Capítulo 6 — Mundo interno

Uma semana havia transcorrido desde que Eriel começara seu treinamento, mas, até o momento, ela não conseguia vislumbrar uma abordagem eficaz. A ideia de observar um pequeno relógio durante uma semana inteira parecia, na melhor das hipóteses, improdutiva. Na verdade, ela começava a considerar essa tarefa um tanto idiota. Nenhum avanço significativo havia ocorrido durante esse período, o que a fazia questionar a lógica por trás de tal método.

Inicialmente, Eriel havia imaginado que Azrael seria um mentor notável e que, em pouco tempo, ela experimentaria um avanço considerável sob sua orientação. No entanto, a atitude dele estava longe do que ela esperava. Ele passava a maior parte do tempo sentado sob uma árvore, apreciando a brisa serena, enquanto Eriel lutava para extrair algo útil da monotonia de observar um relógio.

A imensidão do campo aberto ao redor parecia a arena perfeita para treinamento, mas Azrael simplesmente desperdiçava o espaço, desfrutando de seu momento tranquilo. Os olhos de Eriel se voltaram novamente para ele. Azrael permanecia sentado, ao lado de Noir, quase indiferente ao "treinamento" dela. Ele mal parecia interessado em observar sua busca por progresso. A frustração e a dúvida começaram a dominá-la.

"É só isso?", pensou Eriel, desanimada. "Será que ele sequer pretende me treinar?"

A crescente inquietação dentro dela era irresistível. Eriel caminhou na direção de Azrael, decidida a descobrir o que estava acontecendo. Ao se aproximar, percebeu que os olhos dele estavam fixos nela e, por um instante, seus olhares se encontraram. Abandonando a revista que estava lendo, ele exibiu um sorriso suave enquanto acariciava Noir.

"Algum problema com o seu treinamento?", sua pergunta parecia carregada com uma dose sutil de curiosidade genuína. No entanto, o sorriso que ele exibia parecia estranhamente artificial, como se houvesse uma camada de desconforto por trás da expressão.

"Na verdade, sim. Sinto que meu treinamento não está levando a lugar algum", admitiu Eriel, sem hesitação.

A surpresa no rosto de Azrael não passou despercebida por ela, o que apenas intensificou sua sensação de que algo estava errado.

"Oh! Você acha?", ele respondeu, surpreso, e Eriel se perguntou por que ele parecia tão incrédulo com sua constatação.

De repente, a conversa foi interrompida por Noir, que emitiu um som baixo, quase como um grunhido, juntando-se à discussão. Era quase como se ela quisesse compartilhar sua opinião sobre o assunto. Azrael se virou para Noir, como se estivesse buscando sua aprovação.

"Noir, você acha que esse treinamento é sem sentido?", perguntou ele, considerando as palavras da garota como algo valioso.

"Vamos, Az, você realmente acredita que isso é suficiente?", respondeu Noir, num tom de leve desdém.

Azrael soltou um suspiro resignado, começando a ver o que Eriel estava tentando expressar.

"Então, o que eu deveria fazer? Algo semelhante ao primeiro teste que fiz quando era mais jovem?", ele perguntou, parecendo indeciso.

"Não! Ela não sobreviveria a isso", retrucou Noir, com uma clara expressão de preocupação.

Eriel observava a dinâmica entre os dois, sentindo-se por um momento como uma espectadora em uma conversa privada. Azrael e Noir pareciam tão sincronizados que era como se compartilhassem uma conexão que transcendia as palavras. Essa harmonia a fez sorrir por um breve instante.

"Eriel!", a voz de Azrael finalmente chamou sua atenção de volta à realidade. Ele agora parecia lembrar da presença dela ali. "Entenda, seu treinamento não se tratava de simplesmente observar um relógio", explicou ele, com paciência e seriedade em seu tom.

Eriel franziu o cenho, ainda confusa. "Então, o que era?", perguntou, genuinamente intrigada.

Azrael colocou a mão no ombro dela, fixando seu olhar no dela. "Paciência. Durante uma semana, você olhou para o relógio por várias horas, sem questionar o propósito disso."

A verdade começava a emergir, mas Eriel ainda lutava para entender completamente. "Mas eu achei que olhar para o relógio fosse inútil. Pensei que fosse apenas um teste de paciência."

Azrael sorriu levemente. "Sim, era um teste de paciência, mas não da forma que você pensou. Você nunca expressou frustração por realizar algo que parecia sem sentido."

Com um gesto casual, ele se aproximou de Noir. "Noir, pode explicar isso melhor?"

Noir olhou para Eriel, um brilho de compaixão em seus olhos. "O treinamento era sobre sua capacidade de suportar a incerteza. Não se tratava de aprender algo imediato, mas de testar sua habilidade de confiar no processo, mesmo quando o objetivo parece fora de alcance. Isso é parte do crescimento que você precisa."

A garotinha lançou um olhar caloroso em direção a Eriel. "Seu poder transcende os limites humanos. A paciência será sua maior aliada nesse domínio. O fato de você ter conseguido realizar uma tarefa aparentemente sem sentido, como observar um relógio por horas e até memorizar o tempo exato, mostra que está pronta para avançar."

