O céu estava coberto por uma camada espessa de nuvens, e uma garoa fina caía sobre a cidade. O clima melancólico parecia refletir o estado de espírito de Sofia, que caminhava distraída pelas ruas, vestida em um casaco longo e cachecol. Tinha planejado sair de casa naquela manhã para mais uma sessão com sua terapeuta, mas as lembranças do último encontro com Marta no parque ainda a rondavam. A ansiedade pesava em seus ombros, uma presença constante, sufocante.
Para Sofia, cada rua, cada esquina representava um possível perigo. Observava atentamente os rostos das pessoas ao seu redor, procurando sinais de qualquer coisa que pudesse indicar uma ameaça. A cidade, apesar de ser um lugar vasto e impessoal, nunca a fizera sentir-se segura.
Ao chegar ao café onde esperava Marta, Sofia hesitou na entrada. A ideia de estar em um ambiente público ainda a deixava desconfortável, mas precisava conversar com alguém. Marta era a âncora que a mantinha firme, e sabia que algumas palavras de sua amiga poderiam ajudá-la a manter a sanidade.
O café era pequeno, aconchegante, com um cheiro envolvente de café moído e pão fresco. Mesas de madeira escura preenchiam o espaço, e uma música instrumental tocava suavemente ao fundo. Sofia escolheu uma mesa próxima à janela, de onde podia ver as pessoas passarem. Sentada, apoiou o cotovelo na mesa e olhou para fora, observando as gotas de chuva que deslizavam pelo vidro.
Enquanto esperava, percebeu o quanto ainda estava presa às lembranças. Cada gesto involuntário de um estranho, cada movimento mais brusco a fazia pensar que era ele – aquele homem que tanto a machucara e que, mesmo após a fuga, permanecia em sua mente como uma presença constante, como uma sombra impossível de apagar.
— Olá, Sofia! — A voz familiar de Marta a despertou de seus pensamentos. Sofia esboçou um sorriso, mas era óbvio que ainda estava mergulhada em seus próprios medos.
— Marta, obrigada por vir — respondeu, puxando uma cadeira para que a amiga se sentasse.
— Eu sempre estarei aqui para você, Sofia. E o que aconteceu ontem foi um progresso. — Marta colocou uma mão gentil sobre a dela, transmitindo conforto e força.
Sofia assentiu, mas sua expressão ainda era de alguém que lutava contra uma dor invisível.
— É estranho. É como se... eu não pudesse escapar, Marta. Mesmo aqui, neste café, cercada de pessoas, eu sinto que ele está perto. Como se, a qualquer momento, fosse aparecer e me levar de volta.
Marta apertou sua mão.
— É normal se sentir assim. Ele deixou marcas profundas em você, Sofia. Mas, aos poucos, você vai recuperar o controle da sua vida. Eu prometo. Vamos dar um passo de cada vez, ok?
Sofia sorriu, ainda que timidamente, sentindo-se um pouco mais segura ao lado da amiga. Elas continuaram conversando por mais alguns minutos, até que Sofia sentiu a ansiedade diminuir. A presença de Marta era um lembrete constante de que ela não estava sozinha, de que havia pessoas que se importavam e queriam vê-la bem.
Enquanto terminavam suas xícaras de café, Sofia se levantou para ir ao banheiro. Caminhou lentamente até o fundo do estabelecimento, tentando manter a calma. Passou pelo corredor estreito, iluminado por luzes amarelas suaves, e sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Os corredores apertados e as portas fechadas ainda a faziam se lembrar das paredes do cativeiro, mas ela respirou fundo e seguiu em frente.
Quando terminou, caminhou de volta para a mesa, e foi então que, ao virar a esquina, seu olhar caiu sobre alguém que a fez parar instantaneamente. Sentado perto da porta, com o olhar perdido em um livro, estava ele – Victor.
O coração de Sofia disparou, e o sangue pareceu congelar em suas veias. Era ele. Mesmo com o cabelo um pouco mais longo, com uma barba por fazer e roupas comuns, ela sabia que era ele. Aquele rosto estava gravado em sua mente como uma cicatriz permanente.
Ele levantou o olhar por um instante e seus olhos encontraram os dela. Sofia conteve o grito que ameaçava escapar de seus lábios, sentindo as pernas tremerem e o pânico se instalar em cada fibra de seu corpo. Mas, para sua surpresa, ele apenas sorriu de maneira descontraída e voltou a atenção ao livro, como se não a reconhecesse. Como se fosse apenas mais um rosto anônimo na multidão.
