Capítulo 8 — Espadas do Sol e da Lua

Eriel foi lançada violentamente a quase dois metros de distância, seu corpo chocando-se contra o chão com uma força brutal. Antes que pudesse reagir, um chute atingiu seu estômago, e o impacto fez com que o solo sob seus pés se rachasse, formando uma pequena cratera ao redor de seu corpo. O som da terra se quebrando foi abafado pela ausência de dor.

No entanto, Eriel não sentia nada, nem mesmo o desconforto esperado. O mundo interno não permitia que seu usuário sofresse ferimentos reais, e ela era grata por essa peculiaridade. Não posso me machucar aqui… O pensamento ecoava em sua mente como um lembrete reconfortante. Levantou-se calmamente, ignorando as rachaduras no chão sob seus pés e encarou o boneco de mana que a atacava incessantemente.

O objetivo do treinamento era claro: aprender a dominar completamente sua habilidade enquanto controlava sua mana de forma eficiente. Seria fácil… se não fossem os malditos bonecos de mana, pensou ela, irritada. O exercício de concentração exigia foco extremo, algo quase impossível quando ataques vinham de todos os lados sem descanso.

Ela estreitou os olhos, concentrando-se em apenas um dos bonecos, aquele mais próximo. Respirou fundo, buscando a serenidade necessária para acessar sua habilidade. Quando se sentiu preparada, avançou com rapidez, ativando sua técnica. “Lorde do Tempo.”

O mundo ao seu redor congelou por um breve segundo, como se a realidade tivesse sido colocada em pausa. Isso foi o suficiente para que ela se movesse com precisão até o boneco. Mas os outros bonecos, ao perceberem sua intenção, formaram uma barreira defensiva. Com a segunda ativação da habilidade, um novo segundo de pausa foi concedido, e Eriel atravessou a barreira com destreza.

Sua lâmina de mana cortou o boneco com precisão, decapitando-o. Mas antes que pudesse saborear sua vitória, outro golpe a atingiu pelas costas, jogando-a novamente para longe. Enquanto voava pelo ar, ela reorganizou seu corpo, tentando aterrissar de forma controlada. Todavia, ao tocar o solo, seu equilíbrio falhou, e ela começou a rolar desajeitadamente.

“Droga!” murmurou com frustração, enquanto seu corpo deslizava pelo chão. Se fosse no mundo real, teria quebrado algumas costelas agora. Ela agradeceu silenciosamente pela proteção oferecida pelo mundo interno.

“Já chega!” A voz de Zoe ecoou pelo ambiente, e os bonecos de mana pararam instantaneamente, como soldados obedecendo a uma ordem superior. Zoe observava com interesse, seus olhos brilhando de satisfação.

“Foi interessante assistir à luta… Digamos que você fez algum progresso,” comentou ela com um sorriso travesso, lançando um olhar ao boneco decapitado.

Três semanas haviam se passado desde o início do treinamento de Eriel, e apenas hoje ela conseguira derrotar um dos bonecos de mana. Nas primeiras semanas, ela aprendeu os fundamentos do mundo interno e, eventualmente, conseguiu usar o “Lorde do Tempo”. No entanto, a técnica ainda era incrivelmente difícil de manter, e o consumo de mana era exorbitante. Um simples segundo de ativação drenava uma quantidade de energia que, no mundo real, a deixaria exausta.

“Você não pode diminuir a dificuldade dos bonecos, nem que seja um pouco?” Eriel perguntou, a voz carregada de cansaço. Zoe riu suavemente ao ouvir o pedido.

“Fufufu... Claro que não. Isso seria entediante! Além disso, onde estaria a diversão? É sempre um espetáculo assistir você sendo espancada e ver suas roupas se rasgando durante a luta.”

Foi apenas nesse momento que Eriel percebeu o estado de suas vestes. Partes do tecido estavam rasgadas, expondo mais de seu corpo do que ela gostaria. Com um simples estalar de dedos, Zoe fez as roupas de Eriel se restaurarem, como se nada tivesse acontecido.

“Poderia pelo menos criar roupas mais resistentes? Não é exatamente animador lutar enquanto fico quase nua cada vez que sou atingida,” ela protestou, ajeitando-se.

Embora normalmente sentisse vergonha por estar em tal situação, Eriel sabia que Azrael não tinha o menor interesse em sua aparência naquele estado. Ele raramente a observava quando suas roupas se rasgavam, como se fosse um detalhe insignificante para ele.

Ela podia suprimir suas emoções com a habilidade do "Tempo", uma técnica que lhe permitia manter a calma em situações extremas. Contudo, havia uma parte sombria nesse controle: a cada uso contínuo, ela sentia que sua humanidade se desvanecia um pouco mais.