A incredulidade ainda dominava Eriel. "Espera, vocês sabiam qual é o meu poder?"

Azrael interveio antes de Noir. "Sim. Seu poder é o controle sobre o 'Tempo'... a habilidade de manipular a própria percepção temporal."

Sua mente estava em turbilhão. Isso é impossível. Se ela realmente possuísse tal poder, alguma manifestação das Derivas temporais – habilidades secundárias decorrentes do poder principal – já deveria ter surgido.

"Isso não faz sentido! Se eu realmente tivesse um poder tão poderoso, pelo menos uma das Derivas temporais teria se manifestado."

Azrael revelou uma verdade inesperada. "Há uma razão para isso. Você ainda não estava pronta para acessá-las. Era algo que só poderia acontecer agora."

Ele estendeu a mão em direção a Eriel, e um círculo mágico singular formou-se em sua palma. Diferente dos círculos mágicos convencionais, este possuía um movimento anti-horário, lembrando um relógio, e emitia um brilho avermelhado. O círculo começou a girar no sentido horário, criando uma sensação de que uma barreira invisível dentro de Eriel se rompia.

"Eu não tinha intenção de treiná-la, mas parece que essa escolha foi retirada de mim. Agora você tem o direito de utilizar seu poder como desejar."

Uma sensação de quebra e libertação invadiu o peito de Eriel. Um pequeno e delicado núcleo mágico formou-se dentro de seu coração, fundindo-se harmoniosamente ao seu ser. A medida que isso acontecia, sua energia mágica foi absorvida por completo. Em resposta, uma aura branca pura começou a irradiar de seu corpo, envolvendo-a como uma armadura de luz. Era uma energia tão cristalina que parecia capaz de dissipar qualquer escuridão.

A aura continuou a condensar-se, formando um círculo mágico à sua frente, semelhante ao de Azrael, mas com um brilho branco deslumbrante. Os dois círculos colidiram, criando uma explosão de energia. O corpo de Eriel foi tomado por uma sensação de transformação; ela sentia a realidade ao seu redor se ajustar de forma sutil, mas profunda.

"Agora você pode usar seu poder de forma inconsciente", afirmou Azrael, "mas logo aprenderá a controlá-lo conscientemente."

Ele fez surgir uma pequena bola de fogo na mão, que se transformou em uma lâmina de chamas negras. O poder contido naquele simples gesto era inegável, uma amostra do imenso controle que Azrael possuía.

Azrael então avançou, brandindo a lâmina em um corte vertical em direção ao pescoço de Eriel. A velocidade do ataque era impressionante, e, por um momento, parecia impossível escapar. No entanto, algo surpreendente ocorreu: o ataque desacelerou. O movimento tornou-se tão lento que Eriel conseguiu desviar facilmente.

Sua movimentação foi fluida, quase natural, algo que ela jamais teria conseguido antes. Azrael pareceu se divertir com sua reação, os olhos brilhando de animação.

Ele repetiu o ataque, mas dessa vez Eriel percebeu algo ainda mais extraordinário. Seus movimentos se mantinham normais, enquanto o tempo ao redor dela parecia desacelerar novamente. A lâmina de fogo passou exatamente onde ela estava momentos antes.

"Você percebeu?", questionou Azrael, com uma satisfação evidente.

Eriel estava visivelmente surpresa. Eu realmente desviei daquele golpe? Aquilo parecia impossível com suas habilidades atuais. Mesmo com anos de treino, ela jamais conseguiria evitar um ataque tão rápido.

"Isso foi..." começou ela, ainda processando a situação.

Azrael sorriu, dessa vez genuinamente. "Esse foi o resultado do seu poder sobre o Tempo se ativando no momento em que você sentiu perigo."

A compreensão começou a tomar forma na mente de Eriel. Azrael havia criado uma situação de risco controlado para despertar sua habilidade, e o tempo, de fato, havia desacelerado para que ela pudesse reagir.

Apesar disso, uma questão inquietante persistia. "Eu poderia ter morrido", murmurou, tentando assimilar a gravidade do que acabara de acontecer. O golpe de Azrael visava seu pescoço – um alvo vital. Se ele a tivesse atingido, poderia ter sido fatal. Uma mistura de maravilha pela descoberta de seu poder e de inquietação por ter estado tão próxima da morte a dominava.

Azrael, no entanto, não hesitou, virando sua atenção para Noir. Ela permanecia calma. Eriel prendeu a respiração. Aquilo era uma ilusão?

Em um movimento ágil, Azrael ergueu sua mão, conjurando novamente a lâmina de fogo negro, cortando o corpo de Noir ao meio. Um grito de angústia escapou dos lábios de Eriel, mas sua preocupação logo se dissipou ao ver que  estava intacta – e sorrindo.

"Noir!", exclamou, correndo até ela, com o coração ainda disparado.

Noir lançou-lhe um sorriso sereno, como se quisesse tranquilizá-la. "Não se preocupe, Eriel. Essa lâmina de fogo não corta nem queima."

