Eriel tentou se levantar, mas seu corpo parecia pesado, como se algo invisível a estivesse prendendo à cama. Ela não sabia ao certo quanto tempo havia passado desde que desmaiara, mas não podia se dar ao luxo de ficar na cama o tempo todo. A sensação de peso e a dor de cabeça leve que sentia ao se levantar lentamente eram um lembrete de que seu corpo ainda não havia se recuperado completamente.
Olhou pela janela e percebeu que já estava anoitecendo. Embora tivesse desmaiado por algumas horas, não fora o suficiente para restaurar suas forças. Enquanto seus pés tocavam o chão frio, as lembranças do sonho vieram à tona, especialmente a imagem do grande dragão branco. Algo dentro dela dizia que aquela criatura não era uma visão aleatória; havia uma conexão profunda e antiga que ela começava a entender.
Desde que chegara à mansão, Eriel tinha essa sensação estranha de déjà vu. Encontrar Azrael pela primeira vez havia despertado um sentimento familiar, como se ele fosse alguém que ela já conhecia de outras vidas. E agora, com o sonho do dragão branco, essa sensação apenas se intensificava, tornando impossível ignorar a ideia de que seu destino estava intrinsecamente ligado a essas figuras.
Toc-toc.
O som suave de batidas na porta a trouxe de volta à realidade.
"Entre...", ela chamou, sua voz soando mais fraca do que gostaria.
A porta se abriu lentamente, revelando Alice, cujo semblante abatido era uma indicação clara de que algo a estava incomodando. Ela caminhou em direção a Eriel, e quando seus olhares se cruzaram, Eriel pôde ver o peso da culpa nos olhos da amiga.
"Me desculpe pelo que aconteceu...", Alice começou, sua voz carregada de arrependimento e tristeza.
Eriel sacudiu levemente a mão, tentando acalmá-la. "Não se preocupe, já passou", disse, forçando um pequeno sorriso na tentativa de tranquilizar Alice. No entanto, a expressão da jovem continuava carregada de preocupação.
"Meu irmão agiu de maneira imprudente. Como irmã dele, sinto que devo me desculpar apropriadamente." Alice parecia genuinamente abalada, o que só aumentou o desconforto de Eriel.
A verdade é que Eriel sabia que o erro era dela. Ela deveria ter recuado quando sentiu que estava ultrapassando seus limites, mas decidiu continuar, mesmo consciente do perigo.
"Sabe, o Azrael também está arrependido pelo que aconteceu." Alice tentou aliviar a tensão, mas Eriel notou uma hesitação em sua voz.
Apesar da dor de cabeça que insistia em pulsar em sua têmpora, Eriel se moveu em direção a Alice, determinada a tranquilizá-la. Mesmo com o corpo ainda pesado, ela não permitiria que algo tão simples a impedisse.
Mas então, algo na expressão de Alice chamou sua atenção. Havia algo de diferente nela, algo que Eriel não conseguia decifrar de imediato. Alice, que normalmente era tão descontraída, parecia séria, quase preocupada, e Eriel não podia deixar de notar que isso não tinha relação direta com a sua condição.
"Houve algo?" Perguntou Eriel, tentando sondar a amiga. A surpresa momentânea no rosto de Alice revelou que ela havia entendido exatamente o que Eriel estava insinuando.
"Não é nada", Alice respondeu rapidamente, quase como se estivesse escondendo algo.
Eriel sabia que Alice não queria falar sobre o assunto, então decidiu não pressioná-la. Mas era óbvio que algo estava incomodando sua amiga, algo sério que ela não estava disposta a compartilhar.
"E o Azrael? Ele não veio com você?" A pergunta saiu quase sem pensar, mas a curiosidade de Eriel a respeito de Azrael era difícil de ignorar.
Azrael era mais complexo do que Eriel havia imaginado. Ele conseguia lidar com a pressão esmagadora que emanava de Naara, e ainda assim, não estava presente naquele momento, algo que a deixava inquieta. Enquanto Naara parecia sempre estar envolta em energia mágica, Azrael muitas vezes a deixava adormecida, o que apenas aumentava o mistério em torno dele.
"O Az saiu. Parece que tinha algo para resolver." A resposta de Alice foi breve, mas o desânimo que tomou conta de Eriel foi impossível de esconder.
Alice, percebendo a decepção evidente no rosto de Eriel, tentou suavizar a situação. "Mas não se preocupe, seu treinamento foi adiado. Parece que ele está um pouco mais interessado em treiná-la."
O sacrifício que Eriel fizera parecia ter valido a pena. A dor que ainda percorria seu corpo não se comparava à expectativa que sentia em relação ao treinamento com Azrael. Deveriam ter começado naquele dia, mas, devido a tudo o que acontecera, fora adiado.
