Srta? Srta? A mulher me chama.
- Está com fome? Deseja comer algo?
Eu estava faminta e preciso de energia para raciocinar direito. E até para poder fugir caso surja uma brecha. Energia é essencial.
- Sim! Estou faminta. Eu digo.
- Certo! Vou buscar algo para a Srta.
- Desculpe! Qual o seu nome? Eu pergunto.
- Zuri!
- A Srta tem alguma preferência? Ela pergunta.
Eu até poderia sugerir algo. Mas não faço ideia de quais são os pratos típicos da Nigéria.
- Não! Só peço que escolha o que for mais saboroso e claro nutritivo. Por favor!
- Pode deixar! Irei providenciar. Ela diz.
- Srta Zuri?
- Sim!
- Estou com dor de cabeça e cansada. Não sei que horas são, mas pela posição do sol parece que estamos na metade do dia. Será que posso descansar um pouco.
- Sim, claro!
Olho na minha volta e esse lugar é chique demais. Quem me comprou não parece ser um criminoso, já que deseja se casar comigo. Mas pensando bem, ninguém que compra uma mulher de tráfico humano também não é tão boa pessoa assim.
Eu me deito na cama enorme e confortável. Pouco depois ela retorna com uma bandeija e um prato digamos diferentes.
- O que é isso?
- Chama - se Eba. É uma bola de ámido de mandioca que acompanha a sopa.
- Prove! É saboroso. Ela diz.
Eu pego a colher, é um prato diferente, mas tem um cheiro bom e é bem colorido. Exceto a bola que é branca. Provo primeiro a sopa é bem gostosa, com bastante tempero. E depois a bola de amido que tem um gosto neutro.
- Para sobremesa temos banana da terra frita.
Esse prato não é diferente. Já que no Brasil comemos muita banana. Mamãe fazia banana da terra, com farofa ou com queijo coalho. E ambos são muito gostosos.
- Srta Zuri será que posso conhecer o Sr Umar.
- Não Srta. Somente no dia do casamento.
- Não se preocupe isso acontecerá em alguns dias. Ela diz.
- Com licença, vou deixar a Srta descansar.
Eu me deito novamente e acabo adormecendo. Acordo e não tenho nada para fazer. Vou até a porta, mas está trancada.
Zuri entra carregando algumas sacolas, ela retira vários tecidos e os espalha pelo piso. Roupas de cores vibrantes, bordadas com detalhes delicados em ouro e prata, se destacam contra o fundo escuro da madeira polida.
- Srta prove alguns modelos. Já que a Srta está apenas com roupas de baixo. Ela diz.
Provo algumas calças, blusas e vestidos.
- Acho que vai servir. Eu digo mostrando para ela.
- Ficou perfeito. Ela diz.
Zuri está à minha frente, ajustando um tecido longo e dourado que parece brilhar sob a luz fraca que entra pela janela. Seu olhar tranquilo me faz sentir desconfortável. Como ela pode ser tão serena em meio a tudo isso?
- Isso vai realçar sua pele, Srta Amélia. Zuri comenta com um sorriso leve, quase maternal, enquanto me oferece um pano azul profundo com detalhes prateados.
- Você será uma noiva digna da tribo.
Respiro fundo, tentando entender tudo o que está acontecendo. Eu fui vendida e esse homem misterioso. E agora...ela age como se tudo fosse normal.Tento não me deixar levar pelo pânico, mas meu estômago revira. Zuri parece ler minha mente e continua com sua voz calma.
- O casamento na cultura Yoruba é uma cerimônia sagrada, cheia de tradições e respeito. Ela se aproxima, agachando-se ao meu lado, enquanto dobra o tecido em seu colo.
- Nós, mulheres, temos nosso papel. É importante que você compreenda isso. Não apenas para o casamento, mas para sua vida daqui em diante.
- E... qual é o papel de uma mulher aqui, Zuri? — Pergunto com um tom de ironia, olhando-a nos olhos, à procura de uma resposta que talvez faça sentido.