A confusão de Eriel só aumentou. "Como isso é possível? A lâmina parecia tão real…"

Azrael aproveitou a oportunidade para esclarecer. "É simples. Eu tenho controle completo sobre as chamas. Minha magia pode ser inofensiva se assim eu desejar."

A lâmina de fogo se desfez no ar, e Azrael voltou a falar, sua expressão agora mais séria. "Mas isso não é o mais interessante. Continuaremos."

Antes que Eriel pudesse reagir, Azrael desapareceu de sua frente e, num piscar de olhos, reapareceu a cerca de um metro de distância. A velocidade dele era desconcertante, mas, como antes, o tempo ao redor de Eriel parecia desacelerar. Tudo parecia acontecer de maneira mais lenta do que o normal.

"Essa é a habilidade mais importante do seu poder", explicou Azrael. "O 'Tempo Congelado'. Esta é sua habilidade mais poderosa, mas ela exige uma quantidade enorme de mana e estamina. Por isso, você precisará treinar em um lugar que permita o uso ilimitado."

Eriel tentava absorver todas essas novas informações. A ideia de controlar o tempo parecia algo irreal, mas ali estava ela, experimentando seu próprio poder em ação. Congelar o tempo…? Era algo que transcendia até mesmo os maiores feitiços que ela conhecia.

"Então, você quer que eu treine minha capacidade de mana?", perguntou ela, ainda processando a magnitude do que lhe era proposto.

Azrael, com um sorriso discreto, respondeu: "Você já percebeu sua mana?"

Eriel suspirou, resignada com o que viria a seguir. "Tudo bem…"

Azrael aproximou-se novamente, mais sério desta vez. "Você não precisará de sua própria mana para o treinamento. Temos um lugar especial para desenvolver esse tipo de poder."

Eriel não sabia ao certo o que Azrael tinha em mente, mas decidiu confiar nele mais uma vez. O simples fato de ter sua mana aumentada instantaneamente já era algo surreal para ela. Agora, descobrir que sua habilidade nascente era o controle do Tempo, uma das três habilidades primordiais, era algo que ela ainda não sabia como processar.

"Pode sentar no chão por um momento? Vamos aproveitar a sombra", pediu Azrael calmamente.

Obedecendo, Eriel sentou-se no chão. Azrael posicionou-se atrás dela, e, com um gesto suave, pousou sua mão sobre as costas dela. Noir, silenciosa, sentou-se ao lado de Azrael e também colocou sua mão nas costas de Eriel, fechando os olhos.

Imediatamente, Eriel sentiu a mana de ambos fluindo por todo o seu corpo. Uma sensação reconfortante e poderosa a envolveu, como se suas energias estivessem fundindo-se com a dela. Ela tentou se concentrar em receber aquela mana, canalizando-a de forma gradativa, ajustando-a para que se tornasse compatível com seu próprio corpo. Uma sensação de harmonia e expansão mágica começou a tomar conta de seu ser.

Eriel fechou os olhos, tentando se concentrar.

***

Ao abrir os olhos naquele vasto campo cercado por montanhas, Eriel sentiu uma conexão profunda com o lugar. O ar pulsava com uma energia antiga, algo que a fazia acreditar que já estivera ali antes, embora suas memórias fossem vagas. Diante dela, uma gigantesca árvore emanava uma quantidade quase infinita de mana, e o sentimento de familiaridade a envolvia.

Enquanto tentava entender o que significava estar naquele lugar, uma lembrança distante surgiu em sua mente — um sonho fragmentado, um vislumbre de algo que já havia presenciado. Mas agora tudo parecia mais real. Algo importante estava ali, e esse pensamento fez seus olhos se arregalarem.

"Dragão," murmurou ela, e, como se a palavra tivesse despertado uma presença oculta, sentiu-se observada. Lá, entre os raios de sol que iluminavam a paisagem, viu os olhos atentos de um majestoso dragão branco. Ele a observava com curiosidade, mas não de forma ameaçadora; havia sabedoria e ternura em seu olhar.

O dragão branco esboçou um sorriso gentil, e sua voz reverberou como uma canção que soava profundamente na alma de Eriel. "Chegou Finalmente o momento."

Aquelas palavras ecoavam em sua mente, trazendo consigo memórias que pareciam adormecidas. O som da voz dele ativava algo enterrado profundamente em sua consciência, como se estivesse se aproximando de uma verdade há muito esquecida.

"Bem-vinda!" continuou o dragão, sua voz tão poderosa quanto acolhedora. "Estarei cuidando de você por um tempo."

Eriel estava em choque. Ali estava ela, diante de um ser que parecia ser divino, mas que a tratava com carinho e reverência. As palavras do dragão ecoavam dentro dela, fazendo-a sentir-se pequena e, ao mesmo tempo, parte de algo grandioso.

Com passos graciosos, o dragão começou a caminhar na direção de Eriel, sua aura majestosa preenchendo todo o espaço ao redor. Ele parecia irradiar uma energia etérea, algo quase palpável. Cada movimento dele era como se o próprio universo estivesse em sintonia.

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