Sofia ficou paralisada, sua mente em um turbilhão. Seria possível que ele não se lembrasse dela? Ele parecia tão diferente, tão... normal. Por um instante, cogitou a ideia de que aquilo tudo fosse um pesadelo, uma alucinação provocada pelo trauma. Mas, ao mesmo tempo, sabia que não era. Era ele.
Marta, que observava a amiga da mesa, percebeu o pânico estampado no rosto de Sofia e levantou-se imediatamente, aproximando-se dela com preocupação.
— Sofia? O que foi? Você está pálida! — Marta tocou o braço dela, tentando entender o que estava acontecendo.
Sofia, com a voz trêmula e entrecortada, tentou falar, mas sentia-se como se estivesse sufocando.
— Ele... ele está ali, Marta. Ele está aqui.
Marta olhou na direção para onde Sofia apontava discretamente, mas ao ver o homem sentado, sua expressão suavizou. Ele parecia absorto no livro, completamente alheio ao que acontecia ao redor.
— Sofia, você está certa de que é ele? Ele parece tão... — Marta hesitou, escolhendo as palavras. — Diferente.
Sofia engoliu em seco, sentindo a realidade lhe escapar. Ele olhou para elas de novo, mas o olhar que lançou foi gentil, até amigável, diferente do olhar frio e calculista que Sofia conhecia tão bem. Ela não sabia se devia sair correndo ou confrontá-lo.
— Eu... não sei, Marta. Ele não parece... ele parece não me reconhecer.
Marta respirou fundo e tomou uma decisão rápida.
— Talvez devêssemos falar com ele. Se ele realmente não se lembra de você, precisamos entender o que aconteceu. Mas, se ele estiver fingindo... também precisamos saber.
Antes que Sofia pudesse protestar, Marta caminhou até o homem. Sofia a seguiu, sentindo-se vulnerável e assustada, mas determinada a encarar aquele momento. Pararam ao lado dele, e Marta o cumprimentou de maneira casual.
— Oi. Você parece tão concentrado nesse livro — disse Marta, com um sorriso leve. — É raro ver alguém tão dedicado à leitura em um café.
Victor ergueu o olhar e sorriu educadamente.
— Ah, é um passatempo. Este lugar é calmo, bom para relaxar. — Ele desviou o olhar para Sofia, que tentava manter a compostura. — Ah, olá. Nos conhecemos?
Sofia congelou, incapaz de responder. Ele não parecia nem remotamente o homem que a havia torturado e perseguido por anos. Cada palavra, cada expressão em seu rosto sugeria uma inocência que ela não conseguia associar a ele.
— É... nos conhecemos há muito tempo, em uma festa da faculdade — Sofia disse finalmente, testando a história. Ela inventara aquela versão apenas para avaliar sua reação.
Victor franziu a testa, como quem tentava se lembrar.
— Sinto muito. Perdi algumas memórias em um acidente há um tempo. Ainda estou tentando me reconectar com o passado. Mas, se eu realmente conheci uma garota tão linda, foi uma falha terrível não lembrar — ele riu de maneira leve, inocente, fazendo Sofia sentir uma mistura de incredulidade e confusão.
Marta notou a hesitação de Sofia e decidiu interromper antes que a situação ficasse insustentável.
— Bem, quem sabe você se lembre com o tempo. Sofia, vamos? — Marta sugeriu, segurando o braço da amiga e a puxando suavemente.
Sofia assentiu, lançando um último olhar para Victor antes de sair. Seu coração estava em frangalhos, e sua mente, em completa confusão. O homem que vira ali não parecia em nada o monstro que a perseguira. Mas a dúvida persistia: seria realmente possível que ele tivesse mudado? Ou tudo não passava de um jogo cruel para puxá-la de volta ao pesadelo?
Enquanto caminhavam para fora do café, Sofia sentia que o peso das cicatrizes invisíveis só aumentava, somando-se agora a um novo dilema.
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Atualizado até capítulo 43
Comments
Cintia_Escritora
Não existe nada pior do que encontrar alguém que te traz medo. É algo difícil de superar, possivel, mas difícil.
2025-01-04
2
Kelyane Maria
Eu ei estou ficando arrepiada
2025-01-18
1
Claudia louca por Livros📚
A amiga não tinha nada que ir até ele e leva ela , tinha que ir embora e deixar o psicopata pra trás.
2024-12-20
1