A noite caiu, e com ela veio o inevitável silêncio que preenchia o apartamento de Sofia. A casa, que durante o dia parecia acolhedora, de repente se tornava uma prisão de lembranças. Ela evitava olhar para as sombras, temendo que nelas surgissem os contornos familiares e aterrorizantes de um passado que insistia em voltar à tona.
Desde o reencontro com Victor, as memórias pareciam ainda mais vivas, como se tivessem sido arrancadas de um sono profundo e agora se recusassem a voltar à escuridão de onde tinham vindo. Sofia tentava sufocá-las, mas à medida que a noite avançava, a tensão crescia em seu peito.
Exausta e sem esperanças de evitar o sono, ela se deitou. Mas, assim que fechou os olhos, as memórias vieram, como sempre vinham: fragmentadas, misturando realidade e ilusão.
O sonho começou como sempre, com o som da chave girando na fechadura da porta. Sofia sentia seu corpo encolher, os músculos tensos, enquanto o barulho ecoava pelo quarto escuro. As luzes eram fracas, e a escuridão quase completa deixava tudo mais ameaçador. Ela sabia o que estava por vir, mas era incapaz de reagir, como se estivesse paralisada pelo medo.
A figura de César surgia lentamente, suas botas pesadas ecoando pelo chão. Ele parava à sua frente, com o rosto meio escondido pelas sombras, mas os olhos brilhando de uma crueldade calculada. No sonho, ele não dizia nada. Apenas a observava, sua presença opressora e ameaçadora, como se estivesse absorvendo cada traço de seu terror. Ela sentia o peso do olhar dele, aquele frio que se espalhava pela pele, congelando-a por dentro.
— Você nunca vai escapar de mim — sussurrava a voz dele, gélida, uma promessa sombria que parecia reverberar em sua mente.
Ela tentava gritar, mas sua voz falhava, como se suas próprias palavras estivessem presas em uma rede de medo. Ele a cercava, cada vez mais próximo, e o pânico crescia, afogando-a. Sofia sentia o toque dele em seu braço, gélido e ameaçador, e uma sensação de desespero tomava conta dela.
E então, como se a realidade se misturasse ao pesadelo, o rosto de César mudava, e o Victor de agora aparecia diante dela. Mas os olhos não eram os mesmos. Aqueles olhos de amnésia e confusão que ela conhecera nos últimos dias se tornavam frios, calculistas, com uma expressão que parecia zombar de seu sofrimento.
— Eu nunca esqueci de você, Sofia — ele dizia, com um sorriso que a fazia sentir como se o chão desaparecesse sob seus pés. — Nunca esqueci o que é seu medo.
Ela acordou com um sobressalto, ofegante, as mãos trêmulas e o rosto úmido de lágrimas. A escuridão do quarto parecia ainda mais sufocante agora, cada sombra ao redor parecendo carregar uma parte do pesadelo. Levou alguns segundos até que seu coração se acalmasse, mas a sensação de pavor ainda estava ali, como uma corrente que a prendia.
A manhã chegou, e Sofia mal havia dormido. Ela se sentia desgastada, como se tivesse passado a noite lutando contra monstros invisíveis. Após um banho demorado, sentou-se na cozinha com uma xícara de café nas mãos, tentando clarear a mente. Mas, assim que fechava os olhos, as lembranças surgiam. Fragmentos do cativeiro, pedaços de diálogos cruéis e o rosto frio e calculista de César.
Mas o que mais a perturbava era a imagem de Victor que havia aparecido em seu pesadelo. Em vez de aliviar seu sofrimento, o reencontro com ele parecia reviver a intensidade daqueles dias horríveis. Ela estava presa entre a certeza do passado e as dúvidas sobre o presente.
O Victor de agora era gentil, confuso, quase vulnerável. Em vez do manipulador meticuloso que ela conhecera, ele se mostrava um homem tentando entender sua própria vida, uma pessoa perdida em busca de si mesmo. Mas como ela poderia confiar? As marcas invisíveis que ele deixara não cicatrizavam, e cada tentativa de confiar nele parecia uma traição a si mesma.
A dúvida corroía seu coração, uma batalha constante entre medo e esperança. Por um lado, ela ansiava por acreditar que ele era realmente alguém novo, que o acidente o havia transformado. Mas, por outro, as lembranças eram vívidas demais, as marcas em sua alma dolorosas demais para que ela pudesse simplesmente esquecer.
— E se ele estiver apenas fingindo? — sussurrou para si mesma, a voz carregada de angústia.
Sofia passou o dia absorta em seus pensamentos, revivendo os detalhes daquele pesadelo. E quanto mais pensava, mais sua confusão crescia. Havia momentos em que acreditava que Victor realmente perdera a memória, mas outros em que o medo tomava conta, e ela via o rosto do homem que a sequestrara e torturara. Cada encontro com ele era como andar sobre uma corda bamba, sem saber se estava mais próxima de se libertar ou de cair de volta no inferno.
Ao anoitecer, Sofia tomou uma decisão. Ela precisava encarar Victor novamente, olhar em seus olhos e entender se o monstro ainda estava lá, escondido nas sombras ou, talvez, preso na sua própria memória perdida.
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Atualizado até capítulo 43
Comments
Fatima Cavalcante
como se conheceram, porque ele fez isso com ela, já passei vários capítulos sem ter
2025-01-09
0
Fatima Cavalcante
essa história se resume só nesse pesadelo de Sofia e?
2025-01-09
0
Cléia Maria da Silva d Azevedo
Corajosa ela autora. Eu fugiria prá bem longe🤭
2024-12-12
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