A mente de Sofia estava em um turbilhão. Os encontros com Victor nas últimas semanas foram confusos e intensos, uma mistura de emoções contraditórias que se chocavam dentro dela. Ele parecia tão diferente, como se o acidente tivesse apagado o homem cruel que a atormentou e deixado apenas um sujeito comum. Mas uma voz interior gritava que ela não podia confiar tão facilmente.
Ela decidiu que precisava testar Victor de uma forma mais incisiva. Algo que o colocasse à prova. Esse pensamento a assombrava, mas ela sabia que era necessário. Ainda sentia medo ao olhar para ele, mesmo enquanto ele exibia aquele sorriso tranquilo, como se fosse apenas um homem qualquer. Queria descobrir, de uma vez por todas, quem realmente era aquele “novo” Victor.
No café onde sempre se encontravam, Sofia chegou mais cedo, sentando-se em uma mesa ao canto. Observou a movimentação ao redor, tentando controlar os nervos. Quando finalmente o viu entrar, seu coração acelerou, e ela prendeu a respiração. Victor tinha o semblante leve e relaxado, acenou para ela e se aproximou com um sorriso, sem suspeitar do que se passava em sua mente.
— Sofia! — disse ele, puxando a cadeira à sua frente. — Você chegou cedo. É uma boa surpresa.
Ela forçou um sorriso, sentindo o estômago se revirar.
— Sim, queria garantir que conseguiríamos um lugar tranquilo para conversar — respondeu, tentando soar casual.
Victor a olhou com curiosidade, notando uma tensão em seu rosto que não estava ali antes.
— Está tudo bem? — ele perguntou, inclinando-se ligeiramente em direção a ela. — Você parece preocupada.
Sofia suspirou, tentando organizar seus pensamentos. Odiava a sensação de estar vulnerável, especialmente com ele, mas sabia que precisava ser forte.
— Sim, está tudo bem — disse, finalmente. — Mas... quero te perguntar algo.
Victor assentiu, claramente curioso e um pouco apreensivo.
— Pode perguntar o que quiser, Sofia. Vou ser sincero com você.
Ela respirou fundo, medindo cada palavra antes de falar.
— Victor, você me disse que perdeu parte das suas memórias no acidente, certo? — começou ela, observando atentamente sua expressão.
Ele assentiu, os olhos fixos nos dela.
— Sim, foi o que os médicos disseram. Às vezes sinto que sou alguém completamente diferente, mas... algumas coisas ainda estão um pouco confusas.
Sofia apertou as mãos embaixo da mesa para que ele não visse seu nervosismo.
— Tem algo específico que você lembra? Alguma memória antiga que tenha voltado?
Victor franziu a testa, pensativo.
— Algumas coisas aparecem às vezes, mas são mais sensações do que lembranças. Por exemplo, quando vejo certas fotos, ou quando alguém menciona algum lugar que eu costumava frequentar... É como se fossem peças de um quebra-cabeça, mas que ainda não se encaixam.
Ela assentiu, lutando contra o impulso de duvidar dele. Precisava aprofundar o teste.
— E... alguma vez você já teve uma sensação familiar comigo? Algo que... te faça pensar que nos conhecemos de uma maneira mais intensa? — perguntou, olhando-o de uma maneira que mesclava curiosidade e apreensão.
Victor parecia surpreso com a pergunta, e seus olhos se suavizaram.
— Para ser sincero, Sofia, há algo em você que realmente me traz uma sensação de familiaridade. Não sei explicar, mas sinto como se você fosse alguém... importante — ele disse, e então sorriu, hesitante. — Isso soa estranho, não é?
Sofia sentiu o coração apertar. Ele estava sendo sincero? Ou estava manipulando-a, jogando com suas emoções? Precisava ir mais fundo.
— E se eu te contasse que... nos conhecemos em um momento muito difícil da minha vida? Um momento que... deixou marcas em mim. — Ela escolheu as palavras cuidadosamente, sondando suas reações.
