Capítulo 17 — Chefe da Masmorra

Eriel despertou lentamente, sentindo algo quente e reconfortante em seu colo. A sensação a envolvia como uma lembrança vaga, algo que ela sabia já ter experimentado, mas cujo momento exato lhe escapava. Ao abrir os olhos, viu Noir, ainda adormecida, seu rosto repousando tranquilamente. Havia algo de profundamente comovente naquela imagem—como se, apesar de sua aparência infantil, Noir tivesse carregado o peso do mundo enquanto Eriel estava desacordada.

Olhou ao redor. O ambiente em que se encontrava era diferente daquele em que havia perdido a consciência. Era claro que Noir a havia carregado para um local seguro, uma façanha notável, considerando o corpo adulto de Eriel, agora com 19 anos. "Provavelmente sou pesada demais para uma criança," pensou ela, sentindo um leve desconforto ao refletir sobre o esforço de Noir. Embora forte, Noir ainda possuía o físico de uma menina, e a ideia de que ela havia suportado esse peso físico, somado à carga emocional recente, era dolorosa.

Ao menor movimento de Eriel, Noir despertou. Seus olhos vermelhos e inchados eram um testemunho silencioso da dor que havia carregado. Era evidente que ela havia chorado—muito. Perder sua irmã havia sido devastador, mas ter seu mestre levado logo em seguida era um golpe quase insuportável. Eriel não conseguia sequer imaginar o peso desse sofrimento.

"Azrael…" A voz de Noir soou fraca, quase um sussurro, enquanto seus olhos marejados se fixavam no rosto de Eriel. A simples menção de seu nome carregava uma angústia palpável. Eriel compreendia. A perda do mestre para Noir não era apenas uma questão de afeto, mas uma ruptura na alma, uma desconexão que ela não sabia como curar.

"Não sinto a nossa ligação… O Az… Az…" Noir tentou continuar, mas sua voz falhou. Eriel mordeu os lábios, entendendo perfeitamente o significado por trás daquelas palavras. Para um familiar vinculado por alma, a ausência da conexão só poderia significar uma coisa terrível.

"Devemos voltar e pedir ajuda?" Eriel perguntou, tentando sondar a possibilidade, mesmo que soubesse que a decisão não seria simples.

Noir hesitou, buscando compor-se. "Se sim, não sei o que pode acontecer com os outros." Havia uma dor contida em sua voz, uma dúvida amarga. A ideia de retornar para buscar auxílio era racional, mas o tempo não estava do lado delas. Quem sabe quanto mais Azrael e os outros poderiam aguentar?

"O que podemos fazer?" Eriel murmurou, mais para si mesma do que para Noir.

"Não acho que possamos vencer oponentes tão poderosos… mas deve haver uma alternativa," Noir ponderou, sua mente claramente trabalhando em busca de uma solução. Ela encarou Eriel com determinação, como se estivesse agarrando a última centelha de esperança. "Você vai atrás deles?"

"Sim," respondeu Eriel, com mais convicção do que realmente sentia. Não era forte como Naara, nem tão habilidosa quanto Azrael, mas havia algo dentro dela—o poder sobre o 'Tempo'—que poderia ser sua vantagem. Ela teria que usá-lo sabiamente.

Noir suspirou, sua expressão se suavizando um pouco. "Se sua escolha é lutar, então vou ajudá-la." Ela estendeu a mão e, com um gesto fluido, abriu um espaço dimensional. De dentro, retirou uma espada negra, pesada e imponente. Eriel reconheceu imediatamente: era a espada de Azrael.

"Meu mestre não está aqui agora," Noir disse suavemente, seus olhos brilhando com um leve tom violeta. "Mas sinto que ele permitiria que você usasse essa espada em uma situação como esta."

Eriel hesitou. A espada diante dela era magnífica, uma arma de outro nível, algo que transcendia as simples espadas que ela havia conhecido. Mesmo a espada dourada que antes empunhara parecia trivial em comparação. Ela sabia, instintivamente, que aquela arma não era para qualquer um.

"Normalmente, você não poderia usar essa espada," continuou Noir, seus olhos fixos na lâmina. "Mas, dado o momento… Azrael permitiria."

Subitamente, algo mudou. Os olhos de Noir brilharam intensamente, e Eriel sentiu uma força se ativar ao seu redor. Uma voz ecoou suavemente em sua mente:

{Eu, Tsukuyome, permito que Eriel use meu poder.}

A espada respondeu ao chamado. Eriel sentiu sua mana sendo sugada pela lâmina, como se a espada estivesse provando de sua essência antes de aceitar o vínculo. O fluxo de poder era intenso, quase esmagador, mas também esclarecedor. Instruções e conhecimentos começaram a inundar sua mente, como se a espada estivesse transferindo a ela todo o seu vasto potencial.