Eriel olhou para Azrael, que, como de costume, estava deitado em uma cadeira, parecendo entediado enquanto Noir trançava seus longos cabelos, os movimentos delicados e repetitivos.

“É frustrante quando ele não te observa?” Zoe perguntou, percebendo o olhar fixo de Eriel.

Ela suspirou, cansada. “Não é bem isso… Tenho certeza de que ele estava observando minha luta antes.”

Ainda que não demonstrasse, Eriel sentia o desejo crescente por conselhos de Azrael. Ele havia mostrado o uso da técnica "Lorde do Tempo" com uma facilidade desconcertante, algo que ela só poderia sonhar em alcançar. Suas orientações seriam inestimáveis, mas, no fundo, ela sabia que ele não estava verdadeiramente interessado em seu treinamento. E isso, mais do que os golpes que recebia, era o que realmente a incomodava.

"Quer uma demonstração de novo?" Zoe perguntou, interrompendo seus pensamentos.

"Não... Só achei que ele seria o responsável por me treinar ou ao menos me dar algumas dicas, mas isso não aconteceu..." Eriel respondeu, desanimada.

Zenith havia mencionado como Azrael era habilidoso ao treinar alguém, mas até agora, ela não havia recebido nenhuma orientação concreta. Em meio ano acontecerá o evento de entrada na facção humana. Ela precisava estar pronta. Se não conseguisse uma boa nota na exibição, poderia perder sua chance de ingressar na facção naquele ano.

"Você... Bom, há uma ligação entre vocês dois, então talvez isso seja parte da razão," Zoe comentou com um sorriso enigmático.

"Ligação? Que tipo de ligação?" Eriel questionou, intrigada.

"Deixando isso de lado... Az!" Zoe decidiu mudar o foco da conversa e chamou Azrael, que estava relaxado à distância. Ele se levantou lentamente e caminhou até elas, parecendo tão desinteressado quanto antes. Ao menos Noir havia terminado de trançar seus cabelos.

"Az, o que acha do desempenho da Eriel? O que ela está fazendo de errado ao usar o ‘Lorde do Tempo’?" Zoe perguntou, curiosa.

Azrael parou por um momento, refletindo. "Bom, eu diria..." Ele hesitou por um instante antes de continuar. "Ela está muito focada no uso habitual de mana. O mundo interno é diferente. É um lugar de treinamento, mas você está limitando sua habilidade à quantidade de mana que tem no mundo externo. Por isso, consegue usar a habilidade por apenas um segundo. Mas, se esquecer essa limitação e tentar usar toda a mana disponível aqui, poderá quebrar esse limite."

Então, é a minha própria ignorância que me impede. O raciocínio de Eriel começou a clarear.

"Você entendeu?" Azrael continuou. "Precisa parar de pensar na quantidade de mana que tem. Use a mana que o mundo interno oferece, não, a que você possui no exterior."

Zoe sorriu maliciosamente ao ouvir a explicação, o que fez Eriel sentir um arrepio. Ela já previa que algo ruim estava por vir. "Vamos realizar uma pequena experiência."

"Az, por que você não luta com Eriel e vai dando dicas durante o combate? É a melhor maneira de aprender," Zoe sugeriu, animada.

"Lutando? Sério?" Eriel suspirou. "Apanhando não parece ser o melhor método de aprendizado."

Zoe ignorou o protesto de Eriel e continuou: "Ela aprenderá muito mais com alguém que já participou de várias guerras."

Azrael deu de ombros. "Se você estiver bem com isso, Eriel..."

Ela hesitou, mas respondeu com um suspiro. "Se não tentar me matar, acho que posso considerar..."

Por uma semana, Eriel havia lutado contra bonecos de mana que poderiam facilmente tê-la matado no mundo real, mas o mundo interno a protegia. Talvez um treinamento mais tranquilo fosse melhor agora.

"Claro, não vou tentar te matar. E também não destruirei suas roupas," Azrael disse com um sorriso irônico.

"E-Ei, não foi minha intenção! Foram os bonecos, os bonecos!" Zoe se defendeu, percebendo o olhar ameaçador de Azrael.

"Sim, claro. Os bonecos não estavam focados em destruir as roupas dela, certo?" ele provocou, e Zoe apenas deu de ombros.

"Vamos fazer uma aposta então?" O sorriso malicioso de Zoe voltou, junto com seu brilho habitual.

Azrael arqueou uma sobrancelha. "O que você sugere?"

"Lute com Eriel. Se ela conseguir manter o 'Lorde do Tempo' ativo por mais de dez minutos, você terá que lutar comigo," Zoe disse, cheia de confiança.

