Pedro encarava Clara enquanto ela tentava, em vão, limpar as manchas de lama do vestido. As mãos dela tremiam, os olhos marejados refletindo uma mistura de raiva e tristeza. Ele sentia o peso daquela dor quase como se fosse sua, um fardo que parecia apertar-lhe o peito. Tentou dizer algo, uma palavra de consolo, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Ele estava ali para ajudar, para ser o ombro amigo de Lucas, o apoio que Clara tanto precisava, mas não conseguia afastar a sensação de que era um impostor naquela história.
Sentado ao lado dela, Pedro manteve a mão em silêncio sobre a dela, tentando transmitir força, mesmo que por dentro estivesse despedaçado. O olhar de Clara era o que o consumia. Há muito tempo ele sabia que nutria algo mais por ela, algo que jamais ousaria dizer em voz alta. Aqueles sentimentos, guardados como um segredo vergonhoso, se intensificaram com o tempo, mas ele fez questão de mantê-los sob controle, como deveria.
Lucas era seu melhor amigo. Sempre foi e sempre será, pensou Pedro. Nada poderia mudar isso. E Clara, por mais que ele a amasse em silêncio, era a noiva de Lucas. Ele nunca poderia trair esse vínculo, não importava o quanto seu coração o pressionasse. Ainda assim, ao ver Clara naquele estado, destruída por algo que ele ainda não entendia por completo, Pedro se perguntava se algum dia teria forças para realmente seguir com esse compromisso de lealdade.
"Vai ficar tudo bem," ele murmurou finalmente, embora a frase soasse vazia até para ele.
Clara apenas balançou a cabeça, sem acreditar. O rosto pálido, as mãos ainda apertando o tecido sujo. Pedro sentia que o peso daquele momento era maior do que qualquer palavra de conforto pudesse suportar. Havia algo mais ali, algo que ele não sabia como consertar.
Lucas, por sua vez, estava perdido em pensamentos perto da janela. Ele sempre foi o confiante, o otimista, aquele que acreditava que o mundo conspirava a seu favor. Agora, o que Pedro via em seu amigo era desespero, algo que ele não estava acostumado a lidar. Lucas não falava, não pedia conselhos, apenas ficava ali, como se tentar processar tudo sozinho fosse a única saída. Pedro queria ajudá-lo, mas não sabia como.
E então havia Alberto, o "amigo" sempre presente, sempre com a palavra certa. Algo nele não parece certo, pensou Pedro, embora se sentisse culpado por sequer pensar isso. Alberto era um bom conselheiro, ou ao menos parecia ser. Mas, nos últimos meses, Pedro começou a perceber que Alberto estava sempre nos momentos certos, sempre com o comentário que, por alguma razão, causava mais tensão do que alívio.
Na verdade, era Alberto quem sugerira que Clara tomasse algumas decisões que a afastaram de Lucas nos últimos meses, decisões que Pedro agora começava a questionar. Era ele quem sempre parecia saber demais, como se estivesse observando todos de uma distância segura, manipulando cada situação com uma delicadeza quase invisível.
Pedro sabia que estava paranoico, mas a intuição o incomodava. Algo não encaixava, e a angústia de Clara, o desespero de Lucas, e até a própria inquietação que ele sentia pareciam de alguma forma estar conectados. Mas como ele poderia apontar isso sem provas? Como acusar alguém como Alberto, que parecia ser tudo o que Lucas precisava naquele momento? Ele era apenas o amigo observador, sem voz, preso entre sua lealdade e os próprios sentimentos.
Clara suspirou profundamente, os ombros caindo de cansaço. Pedro sentiu uma vontade súbita de dizer a verdade. Queria confessar que, por todo esse tempo, ele a amava em segredo. Queria que ela soubesse que, ao contrário de Lucas, ele nunca a deixaria sozinha, nunca duvidaria dela. Mas isso seria uma traição, e Pedro sabia que, mesmo que fosse correspondido, destruiria Lucas — e ele não suportaria carregar esse fardo.
Ele olhou para Lucas mais uma vez, o amigo que sempre esteve ao seu lado, e soube que não poderia quebrar essa confiança, por mais difícil que fosse manter seu silêncio.
"O que vamos fazer agora?" Clara perguntou em voz baixa, a primeira frase que Pedro a ouviu dizer em horas.
Ele não tinha uma resposta. Tudo parecia desmoronar, e Pedro estava em uma encruzilhada que jamais imaginou enfrentar: a lealdade ao melhor amigo ou a verdade dos próprios sentimentos.
Antes que pudesse responder, a porta se abriu e Alberto entrou, com o mesmo sorriso afável de sempre.
"Vamos resolver isso," disse ele, a voz calma, como se soubesse exatamente como consertar o que estava quebrado.
Pedro observou Alberto, cada fibra de seu ser gritando que algo não estava certo. Mas, mais uma vez, ele silenciou essas suspeitas. Por agora, ele precisava ser o amigo que Lucas sempre conheceu. O resto? Ele teria que sufocar, como sempre fez.
"Por enquanto."
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Atualizado até capítulo 51
Comments
Fatima Gonçalves
gente que HORROR segui seus pressentimentos rapaz
2024-11-02
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