"Ela responde a você," murmurou Noir, observando a cena. "A espada se adapta ao usuário. Basta que você deseje e ela mudará de acordo com sua vontade."

As informações continuavam a fluir na mente de Eriel. Ela soube, de imediato, que a espada negra tinha três formas. A primeira, a mais simples, era a que segurava. A segunda liberava o poder oculto da arma, e a terceira… era selada, restrita a um único usuário.

"Por que uma forma selada?" Eriel perguntou, sentindo uma estranha reverência pela arma.

"Você recebeu a permissão para usá-la, mas não é o verdadeiro mestre," explicou Noir, a voz tranquila. "Apenas Azrael pode liberar todo o seu potencial."

Houve um breve silêncio entre elas, até que Noir, com um olhar mais resoluto, completou: "Mas, por agora, essa espada pode ser nossa melhor chance de trazer todos de volta."

Eriel e Noir avançavam pelo corredor sombrio, dirigindo-se à entrada que Aion havia criado durante a luta contra Azrael. O caminho à frente era uma passagem para a sala do líder, onde Azrael e os outros os aguardavam. Uma mistura de expectativa e ansiedade a envolvia; o pensamento sobre a terceira forma da espada ecoava em sua mente, uma promessa de poder selado que poderia fazer toda a diferença.

Não há nada que eu possa fazer. Essa ideia a atormentava, mas a segunda forma da espada proporcionava uma confiança inigualável. Eriel agora compreendia que a habilidade nascente de Azrael era algo mais profundo; a espada utilizava o próprio poder do mestre. Então, esse é o motivo de Azrael usar uma das habilidades derivadas do ‘Tempo’... As peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar.

Com todas essas informações ressoando em sua mente, Eriel sentia que tinha um dever a cumprir: resolver a situação e trazer todos de volta.

“Noir… você acredita que posso vencer?” Sua pergunta estava carregada de incerteza, e a presença de Noir ao seu lado lhe dava um leve conforto. Contudo, ela sabia que Noir não era do tipo que mentiria apenas para agradar.

“Não… Azrael é a pessoa mais forte que eu conheço. No passado, não havia mortal que pudesse se comparar a ele em seu auge... mesmo com o selo em seu poder, ele é incrivelmente habilidoso. Ser pego desprevenido por um inimigo só revela o nível das habilidades do ser que enfrentaremos.”

As palavras de Noir ecoaram em sua mente, mas uma única palavra capturou sua atenção. “Selo?”

Eriel recordou que já ouvira Azrael mencionar algo sobre um selo, mas nunca tinha se interessado em aprofundar o assunto. Noir, percebendo sua curiosidade, continuou. “Ah, sim. Az tem dois selos em seu poder. Há muito tempo, ele perdeu o controle de suas habilidades e precisou da ajuda de seres com poder divino para ser detido. Um selo foi colocado sobre ele, restringindo 50% de seu poder. Depois, ele caiu em uma armadilha que resultou em ferimentos a um deus, e os deuses, furiosos, impuseram outro selo que cortou mais 50% de seu poder. Esse é o motivo pelo qual ele está contido agora.”

A mente de Eriel girou ao processar a revelação. Se o que estou vendo atualmente é apenas uma pequena parte do poder total do Azrael, quão forte ele realmente é? Essa pergunta reverberava dentro dela, acompanhada por um misto de temor e admiração.

“Sabe? Já conheci deuses, seres mitológicos, clones… até mesmo o dragão que existe dentro de você. Mas você… você é algo diferente. Única. Nunca encontrei alguém tão intrigante.”

A surpresa a atingiu, e Eriel não pôde evitar a curiosidade. “Espera, você conheceu Zoe?”

Noir a observou com um olhar de incredulidade. “Oh? Claro. Ela foi uma das responsáveis pela minha morte quando eu ainda era um deus. Após isso, reencarnei no corpo de uma garotinha frágil que estava à beira da morte. Foi quando o Deus Supremo me fez uma proposta irrecusável…”

A tristeza velada nas palavras de Noir a tocou, e Eriel não queria pressioná-la a reviver memórias dolorosas. “Me desculpe...” Ela murmurou, o coração apertando-se ao ver a expressão de Noir.

“Não se preocupe. O que passou, passou.” Noir respondeu, com um gesto de indiferença, mas Eriel podia ver a sombra de sua dor.

