A noite era um manto espesso, sufocante, que se espalhava por cada canto do cativeiro de Sofia. As paredes frias, com marcas de arranhões e lembranças de noites intermináveis, pareciam pulsar com a mesma agonia que ela carregava no peito. Fazia cinco anos desde que fora capturada, cinco anos de dor, de luta silenciosa e de desespero constante. Mas, naquela noite, algo era diferente. Ela sentia um peso nas sombras, uma expectativa que a fazia tremer dos pés à cabeça. Era como se a própria escuridão estivesse sussurrando: Vai. É a sua chance.
Sofia respirou fundo, ignorando a dor nos pulmões e o cansaço que a dominava. Seu algoz havia saído, deixando-a sozinha – algo raro, quase inacreditável. Ele sempre se orgulhara de sua vigilância, de seus métodos implacáveis. Contudo, naquela noite, por um milagre que Sofia não ousava questionar, a fechadura da porta estava menos firme, quase solta. Nos últimos dias, ela havia testado, empurrando com pequenos toques, até se convencer de que poderia ceder se colocasse toda a sua força ali.
Ela se levantou devagar, cada movimento calculado para não fazer barulho. O silêncio era tão pesado que até a respiração parecia ecoar pelas paredes. No escuro, ela se aproximou da porta e segurou a maçaneta, sentindo o metal gelado contra a pele fria. Fechou os olhos, como se isso pudesse ajudá-la a reunir a coragem de que precisava. Cada parte de sua mente gritava que aquilo era uma armadilha, uma maneira dele testar sua obediência, sua submissão. Mas seu instinto dizia o contrário – aquela era a única chance.
Com um último suspiro, Sofia empurrou a porta. Um leve rangido ressoou, e ela parou, segurando o fôlego enquanto esperava ouvir passos. Mas a escuridão permaneceu imóvel, sem qualquer sinal de que ele estava por perto. Sentindo o coração disparar, Sofia atravessou o corredor apertado, onde tantas vezes fora arrastada sem resistência. Passou pela sala de tortura, um espaço que ela conhecia bem demais, e reprimiu um calafrio. Aquele lugar havia se tornado um pesadelo constante em sua mente, um poço sem fundo de dor e desespero. Mas naquela noite, ela estava determinada a deixá-lo para trás.
Cada passo era um desafio. Ela não sabia exatamente onde estava, mas seu instinto lhe dizia para seguir em frente, ignorando a dor em cada músculo, o medo em cada pensamento. As janelas eram poucas e pequenas, e Sofia mal conseguia enxergar a saída. Em um canto, uma escada estreita levava ao andar de cima, de onde ela acreditava que poderia encontrar uma saída para o mundo exterior. O coração batia cada vez mais rápido, e o suor escorria pela testa, mas ela continuou subindo, como se cada degrau fosse uma promessa de liberdade.
O andar superior era ainda mais escuro, e os barulhos eram estranhos, como se a casa velha estivesse tentando falar com ela, advertindo-a de algum perigo iminente. Sofia se encolheu ao ouvir o som de algo rangendo, mas logo percebeu que era apenas o vento atravessando uma janela quebrada. Finalmente, uma leve brisa gelada tocou seu rosto, e ela soube que estava perto da saída.
Ao avistar a porta da frente, o coração de Sofia disparou. Ela sentiu a liberdade ao alcance, algo que por tanto tempo havia sido apenas uma lembrança distante. Mas, enquanto estendia a mão para a maçaneta, uma memória lhe veio à mente – as vezes em que ele sorria ao vê-la tentar lutar, a expressão cruel de triunfo em seu rosto sempre que ela fracassava em se opor. Sofia hesitou. E se ele estivesse lá fora? E se tudo aquilo fosse um jogo, uma forma de testar sua submissão uma última vez?
Mas a voz em sua cabeça – a mesma que a incentivara a resistir por tanto tempo – sussurrava insistentemente. Não olhe para trás. Vá agora.
Sofia girou a maçaneta com cuidado, e a porta se abriu, permitindo que a brisa fria da noite a envolvesse por completo. Lá fora, a escuridão era menos densa, e ela pôde ver o céu pela primeira vez em anos. As estrelas estavam apagadas, mas a liberdade que aquele ar fresco trazia era indescritível. Ela estava quase do lado de fora, mas não poderia comemorar ainda. Precisava sair dali o mais rápido possível, precisava correr, fugir para onde ele nunca a encontrasse.
Ela começou a correr, descalça e vulnerável, mas com a determinação de quem não tem nada a perder. Seus pés, mesmo cortados e ensanguentados, a conduziam com força, levando-a para longe daquele lugar amaldiçoado. Por um momento, ela olhou para trás, mas só viu a silhueta da casa no escuro, uma sombra que logo se perderia na noite. Porém, não demorou muito para ouvir passos atrás de si. Ele estava ali, como um fantasma renascido do inferno que ela tentava deixar para trás. Sofia aumentou a velocidade, seus pulmões ardendo, mas o pavor alimentando cada passo.
A estrada era estreita e cheia de curvas, e ela sabia que não poderia continuar correndo para sempre. Seus músculos estavam no limite, e a dor se espalhava por cada parte do corpo. No entanto, um som cortou o ar – pneus derrapando, um grito de fúria. Ela se virou a tempo de ver o carro se aproximando, os faróis iluminando a noite como olhos furiosos que a perseguiam. Mas o que aconteceu a seguir foi tão rápido que ela mal teve tempo de processar. O carro, em alta velocidade, perdeu o controle em uma curva e deslizou até bater em uma árvore. O impacto foi devastador, e em questão de segundos, o veículo explodiu em uma bola de fogo que iluminou a estrada.
Sofia parou, ofegante, enquanto assistia ao espetáculo sombrio da explosão. Por mais que temesse confirmar, sabia que aquele era o fim de seu algoz. A cena era tão surreal que ela ficou ali, imóvel, observando as chamas que consumiam o carro e tudo o que havia de seu passado aterrorizante. Ele estava morto – finalmente. A liberdade que ela tanto desejara estava, enfim, ao seu alcance. O corpo de Sofia cedeu, exausto, mas seu coração começava a experimentar o primeiro gosto de alívio.
Ela olhou para o céu e, pela primeira vez, deixou que as lágrimas caíssem. Aquele era o primeiro passo em direção a uma vida nova, uma vida sem grades e sem medo. Mas, no fundo de sua mente, a voz do trauma ainda ecoava, lembrando-a de que o passado pode desaparecer, mas as cicatrizes permanecem. Mesmo livre, Sofia sabia que as sombras daquele pesadelo a seguiriam por muito tempo.
E naquela noite, deitada na estrada fria, ela finalmente adormeceu, deixando para trás o peso de um tormento que havia durado anos. Mas mesmo enquanto fechava os olhos, o que não sabia era que o destino ainda guardava reviravoltas sombrias, prontas para se desenrolarem quando ela menos esperasse.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 43
Comments
Fatima Cavalcante
pior livro que eu já li!
2025-01-10
0
pascoal victor
espero que ela supere esse trauma
2024-12-20
0
Thallita Gomes
tô gostando
2024-12-18
1