Capítulo 1

POV Rick

Eu nunca acreditei em sorte. Para um homem como eu, a sorte é só um erro de cálculo de quem depende dela. Tudo no meu mundo é precisão, planejamento, execução. Eu sei o que faço e, até ontem, não havia duvidado de terminar um trabalho, uma única vez. Cada alvo caía, cada contrato era cumprido com a frieza e a eficácia de quem não tem nada além de um preço na alma. 

Até que a conheci.

A missão parecia simples no papel. Senadora Sara Weyland . Nome respeitado, carreira em ascensão, muitos inimigos. Política de discurso afiado e presença de espírito.

 Indo direto ao ponto, fui contratado para matá-la. 

Até então, ela era só mais um nome, uma descrição fria em um dossiê, como tantos outros que já passaram pelas minhas mãos. Mas algo no tom de quem me contratou me alertou de que essa missão seria diferente. Não senti que essa missão seria diferente pela dificuldade, conheço meu valor e, se me chamaram, é porque sabiam que eu daria conta, mas senti que era diferente pelo que estava por trás do pedido. 

Existia poder demais nas mãos de uma mulher como ela, bonita, vaidosa, rica, desafiadora e inteligente. Tinha o perfil de mulher que causava muita inveja por onde fosse e suas ações incomodavam as pessoas erradas.

Eu precisava me infiltrar. Criar uma proximidade com ela e a oportunidade surgiu fácil. A senadora estava à procura de um secretário particular. Um assistente que a acompanhasse em eventos, cuidasse de sua agenda, alguém discreto e de confiança. 

Teria que ser alguém que se misturava fácil entre os políticos e eu tinha o perfil certo. Um homem jovem, que conseguia me passar pelo perfil profissional do bom rapaz, daquele tipo que tem ambições na carreira. Aquele perfil que ainda não descobriu que implantam essas ideias de meritocracia na nossa cabeça, apenas para nos convencer a trabalhar além das nossas funções e de graça.

O plano foi se desenhado com perfeição. Não precisei mudar meu nome, um bom assassino não deixa rastros e consequentemente não tem antecedentes criminais. Precisei apenas de um novo histórico escolar e referências falsas. Meu histórico profissional e acadêmico verdadeiro, nunca se encaixaria para esse cargo 

Quando meu currículo chegou às mãos dela, foi questão de dias até eu ser chamado para a entrevista.

E foi aí que tudo começou a sair do meu controle.

Sara me recebeu em seu gabinete, sem a formalidade que eu esperava. Era cedo, antes das oito, e pontualmente eu estava lá, esperando ser chamado. O sol aos poucos se mostrava, através dos  janelões, deixando o ambiente iluminado de uma forma quase suave. 

Eu estava pronto para ver uma figura rígida, fria como o poder exige que fosse. Mas quando a senadora apareceu, algo se quebrou dentro de mim.

A senadora não era como eu imaginava. Não só pela beleza, que era evidente, com o cabelo escuro caindo em ondas até os ombros e os olhos verdes que brilhavam como se estivessem sempre à espreita, prontos para descobrir um segredo. Mas pela forma como me olhou. Havia uma curiosidade nela que não era comum. Uma intensidade que me atravessou no segundo em que nossos olhares se encontraram.

– Senhor Marino, certo? – ela disse, estendendo a mão e nos lábios um leve sorriso que não alcançou seus olhos.

Me levantei rapidamente, com uma empolgação que eu não esperava demonstrar. Imediatamente arrumei minha postura e a cumprimentei, mantendo o profissionalismo. 

— Sim, sou eu senhora senadora. Rick Marino. É um prazer conhecê-la pessoalmente.

Entramos em seu gabinete, sentamo-nos, e ela começou a fazer perguntas sobre minha experiência. 

Eu tinha decorado cada resposta, cada detalhe das minhas habilidades inventadas. Era fácil manter a fachada, esconder as minhas verdadeiras intenções, eu treinei incansavelmente para esta entrevista todos os dias.

Mas nem tudo que eu dizia era mentira. Como alguém que escolheria o seu funcionário com ideias políticas compatíveis com seu jeito de governar, ela me perguntou sobre o que eu sabia sobre distribuição de verbas públicas, sobre o que eu achava disso.

É claro que eu sabia responder, fui um garoto criado com dificuldade por uma mãe solteira, me arrisco a dizer que eu sabia mais do que a senadora, sobre os impactos da corrupção na sociedade.

Essas perguntas chegaram a mexer comigo, relembrar tudo o que passei e o que estou passando por falta das oportunidades certas, quase me fez sair de meu personagem.

Nessa hora percebi que, a forma como eu me sentia naquele momento, não era aleatório, havia algo na forma como ela me observava que fazia eu me sentir vulnerável. Ela me dizendo sobre os seus ideais na política e sobre como ficava revoltada pelas verbas públicas nunca chegarem a quem precisa, era como se, de alguma forma, ela pudesse ver através de mim, enxergar o homem que eu realmente sou, alguém que foi encurralado e não teve outra alternativa, a não ser, entrar nessa vida. No fim, nossas revoltas eram parecidas, mas …

Eu estava ali para matá-la. Esse era o objetivo. Era a razão de cada movimento que eu fazia, de cada palavra que eu dizia. Mas conforme a entrevista prosseguia, eu me sentia incomodado com a ideia de cessar a vida daquela mulher. A paixão que ela tinha em querer mudar o mundo era contagiante e eu me perguntava, qual foi o momento exato que eu perdi isso.

Quando a entrevista terminou, eu sabia que ela tinha gostado de mim. Sara, com sua perspicácia política, havia me testado de várias formas, mas eu passei em todas. E então, quando estávamos nos despedindo, ela me pegou de surpresa.

– Há algo em você, senhor Marino – ela disse, com seu olhar cravado no meu. – Algo que me intriga, eu não deveria dizer isso, mas você tem algo diferente dos outros candidatos… Bem… boa sorte e espero que possamos trabalhar juntos no futuro.

Eu dei um leve aceno, tentando manter o controle do que parecia estar escapando por entre meus dedos. 

Saí do gabinete dela com um aperto no peito que eu não reconheci de imediato. Não era medo, nem ansiedade. Era algo que eu evitava há anos. Algo que eu não podia permitir que crescesse.

Era como se tivéssemos criado uma conexão imediata e eu estava me culpando muito por isso.

Acredito que em outra vida poderíamos nos dar bem, mas eu não posso desistir da minha missão. As mudanças que ela busca levam tempo e a mudança que eu preciso é para agora.

Espero que essa sensação no peito passe, pois eu não posso estar me apaixonando pela minha vítima.

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Comments

Jucileide Gonçalves

Jucileide Gonçalves

Ele não vai matar ela e pior vai ter que protegê-la e se proteger também.

2025-03-27

0

Dora Silva

Dora Silva

se ele cumprir com a ordem recebida com certeza vão mandar outro assassino

2025-01-04

0

Fatima Gonçalves

Fatima Gonçalves

SE ELE NÃO A MATAR OUTRO VEM EM SEU LUGAR E VÃO MATAR ELE TAMBÉM

2025-03-18

0

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