Capítulo 2 — Azrael

O cabelo castanho, levemente ondulado, cobria parte de seus olhos verdes penetrantes, que observavam a cena de maneira inexpressiva. Seus traços, marcados por uma beleza sombria, eram envoltos por uma aura de mistério. Ele dirigiu seu olhar para a pequena garota que havia se aproximado com os doces e, em seguida, voltou a atenção para Eriel.

“Vejo que você encontrou alguém enquanto fazia sua viagem até a cozinha…” A voz  era, calma e suave, carregava um tom enigmático, revelando uma leve curiosidade.

“Tive dificuldades em trazer tudo, então ela se ofereceu para me ajudar,” respondeu a jovem garota, com um sorriso gentil.

“Se ofereceu? Noir, você não deveria incomodar as pessoas.”

Ele acariciou delicadamente a cabeça da menina, transmitindo conforto e segurança à garota. Seu toque era suave e carinhoso, como se possuísse um talento natural para acalmar os outros.

A pequena, com os olhos marejados, parecia sentir-se culpada por algo. Ela lançou um olhar confuso para seu amigo e perguntou: “Fiz algo errado?”

Com um sorriso reconfortante, ele tentou acalmá-la. “Não, você não fez nada de errado. Eu só estou dizendo que... não é nada.”

Enquanto suspirava, os olhos dele se fixaram em Eriel. Ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo, como se a intensidade do olhar a envolvesse. Havia algo mais naquele primeiro encontro, algo inexplicável e profundo.

A pequena, ao perceber a troca de olhares entre o garoto e Eriel, entregou um dos doces ao jovem, mostrando um pouco mais de animação. Um leve sorriso apareceu no rosto de Eriel ao recordar que foi ela quem o havia acordado.

“Quer sentar? Não é um espaço especialmente confortável para descansar, mas é agradável… tem um clima ótimo e é possível até mesmo dormir.”

Normalmente, Eriel não aceitaria uma oferta dessas, pois poderia estar interrompendo algo. No entanto, decidiu fazer uma exceção. Não tinha certeza sobre sua maneira de agir, mas, naquele momento, nada importante a aguardava.

“Eu aceito o seu convite,” respondeu Eriel. Ela se acomodou um pouco afastada, observando a pequena saborear seus doces. Uma sensação estranha tomou-a. Não conseguia entender exatamente o que estava acontecendo, mas observar os dois a fazia sentir uma tranquilidade inesperada. Era como se já tivesse vivenciado algo parecido antes, embora não conseguisse recordar desse momento.

“Então, você chegou hoje, certo?” indagou.

“Oh? Sim,” respondeu Eriel, surpreendida por falar algo, já que parecia indiferente à sua presença.

“Entendo, me perdoe por não te receber,” acrescentou.

Eriel não estava incomodada; ela imaginou que, ao dormir naquele local, ele estivesse provavelmente cansado. Não esperava que alguém interrompesse seu sono apenas para a receber. Na verdade, ela se sentiria incomodada com o contrário.

Foi então que Eriel lembrou de algo importante. “Eu ainda não me apresentei, certo?” disse, decidindo que era hora de se apresentar.

“Sou Eriel, e ficarei aqui por um ano,” completou.

“Sim, eu sei,” respondeu o jovem, demonstrando conhecimento sobre sua chegada à mansão. Não deveria ficar surpresa com suas palavras; afinal, era de conhecimento geral que ela viria.

“Bom, é um prazer. Eu me chamo A-”

Antes que pudesse concluir sua apresentação, a voz de Alice interrompeu a conversa. Noir, que até então estava concentrada em seus doces, desviou o olhar com desânimo na direção em que Alice apareceu. A garota passou por Eriel sem sequer a notar, focada em Noir e no jovem.

“Você chegou e não foi se apresentar. Você entende o quão rude isso é?” repreendeu Alice.

Ele permaneceu em silêncio, mas Eriel pôde perceber uma mudança repentina em seu olhar, indicando um certo irritamento.

“Devo lembrar quem manda aqui? Normalmente, poderia fazer isso se fosse um assunto do meu interesse... É assim que pensa?” rebateu, retirando gentilmente Noir de seu colo e se aproximando de Alice.

