Quarta Sessão
Patrícia fechou a porta devagar. Seu olhar seguiu Josiane, que se dirigiu ao sofá com a mesma lentidão habitual. Cada passo parecia um protesto velado, uma recusa passiva em cooperar, mas, ao mesmo tempo, um cumprimento involuntário das regras.
Patrícia sentou-se, ajeitando na cadeira como quem prepara uma armadura. Sentia o desconforto latente subir por sua espinha. Era a quarta sessão, e, até agora, não tinha conseguido romper o muro que Josiane erguera entre elas.
E pior, ela começava a sentir que aquele muro não era só de Josiane; ela própria estava ajudando a construí-lo, tijolo por tijolo, com a irritação que crescia a cada encontro delas.
— Bom dia, Josiane. – O tom de Patrícia era profissional, mas frio. Não havia mais espaço para sorrisos ensaiados ou gestos acolhedores. Josiane nem sequer respondeu. Apenas inclinou levemente a cabeça, como se o cumprimento fosse uma formalidade desnecessária.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável. Patrícia olhou para o caderno de anotações em seu colo, mas não se deu ao trabalho de fingir que escrevia algo. Ela sabia que a paciente não diria nada de imediato.
Por trás da aparente calma de Josiane, havia uma batalha constante. Ela odiava estar ali, mas não tinha escolha. Regras eram regras, e ela aprendera desde cedo que questioná-las só trazia mais problemas. Obedecer era mais fácil, mesmo que cada fibra do seu ser resistisse à ideia. Mas, ao mesmo tempo, que obedecer era necessário para ela, havia uma raiva crescendo dentro si, uma vontade de se rebelar contra a terapeuta que, aos seus olhos, era apenas mais uma peça do sistema.
— Você quer começar hoje? – Patrícia perguntou, finalmente quebrando o silêncio. Sua voz era neutra.
Josiane deu de ombros, um gesto quase imperceptível. Não levantou os olhos, nem mudou sua postura.
Patrícia respirou fundo. Aquilo era uma provocação, mesmo que inconsciente. Ela sabia que Josiane não fazia aquilo de propósito, mas não conseguia deixar de sentir que era pessoal. Diferente dos outros pacientes, que se retraíam por medo ou vergonha, Josiane parecia deliberadamente inacessível, como se estivesse cumprindo uma tarefa e nada mais.
— Você sabe que isso não funciona se você não falar. – As palavras saíram antes que Patrícia pudesse filtrá-las. Era uma quebra na postura que ela sempre adotou.
Josiane não respondeu.
O silêncio voltou, mais pesado do que antes. Patrícia tamborilou os dedos no caderno, um gesto que nunca fazia, mas que agora parecia inevitável. Estava perdendo o controle da sessão, e aquilo a deixava furiosa.
Josiane, por sua vez, sentia o desconforto aumentar. Não porque se importasse com Patrícia, mas porque aquela pressão silenciosa a fazia se sentir ainda mais prisioneira. Tudo nela gritava para sair correndo dali, mas ela permaneceu imóvel, com seu rosto, firme como uma máscara de indiferença.
— Josiane, eu só preciso de um ponto de partida. Qualquer coisa. Algo simples. Não precisa ser importante, mas precisa ser seu. – Patrícia inclinou-se ligeiramente para frente, a voz mais baixa.
Josiane olhou de relance para Patrícia, mas logo desviou os olhos para a janela, fixando o olhar em algum ponto indefinido. Por um momento, pareceu que iria responder, mas o silêncio prevaleceu.
Patrícia sentiu o desânimo crescer, recuou para trás na cadeira, cruzando os braços sobre o peito em um gesto quase defensivo. Pela primeira vez em muito tempo, permitiu que o silêncio se estendesse. Se Josiane queria um jogo de resistência, ela estava disposta a jogá-lo.
E assim permaneceram, por minutos que pareciam horas. Patrícia, tentando esconder a irritação crescente, e Josiane, lutando para manter a fachada de indiferença.
Por trás da máscara de Josiane, no entanto, havia um turbilhão, de emoções. Ela odiava Patrícia naquele momento. Não por quem ela era, mas pelo que representava, mais uma figura de autoridade, mais uma regra a ser seguida. Desde que sua mãe a deixou em um abrigo, Josiane aprendera a não confiar em ninguém. Cada rosto novo significava apenas mais uma pessoa que eventualmente desapareceria. A terapeuta não seria diferente.
Patrícia, por sua vez, sentia-se à beira de um colapso. Ela sabia que estava sendo testada, mas não entendia por quê. Tentava acessar Josiane de todas as formas, mas nada parecia funcionar.
O relógio na parede marcava os minutos finais da sessão. Patrícia olhou para ele, depois para Josiane.
— Acho que por hoje é suficiente. – Sua voz estava mais dura do que pretendia.
Josiane levantou-se sem pressa, ajeitando a blusa antes de pegar a mochila. Olhou para Patrícia por um breve instante, mas não disse nada. Saiu da sala como havia entrado, silenciosa, indiferente, mas carregando um peso que Patrícia não conseguia alcançar.
Quando a porta se fechou, Patrícia encostou-se na cadeira, exalando um suspiro longo e pesado. A cada sessão, sentia que não estava apenas lidando com Josiane, mas também consigo mesma.
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Atualizado até capítulo 89
Comments
Vandreia Oliveira
não pode desistir dela
2024-12-27
0
Nym-02
Força Patrícia.
2024-11-28
2