Era fácil esquecer que Noir, apesar de sua aparência jovem, carregava um passado pesado. Nesse momento, ela parecia mais sábia, mais velha do que o corpo que habitava. Um contraste que tornava Noir ainda mais enigmática.

“Parece que chegamos…” Noir interrompeu seus pensamentos, os olhos fixos à frente.

Diante delas, uma porta colossal de metal se erguia, com mais de três metros de altura, imponente e fria. Eriel hesitou por um momento antes de estender a mão. Ao tocar a superfície rugosa, a porta se moveu com um rangido profundo, como se o tempo a tivesse mantido fechada por eras.

Ao abri-la, uma vasta sala se revelava, iluminada por tochas que dançavam nas paredes de pedra. O ambiente emanava uma aura de poder antigo, pesada e quase sufocante, como se cada centímetro daquela sala contivesse segredos obscuros.

“Esse local…” Noir murmurou, sua voz baixa e reflexiva.

“Você conhece esse lugar?” Eriel perguntou, intrigada.

Noir balançou a cabeça em negação, mas a expressão de sua face revelava algo mais. “Não, apenas me parece familiar…”

Eriel hesitou à porta da sala, observando o espaço iluminado por tochas e os detalhes que a cercavam. Um trono de ouro se erguia no centro, e o ser que derrotara Azrael estava sentado nele, sua presença era opressiva. Ielong estava à direita do trono, enquanto Aion ocupava o lado esquerdo. E em sua frente, o Primeiro Ser que haviam encontrado anteriormente a encarava com olhos macabros, um sorriso de orelha a orelha que a fez tremer.

“vuk, deixe-a entrar...” A ordem ressoou pela sala, e o ser de sorriso grotesco se afastou, permitindo que Eriel se aproximasse lentamente do trono.

Enquanto caminhava, algo capturou sua atenção. Naara, Zenith, Naim e Sonne estavam ali, todos com correntes em mãos, parecendo inconscientes e vulneráveis. O coração de Eriel disparou.

“Imagino que seu desejo é levá-los. Isso não será possível.” A voz do ser sentado no trono distorcia-se em ecos sinistros, como uma praga corroendo tudo ao seu redor.

“Vou levá-los.” A afirmação saiu de seus lábios, mas a falta de confiança em suas palavras era evidente. Aion, com um olhar cético, a desafiou.

“Você vai? Me pergunto se isso é realmente possível...”

Desesperada, Eriel olhou ao redor, buscando por Azrael, mas ele não estava à vista.

“Ela deve estar procurando ‘Ele’...” vuk, o ser de sorriso macabro, finalmente falou, sua voz fria e penetrante como a lâmina de uma faca.

“Entendo... Garota, permitirei que seus amigos saiam desse local com vida, mas você desistirá de dois deles. Um é o garoto que estava com você mais cedo, e o outro é uma pessoa de sua escolha.”

O coração de Eriel afundou. Resgatar seus companheiros era sua prioridade, mas deixar alguém para trás estava fora de questão.

“Nunca! Não vou permitir que meus companheiros fiquem nesse local.” A determinação queimava em seu peito, mas o ser oculto sob a máscara sorria sarcasticamente, como se esperasse sua reação.

Ele se levantou do trono e aproximou-se, parando a poucos passos de distância. Seus olhos penetrantes fixaram-se em seu rosto, como se buscassem desvendar sua alma.

“Se você se ajoelha agora e aceita minha proposta, vou permitir que saia.”

Eriel sentiu o calor da indignação subir. “Foda-se!”

“Eu avisei.” O tom dele era gélido, uma premonição de que algo terrível estava por vir.

“Eriel!!” A voz agitada de Noir a fez olhar para ela instintivamente, mas ao fazê-lo, notou que Noir se afastava rapidamente.

No momento seguinte, uma dor lacerante a atravessou, como se mil facas a perfurassem ao mesmo tempo. Foi um golpe sem chance de reação, arremessando-a contra a parede. O peso em seu corpo era insuportável, como se estivesse presa sob uma rocha colossal.

“Já esperava algo assim de um ser tão fraco.” A voz do ser soou triunfante, preenchendo o espaço com sua arrogância.

Mesmo com a dor pulsando em seu corpo, Eriel percebeu algo em suas mãos. Uma máscara. Ao ser atacada, seu instinto a fizera agir rapidamente, e ela retirara a máscara de seu agressor.

Com dificuldade, Eriel levantou os olhos, e o choque a atingiu como um soco no estômago. “...!!!” Não conseguia acreditar no que via.

“Nem mesmo ao treinar por toda a sua insignificante vida, você poderia me derrotar.” A certeza do ser era esmagadora, e Eriel sentiu suas forças se esvaírem diante da brutal realidade.

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