"Se ela não conseguir, você a levará ao seu mundo," completou.

Azrael sorriu, aceitando o desafio. "Feito! Mas, na nossa luta, você terá que usar a mesma roupa que a Eriel está usando agora. Combinado?"

O sorriso de Zoe desapareceu imediatamente, e seu rosto empalideceu. Ela entendeu rapidamente o que Azrael planejava. "V-Você tem certeza? Sou um dragão lendário, não pode me vencer tão facilmente."

"Não se preocupe, confio na minha força," Azrael respondeu, despreocupado.

"Isso não é sobre força! Você só quer destruir minhas roupas, pervertido! Eriel, diga a ele que isso é uma péssima ideia!" Zoe exclamou, olhando para Eriel com olhos suplicantes.

Eriel deu de ombros, escondendo um pequeno sorriso. "A aposta foi entre você e ele, Zoe. Não tenho como interferir."

"Tu-Tudo bem... Tudo bem!" Zoe bufou, claramente aborrecida, enquanto Azrael ria suavemente. Ele começou a caminhar em direção a uma área aberta para iniciar o treinamento.

Antes que Zoe pudesse murmurar uma ameaça, Azrael respondeu com tranquilidade: "Pode contar para Legion o que quiser. Não vai mudar nada."

Zoe ficou em silêncio, mas o brilho malicioso em seus olhos indicava que, apesar do desconforto, ela ainda estava tramando algo.

"Ele vai querer ver essa cena nas minhas memórias, com certeza."

"Maldito... Você está certo... Odeio vocês, meninos!" Zoe resmungou antes de voltar ao seu lugar. Agora, era minha vez de encarar Azrael. Ele estava na minha frente em uma postura defensiva, aguardando meu movimento.

"Começamos agora? Sem nenhum descanso?" perguntei, sentindo o peso da expectativa.

"Não há necessidade de descansar no mundo interno," ele respondeu com indiferença.

É verdade, não fico cansada aqui, mas uma pausa seria agradável... Ponderei enquanto assumia uma posição defensiva, observando-o. Azrael não parecia interessado em tomar a iniciativa, e, mesmo que permanecesse na defensiva, eu sabia que não conseguiria derrotá-lo. Sua postura parecia impenetrável, sem brechas.

Esse treino vai ser pior do que lutar contra os bonecos, pensei, frustrada.

Como eu não fazia o primeiro movimento, Azrael lentamente saiu de sua posição defensiva, e, para minha surpresa, começou a tirar as luvas negras que sempre cobriam suas mãos. Eu sempre me perguntei por que ele as usava. Não parecia ser para algo tão trivial como cuidar das plantas na estufa. Mesmo aqui, no mundo interno, ele nunca as removia. Finalmente, ele as tirou, revelando algo que eu jamais esperava ver.

Nas costas de suas mãos havia dois símbolos. O primeiro, na mão direita, era uma lua com uma pequena runa vermelha gravada abaixo. Uma ligação de alma. O segundo símbolo, na mão esquerda, era um sol, também com a runa correspondente. Duas ligações de alma.

Eu mal conseguia acreditar no que estava vendo. A runa de ligação de alma era uma magia antiga e proibida, um contrato eterno entre servo e mestre. Se um deles morresse, o outro também. Um verdadeiro risco para ambos, e poucos ousariam realizar tal vínculo. Além disso, não havia limites de poder ou força nesse tipo de ligação, o que significava que Azrael compartilhava algo poderoso com seus servos.

Mais surpreendente era o fato de haver dois símbolos. Isso significava que ele tinha dois servos, e ambos deviam ser extremamente fortes para seus símbolos de alma aparecerem junto às runas.

"É hora de mostrar um pouco da verdade..." Azrael disse calmamente, sua voz carregada de confiança. "Decidi ir com tudo."

Senti um arrepio ao ouvir suas palavras. O que eu imaginava ser um treino leve estava prestes a se transformar em algo muito mais sério. Azrael ergueu as mãos, e, de repente, um portal dimensional se abriu diante dele. Com um movimento firme, ele retirou duas espadas do espaço, e eu mal conseguia processar o que via.

A primeira espada tinha uma bainha dourada adornada com pedras preciosas, e o cabo de couro branco parecia encaixar-se perfeitamente em suas mãos. A segunda espada, completamente negra, desde a bainha até o punho, emanava uma aura sombria.

Com um movimento fluido, ele retirou as bainhas das espadas, deixando-as cair no chão. A lâmina dourada estava coberta de runas vermelhas e tinha o mesmo símbolo do sol que estava gravado na mão esquerda de Azrael. A lâmina negra, por sua vez, tinha runas violetas e o símbolo da lua.

