Continuação da nova sessão
Patrícia respirou fundo, sentindo o peso da tensão entre ela e Josiane. As palavras de Josiane ainda ecoavam em sua mente. Não era fácil ouvir aquilo, mas ela sabia que precisava encontrar um ponto de conexão. Algo além das anotações, além dos diálogos quebrados e cheios de defesas.
Ela olhou para Josiane, ainda no sofá, cruzando os braços e desviando o olhar para a janela. Patrícia percebeu que insistir no mesmo formato de sempre seria inútil. Talvez, naquele momento, precisasse abaixar a guarda.
— Tudo bem, Josiane. Só por hoje, eu não vou anotar nada.
Josiane virou-se para ela, claramente surpresa.
— Sério?
— Sério. — Patrícia respondeu com firmeza, mas com um tom calmo. Levantou-se da poltrona, pegou o caderno que estava em seu colo, e caminhou até a mesa no canto da sala, onde normalmente deixava itens de apoio. Colocou o caderno lá, de forma cuidadosa, como se estivesse deixando para trás algo importante.
Josiane a observava, desconfiada, mas também curiosa.
Patrícia voltou para a poltrona e sentou-se, olhando diretamente para Josiane, o olhar mais aberto do que de costume.
— Mas, se eu estou deixando de lado algo que é essencial para mim, eu quero que você faça algo também.
Josiane estreitou os olhos, intrigada.
— O quê?
Patrícia fez uma pausa breve, calculando bem as palavras antes de continuar.
— Quero que você escreva uma carta para você mesma no futuro.
Josiane imediatamente franziu a testa, o desconforto evidente em sua expressão.
— Uma carta? Para quê?
Patrícia manteve o olhar firme, mas seu tom era acolhedor.
— Para que você possa se ouvir. Para colocar em palavras o que você sente, o que você quer ou até mesmo o que você não quer. Não precisa ser algo profundo ou perfeito. E, se você estiver preocupada que eu guarde essa carta ou a leia, não se preocupe. Você pode ficar com ela ou até amassá-la depois, se preferir.
Josiane desviou o olhar novamente, pensativa. Por um momento, Patrícia achou que ela recusaria. Mas então, Josiane respirou fundo e, relutantemente, assentiu.
— Tudo bem.
Patrícia sentiu um pequeno alívio, mas sabia que não podia demonstrar. Levantou-se novamente, foi até a mesa, pegou uma folha em branco e uma caneta, e entregou para Josiane.
— Aqui está.
Josiane pegou a folha, encarando-a como se fosse um desafio monumental. Patrícia voltou para a poltrona, mantendo-se em silêncio, observando-a com cuidado.
Por alguns minutos, a sala ficou envolta em um silêncio absoluto. Josiane segurava a caneta, hesitando, enquanto Patrícia permanecia atenta, sem pressionar.
Finalmente, Josiane começou a escrever. Seus movimentos eram lentos no início, mas logo se tornaram mais fluidos. Patrícia observava, não só a escrita, mas as expressões que passavam pelo rosto de Josiane — um franzir leve de testa, um quase sorriso que desaparecia rapidamente, um olhar distante que parecia mergulhar em pensamentos profundos.
Para Patrícia, aquele momento era mais do que uma simples tarefa. Era uma chance de ver Josiane se conectar consigo mesma, mesmo que de forma breve e talvez inconsciente.
Ela não sabia o que estava sendo escrito, e nem precisava saber. O importante era que Josiane estava fazendo algo por si mesma, algo que poderia ser o início de uma nova etapa no processo delas.
Patrícia respirou fundo novamente, mantendo-se firme em seu papel de observadora.
A sessão havia chegado ao fim. Josiane levantou-se do sofá com o rosto neutro, mas Patrícia conseguia perceber um leve peso em seu andar, como se algo ainda estivesse preso dentro dela. Patrícia se despediu de forma profissional, mantendo o tom tranquilo que sempre tentava passar, apesar do turbilhão de emoções que essas sessões frequentemente provocavam.
— Até a próxima, Josiane.
Josiane respondeu com um breve aceno e deixou a sala. Quando a porta se fechou, Patrícia soltou um suspiro longo, sentindo a tensão escapar de seus ombros.
"Que dia," pensou. Havia uma mistura de sentimentos dentro dela — cansaço, frustração, mas também uma satisfação sutil. Apesar das dificuldades, a sessão não havia sido um retrocesso completo. Havia algo ali, uma pequena abertura, mesmo que Josiane tivesse resistido à ideia de se entregar completamente.
Patrícia ajeitou a mesa, organizando as folhas e guardando a caneta. Enquanto isso, Josiane, do lado de fora da sala, segurava sua bolsa com firmeza, mas não parecia apressada para ir embora. Seus olhos vagaram para a porta que Patrícia deixara entreaberta por descuido. "Agora ou nunca," pensou.
Com passos rápidos e silenciosos, Josiane voltou à sala, colocando apenas metade do corpo para dentro. Patrícia havia saído rapidamente para buscar água, então o espaço estava vazio. Josiane olhou ao redor, sua respiração um pouco acelerada. Em sua mão, a carta que escrevera durante a sessão.
Ela não queria levá-la consigo, mas também não queria jogá-la fora. "Se eu deixar aqui, talvez ela leia," pensou, tentando justificar o impulso. Mas como fazer isso sem ser óbvia?
Ela se aproximou da mesa onde o caderno de anotações de Patrícia estava. Abrindo-o com cuidado, procurou a última página usada. Não leu nada, não por falta de curiosidade, mas porque sabia que não tinha tempo. Dobrou a carta e colocou-a cuidadosamente entre as páginas, pressionando levemente para que ficasse bem guardada.
Com o coração acelerado, saiu da sala tão rápido quanto entrou, certificando-se de que ninguém a visse. Do lado de fora, respirou fundo e ajustou a bolsa no ombro. "Agora está feito."
Quando Patrícia voltou à sala, sentiu um estranho alívio por poder aproveitar o intervalo entre pacientes. O próximo havia desmarcado em cima da hora, o que, para ela, era uma oportunidade rara de tomar um café com calma e colocar as anotações em dia.
Sentando-se na poltrona, ela pegou o caderno que havia deixado sobre a mesa e suspirou ao lembrar que precisaria escrever o relatório da sessão com Josiane.
— "Sempre um desafio," — murmurou para si mesma.
Começou a abrir o caderno, ajustando a caneta na mão. Mas, ao folhear até a última página usada, algo diferente chamou sua atenção. Um pedaço de papel dobrado estava preso entre as folhas.
Patrícia parou por um momento, franzindo o cenho.
— O que é isso? — perguntou em voz baixa.
Pegou o papel com cuidado, desfazendo a dobra. Reconheceu imediatamente a carta de Josiane. Sua mente começou a correr com perguntas. "Ela deixou isso de propósito? Queria que eu lesse? Ou foi um erro?"
Por um instante, Patrícia ficou imóvel, segurando a carta sem saber se deveria abri-la ou não. Sentiu uma leve ansiedade, mas também uma curiosidade quase irresistível. Algo sobre aquele gesto parecia significativo, mais do que qualquer coisa que Josiane dissera durante a sessão.
Ela respirou fundo, pronta para decidir o que faria a seguir.
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Atualizado até capítulo 89
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