Sofia olhou para o espelho, ajustando uma mecha de cabelo que insistia em sair do lugar. Aquele encontro com Victor parecia cada vez mais um teste, um labirinto de emoções e incertezas. Ela se perguntou se algum dia conseguiria realmente confiar nele, ou se continuaria presa à imagem de seu algoz, escondido atrás de uma máscara de redenção.
Ela respirou fundo e saiu de casa. O ar da noite estava frio e úmido, o tipo de ar que grudava na pele e deixava tudo mais pesado. O ponto de encontro era uma cafeteria em uma rua mais tranquila, uma pequena joia escondida da cidade. As paredes de tijolos aparentes e a iluminação quente do lugar eram quase um convite para se deixar levar por uma sensação de paz. Mas Sofia sabia que aquela paz era frágil, como uma superfície de gelo fino, pronta para se partir a qualquer instante.
Quando entrou, viu Victor sentado em uma mesa ao fundo, já com uma xícara de café à frente. Ele olhava para o líquido, perdido em pensamentos, e não a notou de imediato. A expressão dele era tranquila, quase vulnerável. Sofia hesitou, questionando-se novamente se aquele era o mesmo homem que, anos atrás, a tinha transformado em um ser quebrado e atormentado. Ela se aproximou devagar, sentindo uma mistura de ansiedade e cautela.
— Victor — ela o chamou, a voz firme, mas interiormente insegura.
Ele levantou o olhar e sorriu, e algo naquele sorriso fez com que seu coração se contraísse. Havia algo genuíno ali, mas Sofia não sabia se deveria acreditar ou se aquele era apenas mais um dos muitos rostos que ele conseguia usar com perfeição.
— Sofia, que bom que você veio. — Ele levantou-se para cumprimentá-la, e ela notou que os gestos dele eram gentis, cuidadosos.
Ela se sentou à frente dele, observando o ambiente. O cheiro de café recém-moído misturava-se com o de bolos frescos, e a música ambiente era suave, quase hipnotizante. Os outros clientes pareciam absorvidos em suas próprias conversas, criando uma barreira invisível ao redor de Sofia e Victor. Eles estavam, por um momento, isolados do mundo.
— Como você tem passado? — Victor perguntou, a voz baixa, quase hesitante.
Sofia ajeitou-se na cadeira, sentindo um leve desconforto ao ser questionada tão diretamente.
— Tenho vivido… um dia de cada vez, sabe? — respondeu ela, evasiva. Não queria expor o peso das noites em claro, os pesadelos, a dor constante. — E você? Como está a sua vida agora?
Victor soltou um suspiro profundo, e Sofia notou que ele parecia realmente refletir sobre a resposta.
— Tenho tentado me encontrar, Sofia. Depois do acidente, minha vida virou de cabeça para baixo. Cada dia é uma descoberta, um misto de frustrações e pequenas vitórias. Eu… às vezes sinto como se estivesse interpretando um papel que eu não escrevi.
As palavras dele a atingiram como uma lâmina. Havia algo de incrivelmente familiar naquilo. Ela também sentia como se estivesse em um palco, forçada a encarar seu próprio passado, repetidamente, como um pesadelo que nunca terminava. A voz dele parecia honesta, mas ela não queria se deixar levar por isso.
— E o que você descobriu até agora? — perguntou ela, cruzando os braços e inclinando-se levemente para frente, a postura defensiva.
Ele sorriu de maneira triste, abaixando os olhos por um instante antes de voltar a olhar para ela.
— Que eu era alguém de quem eu provavelmente não me orgulharia, alguém que fez coisas terríveis. — Ele pausou, observando a reação dela. — Não tenho memórias, mas as histórias que ouvi, as coisas que eu sinto… é como se eu estivesse pagando por erros que não entendo completamente.
As palavras dele ecoaram na mente de Sofia, um misto de dor e alívio. Será que ele realmente não se lembrava? Aquilo poderia ser um jogo, mas, por outro lado, havia algo em seus olhos que parecia genuinamente perdido.
— É estranho — continuou ele. — Às vezes, tenho flashes, como pedaços desconexos de algo. São sensações, pequenos fragmentos que me assombram, mas nunca consigo entender completamente. — Ele parou, observando-a com um olhar profundo. — E você, Sofia? O que você pensa de tudo isso?