O silêncio que tomou conta do quarto após a saída de Alice era quase reconfortante, mas os pensamentos que circulavam pela mente de Eriel não permitiam que ela relaxasse completamente. Deitada na cama, ela sentia o peso de sua responsabilidade crescendo a cada segundo. As expectativas sobre seu futuro e as memórias de sua mãe formavam um turbilhão de emoções dentro dela.
Eriel sabia que estava em um caminho difícil, um caminho que sua mãe poderia ter trilhado se estivesse viva. As habilidades extraordinárias de sua mãe eram lendárias, algo que até seu irmão, o humano mais forte do clã, não conseguia superar. Saber que possivelmente herdara uma fração desse poder era ao mesmo tempo motivador e assustador.
"Se ao menos eu pudesse acessar aquele lugar novamente," pensou Eriel, relembrando o espaço onde o grande dragão branco dormia. A sensação de familiaridade que aquele lugar transmitia era intrigante, como se fizesse parte de sua própria essência, mas a barreira invisível que a impedia de retornar era frustrante. "Por que não consigo voltar?"
Ela se levantou da cama, caminhando lentamente até a mesa onde a foto de sua mãe repousava. O olhar firme e determinado de sua mãe na foto parecia transmitir uma mensagem, algo que Eriel ainda não conseguia decifrar. Tocou levemente a moldura, como se procurasse uma conexão que a ajudasse a entender o que estava acontecendo consigo mesma.
"Mãe... se você estivesse aqui, o que diria? Como eu deveria proceder?"
Suspirou profundamente, ciente de que essas respostas não viriam facilmente. A lembrança das habilidades primordiais continuava a ocupar sua mente. Realidade, Criação, Tempo—esses poderes que transcendem o comum eram ao mesmo tempo, fascinantes e perigosos. O pensamento de possuir uma dessas habilidades, mesmo que em menor escala, fazia sua imaginação voar, mas ela também sabia que isso traria uma responsabilidade enorme.
"A onipotência, onipresença, onisciência..." murmurou para si mesma, refletindo sobre as descrições que lera. "Essas são capacidades que ninguém deveria possuir completamente, mesmo os mais fortes entre nós."
O decreto do Deus Supremo era claro—essas habilidades eram proibidas, e seus usuários limitados. Isso não apenas servia para manter a ordem no universo, mas também para proteger aqueles que não tinham como lidar com poderes tão vastos e imprevisíveis.
"Será que estou destinada a trilhar o mesmo caminho da minha mãe?" Eriel se perguntou. "E se eu falhar?"
Mas então, algo dentro dela se acendeu. Talvez fosse o mesmo espírito inabalável que sua mãe possuía, ou talvez fosse simplesmente o desejo de não decepcionar aqueles que colocaram sua confiança nela. De qualquer forma, Eriel sabia que não poderia desistir.
Voltou para a cama, decidida a descansar e se preparar para o que estava por vir. Mesmo que o caminho à frente fosse cheio de incertezas, ela enfrentaria cada desafio com a determinação que herdara de sua mãe. Não importava quão difícil fosse, Eriel estava disposta a lutar pelo futuro que acreditava.
"O amanhã trará novos desafios," pensou enquanto fechava os olhos, "e estarei pronta para enfrentá-los."
O pensamento de Eriel sobre o legado de sua família e seu próprio caminho de crescimento era uma mistura de determinação e saudade. A foto de sua mãe ainda estava em sua mente, e os sentimentos que ela evocava não eram fáceis de ignorar. Mas a decisão de focar no futuro e nas oportunidades à sua frente era o que a mantinha motivada.
"O treinamento com Azrael será um marco importante," pensou, enquanto seus olhos se fixavam na imagem da mulher emoldurada. "Se ele é realmente tão habilidoso quanto dizem, será minha chance de aprender e evoluir."
Os relatos sobre as habilidades de Azrael eram impressionantes. Sua capacidade de enfrentar e superar desafios parecia quase mítica. Eriel sabia que teria que se esforçar para acompanhar o ritmo de alguém com tanta experiência e talento. O pensamento de estar à altura de alguém como Azrael era tanto estimulante quanto intimidante.
"Quero ver de perto o que faz dele um líder tão respeitado," refletiu Eriel. "Ver suas técnicas e métodos, entender o que realmente faz dele um mestre."
As palavras de Ethan, seu irmão, sobre a competência de Azrael e os elogios de Zenith, Naara e Noir alimentavam sua curiosidade e expectativas. Eriel ansiava por ver como aquele treinamento transformaria suas habilidades e a aproximaria de seus objetivos. O desejo de se tornar uma guerreira capaz e independente a impulsionava para frente, e ela estava determinada a não desapontar aqueles que depositaram confiança nela.
"É assim que minha avó, minha mãe e meu irmão se destacaram," pensou, recordando as histórias sobre sua família. "Eles lutaram para se tornar poderosos e respeitados, e eu também farei o mesmo."
