puxando conversa comigo. Ele estava em um abrigo para homens. Achei que ele estava interessado em mim... até saímos uma vez para... — A frase ficou no ar, e Josiane desviou o olhar, encerrando o assunto abruptamente. — Enfim, está cada dia mais difícil ficar lá...é isso que aconteceu essa semana.
Patrícia tentou esconder a inquietação que crescia dentro de si. A ideia de Josiane saindo com alguém, e o fato de não saber mais detalhes, a incomodava mais do que deveria. Mas ela se convenceu de que era apenas "preocupação profissional".
— Quero saber mais sobre isso. — Patrícia tentou soar calma.
Josiane deu de ombros, com um sorriso irônico, sem dizer nada.
— Por que você faz isso? — Patrícia continuou, quase em súplica. — Começa a contar algo e para no meio...
Josiane suspirou, parecendo resignada.
— Porque não é importante. — Ela disse simplesmente.
Patrícia se inclinou um pouco para frente, sua voz adquirindo um tom mais firme.
— Josiane, deixe que eu decida o que é ou não importante.
Josiane ficou em silêncio por alguns segundos antes de perguntar, hesitante:
— Você está brava comigo?
Patrícia percebeu que estava demonstrando mais do que deveria. Fechou os olhos por um instante, respirou fundo e recuou.
— Não estou brava. — Disse com um tom mais calmo, mas ainda firme. — O que quero é entender o que está acontecendo com você, por isso é importante saber o que está te incomodando.
Josiane soltou outro suspiro, como se carregasse o peso do mundo. Ela sabia que deveria parar de se esquivar.
— Tá bom... Essa menina... Ela mentiu. Ele não é irmão dela. Ela inventou isso para que ele pudesse visitá-la no abrigo. Agora ele vive no quarto dela. Eles fazem... sabe... coisas. Na beliche de baixo, enquanto estou dormindo. — Josiane gesticulou vagamente, a frustração evidente em sua voz. — E isso me irrita.
Patrícia, perguntou:
— Você se sente desrespeitada por essa situação?
Josiane balançou a cabeça, mas hesitou antes de responder.
— Não é isso... É porque eu me imagino no lugar dela. Penso em como seria... ele fazendo o que faz com ela... mas comigo. — Sua voz ganhou um tom malicioso, algo que a surpreendeu tanto quanto a Patrícia.
Patrícia sentiu o impacto daquelas palavras. Algo dentro dela despertou uma mistura de preocupação e inquietação.
— Viu? Agora você deve achar que eu sou uma maluca pervertida. — Josiane tentou se proteger com uma risada nervosa, mas sua vulnerabilidade era evidente.
— Não, Josiane. Não acho nada disso. — Patrícia respondeu, tentando acalmar tanto a si mesma quanto Josiane.
Josiane baixou os olhos, mas continuou falando, hesitante.
— Quer saber? Antes de saber que eles mentiam... Antes de saber que não eram irmãos... Eu cheguei a chupar ele...Ele contou para ela, e ela está agora, fazendo da minha vida um inferno lá no abrigo.
Patrícia manteve o olhar fixo em Josiane, sentindo o peso daquelas palavras. Ela sabia que precisava prosseguir com cautela, mas a revelação de Josiane já estava ecoando em sua mente, e ela precisava de respostas.
— Porque você fez isso... com ele? — Patrícia finalmente quebrou o silêncio, tentando manter a voz estável.
Josiane desviou o olhar por um momento antes de responder, quase como se estivesse ponderando o que dizer.
— Porque eu gosto. — Ela disse de forma direta, mas havia algo em seu tom, como se fosse algo perturbador.
Patrícia arqueou as sobrancelhas, surpresa com a resposta.
— Ele te forçou? — perguntou, sua voz carregada de preocupação.
Josiane negou com um leve balançar de cabeça.
— Não. Ele queria fazer sexo comigo, mas... eu não queria. — Josiane hesitou antes de continuar, como se estivesse organizando os pensamentos. — Então, fiz isso. Eu o chupei.
— Mas você... — Patrícia parou por um momento, escolhendo as palavras com cuidado. — Mas você, fez isso com ele? porque?
Josiane deu de ombros, quase casualmente.
— Porque eu queria e gosto. — Ela disse, com um leve sorriso que parecia malicioso. — Além do mais, assim sinto que estou no controle, mesmo que eles sempre pensem que são eles que estão.
Patrícia sentiu um calafrio percorrer seu corpo "Eles?".
A aparente naturalidade com que Josiane falava escondia uma dor e uma lógica distorcida que a terapeuta sabia que precisava abordar.
— Josiane, você sente que ao... fazer isso, está evitando algo pior? — Patrícia perguntou, sua voz agora mais suave, quase sussurrada.
Josiane riu, mas o som foi vazio.
— Patrícia, Eu gosto de fazer isso, sinto prazer — Ela suspirou profundamente. — É como se fosse uma troca. Eles acham que ganharam, mas eu... fico no controle. Pelo menos é o que parece na hora.
Patrícia sentiu um nó na garganta, mas não deixou que suas emoções transparecessem. Ela sabia que aquele era um momento crucial e que precisava guiar a conversa com delicadeza.
— E como você se sente depois? — perguntou Patrícia, inclinando-se levemente para frente, tentando mostrar empatia sem invadir o espaço de Josiane.
Josiane olhou para baixo, mexendo nervosamente nas mãos.
— Como sempre... sozinha, às vezes satisfeita . E talvez um pouco enojada. Mas não sei. É complicado.
— Quando você percebeu esses gostos? — perguntou Patrícia, mantendo a voz calma, mas sentindo um leve nó na garganta.
Josiane abaixou o olhar, mexendo nervosamente nos dedos.
— Não me lembro exatamente... — começou, a voz hesitante. — Mas... A tia do abrigo... ela pedia para eu fazer isso. — Ela fez uma pausa, como se estivesse lutando para continuar. — Para pagar o aluguel da casa dela, quando eu tinha uns 13 para 14 anos. depois que minha mãe me colou no abrigo.
Patrícia sentiu o coração congelar, uma onda de choque percorrendo seu corpo. Tentou manter a expressão neutra, mas seus olhos traíam a mistura de horror e tristeza que sentia.
— Josiane... — disse ela suavemente, inclinando-se ligeiramente para frente. — Você quer dizer que havia... pessoas que pagavam para essa Tia do abrigo?
Josiane assentiu lentamente, os olhos fixos no chão, como se não conseguisse enfrentar o olhar de Patrícia.
— Sim. — Sua voz era quase um sussurro. — O dono do imóvel, de casa dela, o pessoal descobriu, e a mandou embora.
A sala ficou em silêncio por alguns instantes, o peso das palavras de Josiane pairando como uma sombra densa. Patrícia sentiu um aperto no peito, lutando para encontrar as palavras certas para responder.
— Eu sinto muito que você tenha passado por isso — disse ela, finalmente, com sinceridade. — Isso não deveria ter acontecido com você.
Josiane deu de ombros, como se quisesse minimizar o que havia acabado de dizer, mas Patrícia sabia que aquilo era uma ferida profunda, e que aprendeu a normalizá-la como defesa inconsciente.
Ela respirou fundo, tentando se recompor, determinada a ajudar Josiane a lidar com aquele peso de forma segura e acolhedora.
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Atualizado até capítulo 89
Comments
Ana Maria Gomes de Araújo
que triste ☹️
2025-02-26
0
Hosana Marjori Patente
nossa tadinha
2025-01-01
0
Erca Tovela
eitaaa k triste
2024-12-11
1