Victor franziu o cenho, parecendo intrigado.
— Sinto muito por ouvir isso, Sofia. Mas… honestamente, se tivéssemos nos conhecido assim, como você diz, eu me lembraria. Algo assim deixaria uma impressão muito forte, não deixaria? — Ele a observou atentamente, como se tentasse buscar respostas em seu olhar.
Ela desviou o olhar, tentando recuperar o controle de suas emoções. Ele parecia tão convincente, tão genuíno. Mas precisava continuar.
— Eu preciso saber, Victor... — Ela engoliu em seco, forçando-se a continuar. — Você realmente não se lembra de nada do seu passado que possa... te assustar?
A expressão dele se tornou séria, e ele ficou em silêncio por um momento antes de responder.
— Sofia, a verdade é que às vezes eu sinto que há partes de mim que... eu preferiria nunca lembrar. Já tive pesadelos, imagens que surgem na minha mente, mas nunca consegui entender do que se tratavam. O acidente foi um ponto de virada para mim. Desde então, tento viver sem olhar para trás, porque o passado que eu não lembro... talvez seja algo que não queira mesmo saber.
As palavras de Victor pareciam refletir uma honestidade bruta, e Sofia sentiu um misto de alívio e angústia. Ele realmente não parecia se lembrar de nada, mas o que isso significava? Seria possível que ele estivesse apenas fingindo? O dilema pesava em sua mente, um medo paralisante se misturando a uma curiosidade insaciável.
— Eu sei que é difícil — disse ela, a voz um pouco trêmula. — E eu não queria te colocar em uma situação desconfortável. Mas sinto que precisava perguntar.
Victor estendeu a mão sobre a mesa, hesitante, e Sofia instintivamente recuou. Ele percebeu seu desconforto e recolheu a mão, mantendo uma expressão de empatia.
— Sofia, eu não sei pelo que você passou, mas quero que saiba que estou aqui, e que você pode confiar em mim. — Ele a olhou nos olhos, e pela primeira vez, Sofia viu algo que parecia uma profunda sinceridade.
Ela respirou fundo, os olhos lacrimejando levemente. Ele parecia tão diferente, tão distante do monstro que ela conhecera. Mas como poderia ter certeza?
— Eu quero acreditar em você, Victor... realmente quero. — As palavras saíram como um sussurro, carregadas de um peso que ele parecia perceber.
Victor assentiu, com um olhar compassivo.
— Eu entendo. Sei que é difícil, mas talvez, se a gente passar mais tempo junto, as coisas fiquem mais claras. Posso não lembrar do passado, mas estou disposto a tentar entender o que houve e a apoiar você no que precisar.
Sofia sentiu uma pontada no peito. Seria possível que, por ironia do destino, aquele homem agora se tornasse alguém em quem ela pudesse confiar? Ou tudo não passava de um jogo psicológico?
— Obrigada, Victor... — murmurou, tentando recompor-se. — Por enquanto, só preciso de tempo.
Ele assentiu, respeitando seu pedido. E naquele momento, algo nos olhos de Victor parecia se iluminar com uma ternura inesperada, algo que a deixava ainda mais confusa.
Após mais alguns minutos de conversa, Victor a acompanhou até a saída do café, desejando-lhe um bom dia e prometendo que respeitaria o tempo e o espaço dela. Ao vê-lo partir, Sofia sentiu-se exausta, mas determinada. Sabia que não podia confiar totalmente nele, mas também que não podia mais ignorar suas próprias dúvidas.
De volta ao silêncio da rua, Sofia percebeu que aquele teste a deixara com mais perguntas do que respostas.
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Atualizado até capítulo 43
Comments
pascoal victor
tenho tantas perguntas espero que sejam esclarecidas ao longo da história
2024-12-20
0
Áurea Do Carmo de Farias
eu gostaria de saber o que aconteceu com eles
eram namorados amigos
só assim vou entender a história
2024-11-07
2