Com um suspiro, Eriel se concentrou em seus pensamentos sobre o futuro. "Eu me tornarei forte. Eu aprenderei e me adaptarei. Não importa o quanto eu tenha que lutar para chegar lá."
O treinamento de Azrael seria um teste crucial, mas também uma oportunidade inestimável. Eriel sabia que a jornada à frente seria árdua, mas estava pronta para enfrentá-la com coragem e determinação.
"Só mais um pouco e estarei no caminho certo," pensou, fechando os olhos e permitindo que o sono a envolvesse. "Eu farei minha parte e me tornarei tudo o que minha família esperava de mim."
Com essas resoluções firmes em mente, Eriel finalmente se entregou ao descanso, pronta para o novo dia que traria não apenas desafios, mas também a chance de se aproximar de seus objetivos e do legado que ela estava prestes a continuar.
***
Eriel olhou para Azrael, atônita. O sorriso dele parecia brincalhão, mas os olhos, sérios e penetrantes, não davam indícios de que ele estava brincando. O pequeno relógio que ele havia lhe entregue parecia inofensivo, mas a simplicidade do pedido a deixou confusa.
"Observar o relógio o dia todo?" repetiu Eriel, buscando confirmação no olhar de Azrael. "Isso é... tudo?"
Azrael acenou com a cabeça, seu sorriso não se desvanecendo. "Sim, é isso. Sua tarefa é observar cada movimento do ponteiro com atenção. Pode parecer simples, mas o verdadeiro desafio está na sua capacidade de concentração e percepção."
Eriel ergueu uma sobrancelha, ainda sem entender totalmente. "E qual é o objetivo disso?"
"No início, pode parecer trivial," respondeu Azrael, "mas o tempo é uma das habilidades primordiais. A capacidade de observar e entender o fluxo do tempo, mesmo em suas formas mais sutis, é fundamental para qualquer treinamento avançado. Este exercício vai testar sua paciência, sua atenção aos detalhes e sua habilidade de lidar com a monotonia."
Noir, que estava ao lado de Azrael, parecia satisfeita com a explicação, mas Eriel ainda lutava para processar a informação. Ela olhou para o relógio novamente. O ouro brilhava ao sol da manhã, e o som suave do tique-taque era quase hipnótico.
"Você pode começar agora," disse Azrael, com um tom encorajador. "Coloque o relógio em um lugar onde possa vê-lo claramente e observe-o sem interrupções. Seu objetivo é entender o ritmo do tempo e como ele influencia seu estado mental."
Eriel pegou o relógio com as mãos trêmulas e o colocou sobre uma pedra próxima, de modo que pudesse vê-lo de qualquer lugar em que se sentasse. Sentou-se em frente ao objeto, tentando focar sua mente no tique-taque constante.
Enquanto o tempo passava, Eriel se via cada vez mais envolvida no desafio. A princípio, a tarefa parecia fácil, mas logo a monotonia começou a testar sua concentração. Cada segundo se arrastava, e o tique-taque do relógio parecia ecoar em sua mente. Ela sentia a tentação de desviar o olhar, mas lembrou-se das palavras de Azrael e da importância desse exercício.
Sua mente começou a vagar, mas ela a trouxe de volta repetidamente, concentrando-se nas pequenas mudanças no movimento dos ponteiros. A cada hora que passava, ela sentia seu corpo se adaptando ao ritmo do tempo e sua mente se tornando mais afiada. A tarefa que parecia simples à primeira vista estava revelando camadas de complexidade que ela não havia antecipado.
O dia passou lentamente, e Eriel continuou a focar no relógio, lutando contra a fadiga e a monotonia. Cada instante parecia testar sua determinação e paciência. Mesmo quando o sol começou a se pôr e a escuridão envolveu o campo de treinamento, Eriel manteve o olhar fixo no relógio.
Finalmente, quando a noite caiu e o silêncio tomou conta do campo, Azrael e Noir se aproximaram. Azrael observou Eriel com uma expressão de aprovação.
"Como foi o exercício?" ele perguntou.
Eriel respirou fundo, sentindo a exaustão em seu corpo, mas também um sentimento de realização. "Desafiador," respondeu, tentando não deixar transparecer o cansaço em sua voz. "Mas acho que entendi o propósito."
Azrael sorriu. "Isso é apenas o começo. O treinamento com o tempo vai exigir mais de você, mas a paciência e a percepção que você desenvolve agora serão fundamentais para seu progresso futuro."
Eriel acenou com a cabeça, ainda fixando o olhar no relógio, que agora parecia mais do que um simples objeto — era uma ferramenta essencial para o seu crescimento.
"Eu farei o que for preciso para me tornar forte," pensou Eriel, enquanto se preparava para enfrentar mais um dia de treinamento. "Este é apenas o começo da minha jornada."
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Atualizado até capítulo 30
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