A tensão no ar era palpável, e Eriel se encontrava no meio daquela disputa silenciosa. Era evidente que havia algo além do que ela conhecia acontecendo entre eles, e estava prestes a descobrir o que estava por trás daquela aparente rivalidade.

A voz dele não emanava nenhum tom de ameaça, mas Alice deu de ombros por um momento, prestes a continuar sua repreensão. No entanto, o jovem colocou gentilmente os dedos nos lábios de Alice, sinalizando sua intenção de impedi-la de falar mais.

“Você não deveria falar mais do que o necessário…” disse, olhando em direção a Eriel. Alice seguiu seu olhar e finalmente notou a presença de Eriel.

“Estava prestes a me apresentar antes de você chegar...” Alice suspirou. Ela não parecia surpresa com as ações de Azrael e percebeu seu próprio erro.

“Me desculpe, Az. Não notei a situação...” lamentou Alice, um tanto desanimada.

“Bom, não tem importância,” respondeu, voltando ao seu lugar inicial e permitindo que Noir se sentasse em seu colo novamente. Era evidente que Noir não se importava com o que estava acontecendo ao seu redor.

“Como eu estava dizendo, eu sou Azrael...” começou Azrael, mas foi interrompido por uma lembrança repentina. “Isso me lembra... Onde está Zenith? Ela não avisou sobre minha volta?”

“Sim, mas você esqueceu de informar o local onde estaria, então passamos um tempo te procurando,” explicou Alice.

“Foi um erro meu, mas me deu a oportunidade de dormir um pouco,” respondeu Azrael com um sorriso fraco, como se suas palavras fossem uma piada. Ele era um pouco diferente do que Eriel havia imaginado. Seu irmão lhe contou que Azrael era habilidoso em diferentes estilos de luta e que sempre estava treinando durante a infância, o que levou Eriel a imaginar Azrael como alguém forte e imponente. No entanto, o que ela via agora era um jovem aparentemente comum.

“Devemos sair? Ou você ainda quer descansar?” perguntou Alice.

“Não é necessário. Já descansei o suficiente,” respondeu Azrael.

“Você deveria entrar e comer algo. Sua viagem foi cansativa, e eu imagino que comer doces não seja nutritivo,” sugeriu Alice.

Azrael, a pessoa que seria responsável pelo treinamento de Eriel, estava diante dos seus olhos. Ele era considerado o mais habilidoso na facção humana e agora seria seu novo professor.

“Verdade, amanhã começa o treinamento... Não ficaria entediado por um tempo, eu imagino...” refletiu Azrael, antecipando os desafios que teria pela frente.

Desde que ouviu falar de Azrael, Eriel sentiu que ele seria um homem cuja força seria evidente apenas de olhar para ele. Percebeu que ainda tinha muito a aprender e crescer. Ele era conhecido como o mais forte, e ainda não havia testemunhado sua verdadeira força.

Após a conversa, Eriel voltou para o seu quarto e decidiu arrumar suas malas. Seu treinamento só começaria no dia seguinte, então ela tinha algum tempo livre. Pensou em visitar a biblioteca, já que estava interessada, mas decidiu deixar isso para outro momento.

Depois de arrumar tudo, ela foi para o jardim. Seu objetivo era terminar o livro que estava lendo antes de chegar à mansão. A história não era tão interessante, mas o autor era bem conhecido e o livro era difícil de encontrar. Com a ajuda das conexões de seu irmão, conseguiu uma das poucas cópias disponíveis.

O jardim parecia um lugar tranquilo, mas para sua surpresa, Eriel notou uma pessoa lá. Era a mesma garota que tinha falado com Alice mais cedo. Zenith, se ela se lembrava corretamente.

Zenith segurava um arco e mirava em um alvo distante. Com precisão, ela disparou uma flecha, e mesmo à distância, Eriel pôde ouvir o som do impacto da flecha atingindo o alvo. A destreza com que Zenith manuseava o arco era impressionante, e a precisão de seus disparos parecia demonstrar um domínio absoluto sobre a arma. Eriel se sentiu intrigada com a habilidade da jovem e decidiu observá-la por mais um tempo, maravilhada pela tranquilidade e pelo foco com que Zenith praticava.