- Uma mulher Yoruba deve ser graciosa, forte, mas sempre respeitosa com seu marido. Ela coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, quase como se fosse minha amiga de infância.
- Devemos honrar nossos maridos, ouvi-los, cuidar da casa, da família. O respeito é tudo.
Ouvindo aquelas palavras, sinto um aperto no peito. Respeito... como posso respeitar alguém que me comprou?
- Mas o respeito... é conquistado,eu te respeito, quando sou respeitada! Minha voz sai mais dura do que eu pretendia.
- Ele... vai me respeitar também?
Zuri suspira suavemente, abaixando os olhos, e começa a dobrar um lenço que estava em suas mãos.
- Cada casamento é diferente, Amélia. Ela evita a pergunta, algo que me faz refletir quem será o meu futuro marido.
- No dia da cerimônia, você vai usar essa roupa.Ela segura o tecido dourado que havia mencionado antes.
- Este é o iro, uma das peças mais importantes. Ele será amarrado em torno de sua cintura, sobre essa saia mais longa.
Ela me oferece outro tecido, vermelho, com detalhes dourados.
- Isso aqui é o buba, a blusa. Deve ficar ajustada, cobrindo seus ombros. Sua voz tem um tom de orgulho ao falar das vestimentas, como se cada detalhe importasse.
- E este é o gele, o turbante que vai adornar sua cabeça. Ele simboliza a dignidade e o respeito que você carrega como esposa.
- Não posso simplesmente... ir embora? Pergunto, ainda presa em meus pensamentos, minha voz soando mais como um sussurro.
Zuri para por um instante, seus olhos me observando com uma mistura de pena e compreensão. Ela abre um sorriso suave, sem malícia.
- Amélia, você agora é uma Umar. Aceitar essas tradições vai tornar tudo mais fácil. Ela ajeita o gele que ainda está em suas mãos.
- No dia do casamento, sua postura será observada por todos. Mantenha a cabeça erguida, caminhe com graça e...Ela me olha profundamente.
- Nunca mostre suas emoções em público. Você precisa ser a rocha.
O que? Como assim? Ser a rocha? Como posso ser forte em meio a esse pesadelo? Tento processar suas palavras, mas tudo parece tão irreal, tão distante da minha vida anterior.
- E o... noivo? Minha voz falha ao fazer a pergunta, minha curiosidade finalmente vencendo o medo.
Zuri, que estava ocupada dobrando mais um pano, pausa por um instante. Seus olhos escuros se levantam para me encarar, mas ela não sorri dessa vez.
- Isso não é algo para se preocupar agora. Ela diz suavemente.
- O Sr. Umar se apresentará no dia do casamento, e tudo será revelado a seu tempo.
Tento protestar, tentar arrancar mais informações dela, mas sua expressão gentil e impenetrável me diz que essa conversa chegou ao fim. Ela levanta-se, segurando o gele com uma mão e estende a outra para mim, me incentivando a levantar também.
- Agora, vamos começar a praticar. Quero que você se acostume a andar com essa roupa. Ela me observa com cuidado, como se cada detalhe do meu comportamento fosse importante.
- Você tem que estar preparada. Não podemos deixar que os outros percebam as suas emoções.
Tento me levantar, mas sinto minhas pernas tremendo. Zuri sorri, me ajudando a ficar de pé. A cada movimento, a roupa parece mais pesada do que deveria ser, como se simbolizasse o fardo que estou prestes a carregar.
- Vai ficar tudo bem, Amélia. Ela diz, sua voz suave mais uma vez.
Não sei se posso confiar nela, mas até agora é a única pessoa a quem tenho contato.
No fundo só queria acordar e descobrir que tudo isso foi um enorme pesadelo.
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Atualizado até capítulo 75
Comments
Amanda
Bem que poderia ser só um pesadelo mas é a realidade 😢
2024-12-06
0
Isabel Esteves Lima
Coitada da Amélia, o que será que a espera.
2025-01-13
0
Suelen Andrade
tem mas coisas aí com certeza
2024-11-23
2