Ela respirou fundo, sentindo o peso daquela pergunta. As emoções confusas dentro dela se misturavam, criando um turbilhão de dúvidas e ressentimentos. Uma parte dela queria gritar que nada mudaria o que ele tinha feito, enquanto outra, mais frágil, queria acreditar que as pessoas podiam mudar. Mas, ao mesmo tempo, ela não conseguia esquecer as cicatrizes invisíveis que ele tinha deixado.
— Eu… não sei — respondeu ela, finalmente, sentindo a vulnerabilidade em sua voz. — É difícil, Victor. Eu quero acreditar que você mudou, mas ao mesmo tempo, eu não consigo esquecer o que passei.
Ele assentiu, parecendo absorver cada palavra dela com uma seriedade intensa.
— Eu entendo. Não espero que você confie em mim, Sofia. Mas queria… pelo menos tentar te mostrar quem eu sou agora, ou quem eu estou tentando ser.
Sofia olhou para ele, seus olhos capturando cada nuance de sua expressão. O rosto de Victor parecia sincero, mas as lembranças do passado eram fortes demais para serem apagadas com apenas palavras. Mesmo assim, havia uma parte dela que queria entender, que desejava uma resposta para o mistério que ele representava agora.
— Como é a sua vida hoje? — perguntou ela, hesitante.
Ele suspirou, o olhar distante, como se estivesse vasculhando as memórias recentes.
— Simples, acho que essa é a palavra certa. Eu tento focar nas coisas pequenas, na rotina, em aproveitar o momento. Antes do acidente, pelo que dizem, eu era um homem… arrogante, até cruel. Mas agora, esses traços parecem não fazer sentido para mim. — Ele fez uma pausa, observando a reação dela antes de continuar. — É como se houvesse um estranho dentro de mim, alguém que eu não reconheço e que me assusta. Mas cada vez que olho para o espelho, vejo apenas… a mim mesmo.
Sofia sentiu uma pontada de compaixão, algo que ela não queria sentir. Era mais fácil vê-lo como o monstro que ele tinha sido, alguém que nunca mereceria redenção. Mas a humanidade que ele exibia naquele momento a deixava ainda mais confusa.
— Você já pensou em buscar ajuda para lidar com essa perda de memória? — ela perguntou, genuinamente curiosa.
Victor assentiu.
— Sim. Mas… é complicado. Muitas vezes, sinto como se não quisesse lembrar. Como se houvesse algo horrível que minha mente fez questão de apagar.
As palavras dele ressoaram dentro dela. Aquela era a mesma sensação que ela tinha, o desejo de apagar tudo, de recomeçar sem o peso de suas lembranças.
— Eu entendo o que você quer dizer — ela murmurou, quase para si mesma. — Às vezes, a gente deseja esquecer para se proteger, para continuar vivendo.
Ele olhou para ela, e por um momento, Sofia sentiu que ele a entendia de verdade. Um silêncio pesado pairou entre eles, mas não era desconfortável. Era como se ambos estivessem absorvendo a dor e os segredos que os ligavam, cada um carregando um fardo invisível que o outro podia entender.
— Sofia… — ele começou, hesitante. — Eu sei que talvez isso seja demais para você, mas eu gostaria que, pelo menos, você me visse como alguém que está tentando. Eu não posso mudar o passado, mas posso escolher quem eu quero ser daqui para frente.
Sofia o olhou, e pela primeira vez sentiu um conflito genuíno. As dúvidas permaneciam, mas havia algo novo: uma faísca de esperança, um desejo de que, talvez, ele estivesse sendo sincero. E esse sentimento a perturbava mais do que qualquer outra coisa.
Ela respirou fundo, olhando para o café na xícara à sua frente, como se a superfície negra pudesse oferecer as respostas que buscava. Quando finalmente levantou o olhar para ele, percebeu que estava pronta para dar um pequeno passo, mesmo que hesitante.
— Eu… posso tentar — ela disse, a voz suave, mas firme. — Mas não prometo nada, Victor. Isso ainda é difícil para mim.
Ele sorriu, e Sofia notou que, mesmo sendo um sorriso contido, havia alívio ali.
— É mais do que eu esperava, Sofia. Obrigado por me dar essa chance, mesmo que pequena.
Enquanto eles se despediam naquela noite, Sofia sentiu o peso da dúvida ainda presente, mas um fio de esperança começava a tomar forma dentro dela.
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Atualizado até capítulo 43
Comments
Anonymous
Até agora não entendi nada
2024-12-22
0
Fatima Cavalcante
gente ainda não entendi?, eles eram namorados, casados ou amantes 💏?
2025-01-09
0
Claudia louca por Livros📚
Sem comentários sobre essa Sofia
2024-12-20
1