Decidida a não incomodá-la, Eriel começou a se afastar, mas notou que Zenith estava a observando. Zenith guardou seu arco em um suporte e se aproximou.

"Eriel, certo?" ela perguntou.

"Sim..." respondeu Eriel. Sua presença era um assunto conhecido, afinal.

"Ouvi dizer que Azrael será responsável pelo seu treinamento."

"Sim. Meu irmão disse que ele é o melhor usuário de habilidade nascente do mundo e que ele poderia me ajudar a descobrir a minha própria habilidade... Eu ainda não sei qual é."

Normalmente, Eriel consideraria esse assunto delicado, mas falou sobre isso com uma naturalidade que a surpreendeu um pouco.

"Eu entendo... Não sei se Azrael será capaz de ajudá-la. Isso depende apenas de você. Mas se você confiar nele, encontrará o conhecimento necessário."

Eriel sabia que quanto mais forte fosse uma habilidade nascente, mais difícil seria controlá-la. Portanto, acreditava que sua habilidade nascente deveria ser consideravelmente poderosa, já que ainda não a descobrira. Havia também uma pequena chance de não ter uma habilidade nascente. As chances eram menores do que as de uma pessoa ter duas habilidades nascentes, mas não eram impossíveis.

"Seu controle de mana é bom. Não consigo sentir sua mana, mesmo estando ao seu lado," disse Zenith, observando-a atentamente.

Eriel explicou a Zenith que já havia recebido treinamento sobre o controle da sua mana e que seu irmão, Ethan, havia sido seu mentor. Zenith pareceu surpresa com isso.

"Com seu irmão, você quer dizer Ethan?" ela perguntou.

"Sim. Você o conhece?" indagou Eriel.

Zenith sorriu em resposta. "Bom, ele é o líder da facção humana; seria difícil não conhecê-lo. Posso dizer que ele tem algumas relações com essa família..."

Houve uma breve pausa antes que Eriel continuasse. "Mesmo com essas relações, eu nunca ouvi falar sobre vocês até o momento em que fui enviada para cá."

Zenith inclinou a cabeça levemente para o lado.

"Oh? Talvez ele tenha apenas se esquecido de mencionar?" sugeriu Zenith. Sabia que Ethan, às vezes, era um pouco distraído. Exceto quando se tratava de assuntos relacionados à facção.

"Sim, talvez seja isso. Eu também prefiro pensar assim," respondeu Eriel.

"Observe pelo lado bom, Azrael é um ótimo treinador, e você está em boas mãos," ela acrescentou antes de voltar para pegar seu arco e se preparar para sair do local.

"Você parece ter confiança nas habilidades dele," comentou Eriel.

Zenith parou de caminhar e, de costas para Eriel, respondeu: "Ele treinou apenas algumas pessoas, mas todas elas se tornaram extremamente fortes. Você pode confiar. Eu sou uma delas."

Em seguida, Zenith colocou uma flecha em seu arco e, sem olhar para Eriel ou para o alvo, disparou.

Bum!

A flecha atingiu o alvo com precisão.

"Não se preocupe, ele é um bom professor. Eu posso acertar qualquer alvo, não importa a distância, graças ao seu treinamento. Isso não tem nada a ver com a minha habilidade nascente," afirmou Zenith.

Eriel ficou sem palavras, apenas observando Zenith sair do local. Ela já havia ouvido muito sobre as habilidades de Azrael, mas sempre achou que fossem apenas rumores. Mesmo depois de demonstrar um pouco de confiança em suas habilidades, nunca imaginou que ele pudesse ser alguém tão poderoso como diziam os boatos.

"Pensei que minha forma de pensar estivesse limitada... Será que me enganei? Talvez as habilidades de Azrael não sejam apenas rumores," refletiu em silêncio.

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Comments

Kamily Almeida

Kamily Almeida

não estou entendendo nada!

2024-10-21

0

Kamily Almeida

Kamily Almeida

ué eles não iam jantar?

2024-10-21

0

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