"Desperte," ele disse, sua voz baixa, mas firme. No mesmo instante, a espada dourada brilhou com uma aura intensa, mas ele a lançou em minha direção antes que a energia pudesse se expandir.

A espada cravou-se no chão à minha frente com um impacto surpreendente, e eu fiquei estática, encarando a arma magnífica.

"Pegue. Vai precisar dela," ele disse, o tom calmo em sua voz sendo ao mesmo tempo, reconfortante e inquietante.

Em seguida, Azrael levantou a espada negra, segurando-a perto do rosto enquanto um sorriso leve surgia em seus lábios.

"Desperte, Senhora da Escuridão, Noir!" ele entoou, e, de repente, toda a mana em seu corpo foi sugada pela espada. A energia que emanava da lâmina negra era inconfundível — idêntica à de Noir. Confusa, olhei para a mesa onde ela havia estado antes, mas Noir havia desaparecido.

Finalmente, compreendi. Noir não era irmã, amiga ou qualquer outro laço familiar. Ela era, na verdade, uma serva de Azrael — e uma serva incrivelmente poderosa. As runas, os símbolos... Noir era um dos servos com quem ele tinha um contrato de alma.

"Vamos começar o jogo," ele disse, com uma confiança assustadora.

Se antes Eriel já não tinha esperanças de vencer, agora, com Azrael empunhando aquela espada negra que emanava a energia de Noir, a tarefa parecia verdadeiramente impossível.

Seu olhar desviou para a espada dourada cravada no chão à sua frente. Sabia que aquela lâmina era sua única chance de se igualar, mesmo que por um instante, ao poder esmagador de Azrael. Com hesitação, ela estendeu a mão e, ao tocar a espada, uma sensação incomum tomou conta de seu corpo. Algo foi transmitido diretamente à sua mente, palavras que, por algum motivo, ela sabia que deveriam ser pronunciadas.

“Desperte, Amaterasu!”

As palavras fluíram de seus lábios como um reflexo natural, e no mesmo instante, a lâmina dourada brilhou com uma intensidade ofuscante. Toda a mana comprimida na espada foi liberada, inundando o ambiente com uma aura quente e vibrante. A temperatura ao redor começou a subir, mas Eriel sentiu-se estranhamente confortável, como se o calor da espada fosse uma extensão de si mesma. O peso da lâmina era incrivelmente leve, o balanço suave — era como se a espada tivesse sido feita sob medida para o seu estilo de combate.

É como se essa espada estivesse me aprimorando, pensou, sentindo um poder antes inimaginável correr por seu corpo.

De repente, uma voz doce e harmoniosa ecoou em sua mente.

{É um prazer conhecê-la pessoalmente, Eriel, mas devo admitir que esta não é a maneira mais tranquila de fazer uma apresentação… Azrael tem o hábito de ser um pouco indelicado em momentos assim.}

Quem está falando? pensou, confusa, enquanto seus olhos varriam o campo de batalha à procura da origem daquela voz.

{Estou bem aqui, em suas mãos. Bom, permita-me aparecer para você.}

Com um brilho que apenas Eriel podia ver, uma figura deslumbrante se materializou diante de seus olhos. Era uma mulher de aparência nobre, com cabelos dourados que irradiavam uma luz intensa, como o próprio sol. Seus trajes, adornados com detalhes refinados, exalavam uma majestade quase divina. A aura que a envolvia era de puro poder e serenidade, algo que transcendia qualquer noção humana de grandiosidade.

“Eu sou Sonne,” a voz suave da mulher preencheu sua mente. “E estarei ao seu lado nesta batalha.”

Eriel ficou momentaneamente sem palavras, deslumbrada pela presença que agora a acompanhava. Sonne, a reencarnação do sol, estava ali, à sua disposição, sua força pronta para ser usada contra Azrael. Sentiu uma conexão imediata, como se a espada não fosse apenas uma ferramenta, mas uma aliada, uma extensão viva de sua própria força.

Respirando fundo, Eriel apertou a empunhadura da espada com mais firmeza. O calor suave que irradiava dela a encheu de uma nova confiança.

"Então, vamos lá, Sonne," murmurou, se preparando. "Vamos mostrar do que somos capazes."

Com um aceno de aprovação, Sonne sorriu levemente. {Vamos.}

Eriel, agora equipada com a espada e o poder de Sonne, sentiu-se pronta para encarar Azrael. Mesmo sabendo que a vitória seria improvável, algo em seu coração dizia que essa luta traria mais do que apenas derrota ou sucesso.

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